“Violência se combate com porrada”

Da indignação com os discursos versus as práticas

Muita gente ficou chocada com as declarações do parlamentar que se notabilizou por seu discurso populista de apologia a violência institucionalizada. Não deveriam. Ele expôs de forma tosca e pornograficamente a base com a qual sustentamos de fato nossos contratos sociais e Estados-Nações. E isso é extremamente estupido e perigoso do próprio ponto de vista autoritário porque depõe contra a propaganda e hipocrisia das democracias liberais e sua pax romana.

A limitrofia dos raciocínios de Bonsonaro como a de Trump não faz muito tempo era uma retórica mais ridícula do que perigosa. Hoje é o contrário. Sinal que a imbecilidade não mudou, mas os riscos da sua propagação cresceram exponencialmente. Não temos mais um louco falando sozinho, mas um louco cheio de seguidores fies que encontraram no seu discurso a voz o consolo as suas frustrações e a esperança para suas vontades reprimidas.

Pensar que o discurso de Bonsonoro reinventa o fascismo e sua violencia reacionária é ignorar que ele não faz a cabeça de ninguém que já não tenha a cabeça afeita. Ele apenas manifesta o sentimento de uma parcela significativa da população brasileira que permaneceu calada no armários velando e alimentando seus ódios, enquanto aqueles que se julgavam os arautos da democracia com suas patrulhas ideológicas acreditam que haviam eliminado os ovos da serpente com suas patrulhas ideológicas e sua paz hipócrita.

Considerando que outra parte significativa não se opõe a esse tipo de violência se ele for devidamente legalizada. Ou então mesmo se opondo não está disposto a se opor a nenhum tipo de lei, mesmo a criminosa. E mais que uma grande parcela da população que não nutre ódios, encontra-se desiludida e revoltada com a prepotência e hipocrisia das ideologias supostamente pacifistas e progressistas. Temos um caldo social e cultural explosivo muito bem fermentado.

Fenômeno similar ocorreu em todo mundo após a segunda guerra especialmente no ocidente. Abriu-se uma guerra ideológica contra o nazismo, o fascismo e o comunismo, este não só em sua vertente autoritária, mas em todas as suas formas, mesmos as pacíficas e não bolchevistas. Muitos países proibiram a apologia dessas ideologias, a ostentação de seus símbolos e a legalidade de tais organizações, e completaram esse processo com muita propaganda ideológica supostamente tomada por educação contra essas ideologias, seus preceitos e preconceitos.

Hoje está claro que esta estratégia não funcionou. Mesmo nos países ditos desenvolvidos que ao contrário do Brasil tem memória das suas ditaduras e seus porões de Vargas aos militares, o que se formou não foi gerações mais conscientes e sensíveis aos perigos do totalitarismo, mas gerações que conheceram a história dos crimes contra a humanidade embrulhada nos mesmos livros que passam ao largo, ou quando não glorificam os crimes dos vencedores.

Foram colocados pinos, travas, assuntos proibidos tratados superficialmente até porque ir a fundo nas origens dessas ideologias depunha contra essas mesmas ideologias e democracia liberais formada igualmente em genocídios, guerras e mitos de superioridade racial e nacional. Mitos patrióticas e culturas de supremacia e violência que foram edulcorados junto com sua própria história por maquinas de propaganda que detinham até então o monopólio dos meios de comunicação e formação de opinião.

A solução do pós-guerra não foi a mudança das condições politicas, econômicas e culturais, mas sim um rearranjo do sistema de modo a preservar os privilégios através de nova ideologia hegemônica, onde a liberdade e os direitos humanos foram incorporado aos discursos, mas não as práticas institucionais. Dentro das bolhas burguesas os privilégiados viviam com a sua ilusão civilizatória de paz e prosperidade, mas fora dos muros enbandeirados dos seus condomínios, nos territórios e periféricas do mundo afora seus exercítos e policias garantiam que os excluídos não só não tocassem em fio dos seus cabelos, mas que pudessem manter seus discursos de pacifismo, direitos humanos e a feia realidade dos que não tinham esse privilégio bem longe dos sua sensibilidade polida e civilizada.

