Violência, Não-Violência e Contra-Violência

Uma Introdução ao livro Como a Não Violencia protege o Estado de Peter Gelderloos

Para muitas pessoas, em geral pacifistas, o que estou dizendo não faz sequer sentido. Existe a violência e sua negação; sua prática e renuncia; e ponto final. Para outras, estritamente legalistas, talvez menos ainda. Para eles a contra-violência seria simplesmente a violência estatizada, o próprio monopólio da violência institucionalizado contra a marginalidade- violenta ou não.

Porém nem toda propaganda pelo ato é violenta e nem toda resistência pacifica somente não-violenta. Existe uma terceira via de ação propositiva e construtiva que usa da ação social não só como meio para a resistência ou propaganda, mas como método de transformação do mundo onde ele mias precisa ser mudado na cabeça e comportamento das pessoas.

Hoje que o mundo está claramente sendo tragado por essa onda reacionária podemos entender com mais clareza tanto as armadilhas evidentes da violência, tanto institucionalizada como seu monopólio quanto da contrarreação desesperada desses povos e pessoas contra ela. Mas não só. Podemos entender também o fracasso e armadilha da não-violência. E consequentemente a necessidade que tínhamos (e temos ainda com mais urgência) em adotarmos novas posturas de defesa proativa de nossa vida e liberdade como direitos fundamentais.

Em 2015 no livro Revolução introduzi o conceito de contra-violência como alternativa tanto a violência (inclusive a estatizada) como método de libertação e celebração da paz. Muito embora, em 2015, a proposta de um ativismo social e libertário fundado na contra-violência ainda parecesse fora de tempo e lugar, muitos já não viviam mais aquele clima de otimismo das redes do começo do século. Já não acreditavam mais que as primaveras dos povos e as manifestações populares não iriam transformar virtualmente nem muito menos sozinhas o mundo inteiro.

Natural e importante era esta crença que leva toda nova geração a sentir especial em seu tempo. Mas entre as velhas cabeças conformadas e conformistas e as novas entusiastas das transformações promovidas pela evolução tecnológica começavam a surgir um pensamento mais crítico em relação a inevitabilidade das revoluções social junto como as informacionais e industriais. Começava-se a ver que umas não implicavam necessariamente nas outras. Sendo muito mais um portal para o futuro do que um caminho certo.

As transformações que essas revoluções industriais e informacionais provocam são inevitáveis, mas não necessariamente são vetores de transformações sociais, políticas igualmente profundas e revolucionárias. Não necessariamente implicam em evolução da mentalidade e consciência nem muitos menos num progresso material universal para toda a humanidade. Pelo contrário, o avanço de uma civilização que detém determinado avanço tecnológico tem implicado a extinção de outras muitas vezes não apenas como cultura mas como raça. De fato não existe nenhuma correlação entre avanço tecnológico dos veículos de comunicação e produção com a mentalidade dos povos, sua predisposição a preservação da vida ou diversidade humana e natural. E se há uma prova empírica, nós somos esta prova.

Logo, a mudança a necessidade de mudança de paradigma econômico e político que as revoluções industriais e informacionais ensejam é muito mais uma oportunidade para que possamos transformar a mentalidade e cultura da humanidade do que propriamente um consequência inevitável. Passamos por diversas mudanças de sistemas políticos e econômicos e até mesmo culturais mas o paradigma de sustentação desses poderes, o culto ao poder total, a cultura de monopólio da violência como pilar da fundação dos estados de paz, esta ideologia a qual podemos chamar estadismo não existiu sempre nem o tempo todo em todos os lugares, mas já perdura como hegemônica há milênios.

Quem olhava portanto para o momento, não como apenas como um movimento de libertação surgido há décadas ou séculos, mas como uma guerra entre os adoradores do poder e os amantes da liberdade que dura desde antes do início da história, já conseguia antever que os primeiros não iria entregar os anéis, sem antes tentar de novo contar dedos e pescoços dos demais. Sabiam que depois das primaveras dos Povos haveria de vir o longo inverno reacionário dos Estados.

