Será que até mesmo nas abordagem racional devemos equacionar as racionalizações mais irracionais?

Acredito que não só devemos. Mas precisamos fazê-lo, e quanto mais rápido o fizermos mas cedo encontraremos as soluções que buscamos. E espaço para aplicar as soluções que descobrimos.

Gabriel Jardim escreveu um texto que pelo tema e abordagem me chamou muita atenção. A questão problema do crime, sistema penitenciário e penas capitais. Resolvi lhe escrever uma resposta. Porém ao final acabei escrevendo uma bula de remédio. Chata, comprida e só com utilidade (fora para quem vive de produzir “remédios” ou bulas) para viciados em remédios (hipocondríacos) ou viciados em leitura, porque a de se convir quem não consegue deixar de ler nem bula de remédio, sem der doente nem imaginário é doente por leitura.

Logo como acho que pode vir interessar a outros escritores, estudiosos e até mesmo ativistas que lidam com problemas de tão difíceis solução e de mais difícil ainda publicação e aplicação da solução. Transformei a resposta em texto que destaca o artigo de Gabriel Jardim:

Eis o artigo:

E aqui a bula:

Parabéns, pelo trabalho Gabriel Jardim. Concordo com você, os argumentos racionais que você apresenta fundamentados no custo e eficiência do sistema prisional são razão mais do que suficiente para que o leitor para o qual você escreveu seu artigo mude seu pensamento. Isto quem alegadamente se move por princípios racionais e adota critérios lógicos e matemáticos de maximização do bem-estar geral dentro de uma abordagem econômica.
O ponto é, e aqui me solidarizo com você, porque já adotei essa estratégia na defesa de outros causas humanitárias, é que o leitor ou ouvinte que se publicita como sensível a argumentos racionais, na verdade utiliza o epiteto de racional mais como propaganda, ou seja recorre mais ao efeito psicológico dessa marca do que propriamente se vale da razão para sustentar quanto mais modificar seus pensamentos ou comportamentos.
Em suma há que se ter em mente que o racionalismo é dominado tanto por hipócritas quanto charlatões muitos deles portadores de títulos que dizem o contrário, e garantem as posições chaves que impede tanto a mudança do sistema quanto a cabeça das pessoas que de boa-fé, tomam racionalizações de comportamentos por argumentos racionais.
Há que se considerar se seu objetivo for sincero- e tomo a liberdade de me manifestar por conta que o rigor do seu trabalho denotam que o é- se o objetivo for humanizar o sistema, no caso prisional, disponibilizando ao leitor dados e argumentos que permitam a leitor a mudar seus juízos se valendo do seu próprio raciocínio, há que se ter em conta, que o leitor que detém o poder legal para modificar esse sistema, ou usar da “autoridade”sua influência intelectual, ele sabe perfeitamente da irrefutabilidade dos seus dados e argumentos. Há portanto que se levar em conta, se ou quando o objetivo de um escrito é a promoção de uma transformação humanitária e porque não dizer, da nossa condição enquanto humanidade que tanto o seu leitor “produtor de conhecimento” quanto o “tomador das decisões supostamente fundadas em critérios racionais” sabe até mesmo pela prática que custa mais caro. Ele sabe que está pagando mais para fazer do jeito deles e não do que você propõe.
Isso não lhe obriga em nada a rever não a premissa fundamental que você com muita consciência da sua produção escrita enuncia no principio do texto ao dizer que os valores humanitários não precisam ser postos em questão nem mesmo como axiomas para chegar a conclusões humanitárias. Mas certamente obriga a reavaliar a suposição que os seres humanos tomam decisões politicas ou econômicas em bases verdadeiramente racionais, e que todas as decisões que visam apenas maximizar o bem-estar ou felicidade particular de modo que o erro e sofrimento que seus atos produzem sejam fruto apenas da ignorância ou ausência de sistemas win-win onde todos saem ganhando.
Há que se levar em conta que o desvio padrão do dito comportamento normal não pode ser desconsiderado, porque na verdade os vetores das transformações humanitárias que propiciam as mudanças de paradigmas e mentalidade são efetuadas por indivíduos não partilham destes sistemas de valoração do normal. Assim como existem pessoas que não se importam em custear a promoção do bem-estar sem maximizar ou até mesmo sacrificando o seu; há do outro lado também aquelas que não se importam em pagar caro, ou o que é mais comum impor sacrifícios forçados aos outros para satisfazer aquilo que lhe traz gozo e “felicidade”.
Filósofos, juristas, homens de fé e razão, e até mesmo que se diziam como homens da mais alta fé na racionalidade, ou das razões da fé, foram inquisidores responsáveis pela criação de alguns dos objetos e métodos judiciais de tortura e execução que revelam quais eram as verdadeiras forças nada racionais mas profundamente libidinosas que moviam esses sistemas penitenciários. E não só eles os enforcamentos, execuções públicas, sempre tiveram esse componente catártico das taras e perversões mais inconfessas de uma sociedade frustada e reprimida em todos as planos da realização da sua felicidade, não apenas sexual, mas moral e até espiritual.
Enfim lhe escrevo, para dizer que seu esforço de produção de um trabalho racional sobre um tema dominado por racionalizações de preconceitos e manias irracionais das mais desumanas toca tanto a minha razão quanto a minha sensibilidade. Meu amor pelo conhecimento e pelas pessoas que o produzem como pessoas e para as pessoas.
As vezes nos mais sérios estudos, nos menos providos de apelos emocionais encontramos as mais sinceras preocupações com a dignidade humanidade invadindo os campos do economicismo e academicismo para enfrentar seus mais absurdos erros em seus próprio campo e termos.
Abraços.

Em tempo não posso deixar de passar como referência sobre a questão prisional a obra de LOÏC WACQUANT, ao final do texto abaixo tem links interessantes:

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