A supremacia dos seus monopólios de violência, os seus estados-nações permitiram a essas sociedades civilizadas cultivar como uma nova aristocracia uma sensibilidade culta e refinada, bem protegida das barbaridades do mundo marginal povoado por bandidos, vagabundos sujos que morrem nas pilhas do lixo dos dejetos do seus sistema, bem como da brutalidade da sua policia e exercito que contém essas massas em sua explosão de revolta.

Neste mundo que nós os privilegiados habitamos, existem os defensores dos direitos humanos que odeiam a brutalidade policial do Estado que os guarda seus privilégios, e os apologistas calados ou falantes, ignorantes ou muito bem ilustrados que defendem as bases da sua condição privilegiada. Pergunto se Bolsonoro dourasse a sua pilula com discurso ao gostos dessas burguesias e intelectualidades de esquerda ou direita, se fosse capaz de racionalizar a sua pregação da sua brutalidade com argumentos legalistas e legitimista ao gosto do freguês, se eles seria visto como um maluco ou como um jurista. Quiça até um filósofo das prerrogativas de legitimidade dos monopólios da violência. Seria então bem quisto e recebido e admirado por esses hipócritas e suas patrulhas ideológicas que estão mais preocupados com a agressão com seus projetos de poder e mundo ideal do que com quem morre ou mata seja lá pelo quê for.

Com certeza seria mais bem recebido por essa velha aristocracia do século passado, mas não é ela a sua freguesia. Não é para eles que ele fala. Evidentemente que a burguesia parva de direita e cheia de medos e ódios o apoia, mas porque é ignorante. Não é para eles que ele está dirigindo seu discurso de ódio. Mas para a população que cansou da hipocrisia tanto das velhas esquerdas quanto direitas. Se engana quem pensa que seu discurso não tem apelo popular, porque de modo inviesado partilha do grande parcela da população da classe empobrecida e marginalizada brasileira defende a criminalidade. Confundem marginalidade com bandidagem. Confundem a tolerância de quem quer viver em paz com qualquer que seja a supremacia armada em seu território, como apoio a essas forças legais ou ilegais. Confudem a conformação de quem não tem outra alternativa que senão se submete aos criminosos fardados ou não, com foros privilégiados ou não que lhe apontam direta ou indiretamente armas com conformismo.

Hoje a esquerda autoritária se finge de supresa por encontrar ainda uma população extremamente conservadora e que troca o mito do salvador de esquerda com a mesma facilidade com quem troca de roupa. Mas é justamente esse o ponto. Se você vende roupagens e ideologias e não a mudanças das estruturas sociais e pensamento hierárquico, não só os crentes e fanáticos vão de um polo a outro da adoração ao ódio com a maior facilidade como a própria população que não tem uma plataforma social nem cultural própria vai junto, exatamente como o esperado.

A empoderamento popular promovido pela esquerda tradicional do ponto de vista mais importante que é o do despertar da consciência foi uma farsa tão grande quanto o é o próprio ambiente politico partidário onde eles encontraram palco para vender seu charlatanismo: a democracia liberal.

Não é preciso nem ser libertário. O própria velha doutrina socialista marxista explica que a esquerda trabalhista brasileira sempre foi uma farsa ideológica. Socialismo de sacristia. Marxismo de igreja. Uma contradição de princípios e termos. Salvo raríssimas exceções que sofreram o destino de todos do expurgo de todos aqueles que não se enquadram dentro das ideologias e organizações autoritários e totalitárias. O que as ditas comunidades eclesiais fizeram foi mais for massa de manobra com doutrinas de esquerda do que pronta a seguir os lideres carismáticos do que propriamente promover qualquer educação no sentidor libertador freiriano.

Progressistas, humanistas e empoderadores eram apenas os discursos porque as praticas eram mais do que autoritárias eram conservadores da mentalidade milenar servil, paternalista e arcaicas. Conservadores e evangélicos só tiram pescam hoje em aquário. O brasileiro não ficou conservador. Ele foi mantido alimentado em sua essência retrogradas apenas embrulhado e conservado em ideologias “progressistas”. Ou em outras palavras, trocaram-se os discursos mas as práticas que conformam a cultura de um povo permaneceram exatamente as mesmas. As bases continuam comunidades eclesiais só que de outras igrejas e “santos”, quem manteve hierarquias intactas tanto como cultura quanto instituições seja para não preservar seus privilégios, seja para poder usufrui-los crendo que seriam aceitos nos clubes fechados destas aristocracia do poder.