Estamos hoje portanto em pleno inverno reacionário provocado pelo estadismo, que resiste a ceder qualquer privilégio e abrir caminho pacificamente a demanda por liberdade e emancipação dos povos e pessoas. Tanto em sua forma mais primitiva a política como ameaça e agressão armada, quanto em sua forma mais “desenvolvida” econômica através dos seus tentáculos privados: como ameaça e privação meios vitais e ambientais do que resta de bens comuns e naturais.

O quão longo e rigoroso será este inverno dos Estados contra a emancipação da sociedade, isto vai depender do resultado dessa guerra de um lado por liberdade do outro pelo poder.

hoje é muito mais fácil entender a necessidade que manifestações, protestos e demandas suplicantes ou violentas aos poderes e supremacias constituídos não vão sensibilizá-las nem muito menos pressioná-las ou amedrontá-las. Pelo contrário ambas irão servir para legitimá-lo perante os alienados que como a base dessa grande pirâmide os alimentam e sustentam esses cultos com seu trabalho e sangue, com recursos financeiros e humanos, em nossos sacrifícios contemporâneos. A reação violenta das vítimas e marginalizados como desculpa para sua definitiva criminalização e extermínio. A não-violência para a legitimação da sua paz romana que promove os holocaustos lento e invisível dos excluídos desprovidos de meios e condenados a trabalhar servil e alienadamente até a morte.

É hoje perante está onda reacionário deixa de ser a tempestade perfeita que se avistava ao longe no horizonte para rebentar como verdadeiro tsunami no mundo, como mar de violência que avanças por terras arrasadas e volta a tomar o poder; é hoje que esse mar de violência se generaliza como discursos de ódio apologia a violência e patrulhas ideológicas não mais apenas entre reacionários mas entre contra-reacionários que entendemos a vulnerabilidade de nossas instituições, práticas e a fraqueza dos ideários e ideologias que as sustentam a paz um estado de passividade e reatividade, assim como a liberdade como a mera negação ou ausência dessas violência e violações.

É hoje que vemos a cultura da violência tomando conta não só dos partidários da reação autoritária e violenta contra as pessoas, classes, povos, gêneros e raças que buscam sua emancipação, isto é querer se ver livre da deles, mas da própria contrarreação dessas pessoas que se sentem mais ameaçadas que nunca, que podemos ver a que a violência e a não-violência realmente servem, principalmente a não-violência confundida com a mera renuncia da violência em favor do monopólio dos violentos, ou desobediência civil suplicante aos supremacistas.

De fato a apologia a violência estato-institucionalizada e a não-violência civil-desobediente já se incorporam no jogo dos privilégiados que não são mais obrigados a lutar por sua sobrevivência ou ganhar ela defendendo as condições de vida privilégiadas daqueles que podem tomar partido ideológico deste ou daquele “ponto de vista”. A violência e não-violência são apenas componentes, mais uma propriedade das práticas e sobretudo discursos que caracteriza os polos do espectros político estatizado que caracteriza a própria divisão nacional e internacional dos povos e sociedades.

É sobretudo hoje que essa onda reacionária rebenta para além dos discursos de intolerância e ódio, para explodir como propaganda pelo ato violento; hoje que o terrorismo tanto o estatal quanto o marginal se abraçam para explodir gente de carne e osso quase sempre inocente ou ignorante em nome de suas ideologias que entendemos enfim que falhamos mais uma vez como humanidade perante as novas gerações. E o quanto nos enganamos pensando que havíamos no fim século XX encontrado as formulas e caminhos da liberdade que levam a paz.