Não a classe operária nunca foi ao Paraíso. Os velhos e poderes lideres dos trabalhadores, ou melhor trabalhistas sim com as bençãos eclesiásticas, mas não ficaram neste céu dos materialistas por muito tempo, nem fazendo pacto com os diabos que mandam por lá. A democracia branca e liberal não é lugar de preto nem trabalhador, nem mesmo os pelegos e pretos da casa.

Bolsonaros não estão abrindo as caixa de Pandora. Bolsonaro como Trump ou Dória são oportunistas políticos que estão aproveitando que a caixa de pandora se rompeu para chegar onde seu ego frustado sempre quis, literalmente aparecer: no poder.

Neste sentido, eles não são formadores de opinião, mas os lideres de opiniões há muito formadas e recalcadas. São os catalizadores da explosão de um inconsciente coletivo reprimido de quem critica ou enaltece um estatus quo, completamente alienado e cada vez mais exposto como contraposto a sua pessoa.

A democracia derrete e é incapaz de resistir ao avanço dessas ideologias de apologia do autoritarismo, porque a democracia liberal é um mito, é uma peça de propaganda ideológica. Os direitos humanos se esfacelam diante da apologia da violência porque a declaração universal dos direitos humanos não passa disso, uma declaração, um pedaço de papel que como qualquer outra carta magna nacional ou internacional não celebra nada de concreto que não seja abençoado pela graça dos monopólios da violência, em especial as suas superpotências. Uma peça de propaganda das esquerdas tanto porque a eles interessa a propriedade exclusiva desse ideal universal, quanto porque as direitas não reconhecem humanidade em ninguém que não pertença as suas raças, classes ou gêneros predefinidos, em geral por berço.

O pós-guerra apostou que a propaganda ideologia e a doutrinas educacionais seriam capazes de manter esse processo até que a nova ordem mundial capitalista-ocidental tivesse tomado todos os cantos do Mundo. Não contavam a resistência geopolítica da China e da Rússia, ou até mesmo cultural e religiosa dos povos mulçumanos. E quando contrariados o que fazem? O que qualquer estado patriarcal, ocidental ou oriental, faz deste o inicio desses tempos: abandonam o diálogo e vão as vias de fato com seus cães e apologistas do monopólio da violência e da guerra. Onde a truculência do discurso do Bolsonoro não é a prática como lei? Fora das bolhas dos salões cortes, academias e parlamentos a luta pela vida onde a luta por privilégios feita com a ética e elegância, violência e até mesmo desobediência se combatem com porrada, mas chama de império da lei para que ninguém perca o apetite.

O que incomoda em Bolsonaro é que ele é o capitão do mato na casa grande. O bruto dentro da corte. O caçador de negros que lembra aos civilizados que seus discursos em favor dos direitos humanos ou do Estado que protege os civilizados contra esses marginais é um jogo de poder da aristocracia feita as custas de seres humanos transformados em caça e caçadores. O menino de ouro, Doria Jr, leva vantagem nesse quesito seu higienismo é muito mais limpinho e cheiroso. Não fere a sensibilidade aristocrática nem burguesa dos bem nascidos e educados.

O que repugna em Bolsonaro é que ele traz a público aquilo que deveria ficar muito bem encoberto por discursos que legitimem a violência das partes que vierem a tomar a prerrogativa de usar dessa violência sem terem que responder como criminosos por isto, sejam revolucionários ou conservadores.

O que repugna em Bolsonaro é que ele diz abertamente e prega o que se faz e o que irá fazer. Algo completamente incompatível como a democracia… liberal.

O que incomoda nos pacifistas muito bem acomodados e protegidos pelo monopólio legal da violência, é que Bolsonaro é a figura escatológica da sua hipocrisia. Soa ao higienista como o lixeiro, o limpador de latrinas que conta como é que o aparato repressivo limpa os esgotos e as vezes enfia a mão até o cotovelo para limpar a sua merda até o cotovelo quando o sistema entope.

Ninguém quer saber de quanto bichos ou pessoas mortas são feitas as salsinhas ou os privilégios de cidadania. E Bolsonaro é o arauto de quantos pretos soldados e trabalhadores, bandidos e marginais são feita esse estado de pax.

Não que esses mitos e salvadores da pátria não sejam exatamente a mesma versão a direita dos demagogos e hipócritas do populismo autoritário de esquerda. Muito pelo contrário eles são, muitas vezes instintivamente sem nenhum treino ou raciocínio, os experts desse jogo ideológico. São sim mitos não apenas porque são mitomaníacos, mas porque são os expoentes da fabricação das narrativas que os maniacos que os seguem. Sim maniacos, porque culturas de violência não conseguem se manter ou se reproduzir sem mutilar as sensibilidades e empatias que formam a compaixão e solidariedade, sem reduzir pelo medo e traumas as pessoas ditas civilizadas a uma mentalidade de répteis articulados. Ou nem isso já que numa sociedade cada vez mais cognitivamente governada literalmente pela projeção de imagens, sua iconização, o pensamento consciente e a reflexão vão perdendo espaço para as gritos de ordem e símbolos tal que não apenas uma imagem vale mais que mil palavras, ou um ídolo vale mais que mil atos, mas uma bandeira vale mais do milhares de vidas humanas.

Veja como até meu argumento autodenuncia a idiossincrasia que estou imerso. Ele contabiliza vidas. Abre caminho para a validação de que três assassinados para quatro salvos é a mesma coisa que uma vida humana que não foi perdida e não sete e parte de toda nossa humanidade inclusive do infeliz contador adepto e fiel da contabilidade da sua própria desumanização.

A lógica de Bolsonaro é irrefutável dentro das premissas da nossa sociedade estatizada e sua cultura de violência desde que institucionalizada e legalizada a qual o Estado é de fato é inegavelmente a corporação representante. E é a ele Estado e a ela violência legítima que os centros mais protegidos da sociedade apelam para conter os marginalizados, bandidos ou não.

Seja ela construída de forma erudita ou populista, tosca ou rebuscada, agrande falácia da apologia da violência e sua supremacia institucionalizada está no fato na institucionalização da legitima defesa como politica social. Na transformação da violência que só é legitima como ultima alterativa e reação como politica de proativa de prevenção, dissuasão e repressão a toda violência inclusive aquela que seria de fato a legitima defesa. É literalmente a preservação das condições de privação, ameaça e violação que geram a violência pela própria institucionalização dessa violência como direito lei e estado.

Ou seja ao invés de eliminar socialmente as causas ou a raiz socialmente as causas politicas e econômica dos conflitos e violência preserva-se essas estado de segregação e privilégios com um aparato cultural de apologia e monópolio e submissão a violência como se essa supremacia fosse um contrato social e não a preservação forçada do estado de guerra maquiado como o de paz, pela simples fato de que o que os olhos não vem o coração nem o estomago sentem.

Pedir para uma pessoa suportar uma agressão sem reagir e julgar a sua reação violenta como crime sem considerar as circunstâncias as quais ela está submetida é simplesmente criminalizar a vítima e se tornar cúmplice da violência e violação contra ela.
Doutrinas baseadas nestes dogmas existem há milênios. E como demostram a história (e a atualidade) elas simplesmente não funcionaram. Nem na consecução da paz em na libertação da humanidade das suas misérias. Também evidentemente não as doutrinas fundadas na violência como método: sejam os monopólios da violência, suas polícias e suas guerras. Revoluções e Estados fundados na violência nunca foram capazes de celebrar a paz. De fato é um tanto quanto evidente que se a paz que buscamos, a adesão aos métodos da violência já implicam na renúncia a essa estado tanto como meio quanto finalidade.

Isso não é uma doutrina de lobos para ovelhas. Mas de donos de abatedouros para gado. Por isso libertários que trabalham com o conceito de não-agressão e de relações regidas pelo principio inalienável da consensualidade e respeito a individualidade e identidade deveriam estar mais atentos ao que é ideologia e o que é ideal. Ou mais precisamente qual são as estruturas de fato da sociedade e do Estado e não a cor ou a arquitetura das suas fachadas.

Quando ficarmos mais recuperarmos a capacidade de nos sensibilizar e mobilizar contra as práticas e cultos de violência que estamos imersos e toleramos, as apologias e seus apologias deixarão de ser o prenuncio do perigo para ser apenas o que elas são e deveriam ser o exercício da liberdade de pensamento de um individuo que não tem nenhuma afinidade para representar uma sociedade de paz e proteção social mútua em ato e de fato e não em retórica e papel.

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