Podemos ver claramente agora quanto o monopólio e cultura da violência seja estatal ou revolucionária e a mera negação ou protesto não-violento contra ambas redundam num ciclo vicioso de submissão e acomodação ou reforço das violência as e violadores e seus sistemas de exploração. E a vulnerabilidade de ambas na neutralização das ameaças, superação dos conflitos e extinção dos males que geram e retroalimentam todas as formas de violência e violações. É agora que ameaça reacionária do autoritarismo começa a se revelar e disseminar em sua forma bruta, sem as máscaras da hipocrisia, que podemos entender melhor a necessidade de buscarmos novas práticas de promoção e defesa da paz.

Porém antes de apresentar o outro caminho da contra-violência, é vou primeiro problematizar um pouco mais a questão da violência e não-violência, publicando em partes o ensaio de critica da não-violência e defesa da propaganda pelo ato violento do ativista anarquista Peter Gelderloos.

Qualquer postura pacifista revolucionária, isto é, qualquer ativista que tenha fé ou profunda convicção de que pode transformar qualquer coisa no mundo, ou pelo menos a sua própria condição humana e papel ética dentro dele sem violência. Deveria levar em consideração os argumentos desse ativista especialmente em seu livro: Como a Não-Violência protege o Estado.

Quem não é um pacifista porque é um crente que assume a paz como dogma ou doutrina assimilada sem pensamento livre e crítico, mas sim por que de considera a sua postura ou fé na paz produto do raciocíocio sensível e consciente e não doutrinação deveria levar em consideração os argumentos de Gelderloos. Para saber se quer ser de fato um pacifista. Ou simplesmente é um passivista sempre pronto a lavar as mãos como Pilatos e conviver de boas com a violência e seus cultos e impérios.

Esse livro é um verdadeiro testes tanto do que ou quanto estamos dispostos a enfrentar para estender a mão ao próximo. Ou o quanto estamos dispostos a a tolerar e submeter por medo do que também vamos sofrer. Um verdadeiro desafio para quem quer fazer tanto do seu convicção de que não viemos a esse mundo a passeio e que a violência não é o caminho mas em todas as formas o mal, algo mais consistente.

Um livro para ativistas, libertários e revolucionários que não tem medo de forçar suas convicções no fogo, ou perdê-las. Digno dos verdadeiros escritos anarquistas malditos e marginais do inicio do fim do século XIX. Um soco na cabeça, para quem tiver a coragem de questionar e reavaliar seus princípios sem medo.

Adianto que estes foi dos escritos que me ajudou a mandar todo mundo pro inferno e começar a pagar uma renda básica do meu próprio bolso do nada, como uma espécie de ato de desobediência não civil, mas de interesses governamentais, no jargão do ativismo uma “propaganda pelo ato” só que ao invés de explodir algo, construir algo a revelia de quem espera que eu fique esperando ele não fazer nada. Uma especie de atendado contro o terrorismo de estado, ou simplesmente de construção da contra-violência como ato pela paz, buscando a neutralização das causas mais estupidas das injustiças e violências proativamente e não mais reativamente.

Creiam ou não é essa fé ou consciência que mantém eu e minha esposa até hoje praticamente sozinhos nesta luta, tirando tempo e dinheiro que poderia ser investido em nossa casa, nossa carreira e sobretudo nossos filhos para colocar na mão de pessoas que mal conhecemos. Talvez lendo Gelderloos esse ato parece menos loucura e faça como para faz para nós mais sentido. E quem sabe mais pessoas passem a entender que egoismo e altruísmo estão apenas desintegrados num mundo onde as pessoas estão ao mesmo tempo tão ensimesmadas e alienadas aos outros que são incapazes de perceber que, pobres ou ricos, o melhor investimento no seu futuro e o dos seus filhos é o investimento no próximo, ou melhor, o próximo é pouco, em todos inclusive nos distantes e desconhecidos.

Mas vamos ao texto que explica porque Gelderloos não acredita na não-violência e em partes porque eu não acredito nem baseio meu ativismo nem em uma nem em outra. Com a palavra agora Peter Gelderloos e porque ou melhor : Como a Não-Violência protege o Estado.