2012, o ano que morri duas vezes.

Depois de ter vencido um câncer aos 23 e sobrevivido a um infarto aos 41, tinha certeza de que nada mais me aconteceria até porque um raio não cairia três vezes no mesmo lugar. A vida me mostrou que não só cai no mesmo lugar mas também pode ser bem mais forte que o primeiro e o segundo.

Preciso começar um pouco antes, no ano de 2007 o Brasil vivia um momento de crescimento com a reeleição de Lula, sinalizava um avanço maior da economia e eu não queria perder o bonde. Acelerei os negócios. Foi um período de muito investimento, muitas viagens, hotéis, restaurantes, eventos nos finais de semana e, durante todo o verão, uma festa atrás da outra inclusive no carnaval. Meu corpo voltou a dar sinais de cansaço com essas longas jornadas.

Entre 2008 e 2009 o país sofreu uma crise de liquidez e nossos projetos de crescimento foram brecados pela conjuntura. Senti que era a hora de mudar para viver melhor. Procurei alguns amigos para me aconselhar, sempre trocava ideias e experiências, uma espécie de coaching. Depois de alguns meses, resolvi sair do negócio de qualquer jeito. Minhas reservas financeiras foram usadas para me manter no start up desse negócio, que durou muito mais do que havia planejado, e já não me restava muito. Não podia ficar muito tempo sem uma nova linha de receita.

Nesse período lembro de quantas noites perdi o sono pensando nos últimos anos e tentando ver onde errei para sair do negócio que criei sem ter preparado uma boa poupança, só dívidas. Prometi que não faria isso novamente.

Voltei a ser executivo depois de tantos e assumi a Superintendência de Comunicação da FIEB — Federação das Industrias da Bahia. Era o início de uma nova gestão e um desafio de comunicação. Foram dois anos fantásticos de realizações e entregas e que me permitiu retomar uma rotina e uma qualidade de vida.

O Brasil vivia ainda uma euforia institucional tanto politicamente quanto economicamente. A saída do Presidente Luís Inácio da Silva fazendo sua sucessora Dilma Roussef era comemorada pela maioria da população e do empresariado. Como projeto de governo, o país tinha conquistado o direto de sediar a Copa do Mundo 2014 e os Jogos Olímpicos 2016. Os negócios na área de entretenimento voltavam a aquecer, empresas era criadas para atender a demanda de crescimento e investimento.

Tirei duas semanas nas férias para descansar e pensar. Fui com Lulli para a Espanha que já era nosso lugar no mundo, um refúgio para descansar, passear, comer e beber bem. Durante esses dias conversamos muito sobre o futuro, falávamos em desacelerar a vida depois que eu completasse 50 anos e que agora era hora de acumular para termos o suficiente para nosso projeto futuro.

Parecia o plano perfeito mas meu corpo não estava preparado para essa nova largada. Os anos anteriores foram muito duros e acumulei um stress que fez a diferença logo depois.

Decidi sair da FIEB e montei uma consultoria para identificar oportunidades e apoiar as arenas e negócios para a Copa 2014. O primeiro desafio foi assessorar o time da Fonte Nova, na Bahia. Saímos na frente das demais arenas com um modelo de negócio que previa o naming right e um pacote de ações de merchandising e conteúdos exclusivos. Foram longos meses de negociação, muito stress, viagens, ajustes no projeto, reunião com mais de 50 empresas e finalmente estávamos bem perto de fechar o contrato antes da entrega da obra e inauguração da arena. Tudo perfeito, ou quase.

Feriado na praia

Estávamos em outubro de 2012, em plena primavera na Bahia, ou seja, muito sol, dias lindos e praias maravilhosas. Depois de resistir muito, aceitei o convite da família e fomos para uma praia ao norte de Ilhéus, perto de Itacaré, ao lado de uma vila de pescadores que nos abastecia de peixes, gelo e cerveja. Esse pedaço de paraíso era usado por nós para descansar. Uma casa confortável de meus cunhados com uma enorme varanda de onde acompanhava o movimento da maré para escolher a melhor hora para o banho de mar. Ganhou o apelido de “Torrão do Céu”, dado por um dos primos que em um desses verões ficou encantado com o lugar.

Era o feriado de 12 de outubro, dia das crianças e da padroeira do Brasil, e o núcleo da família estava reunido com meus sogros, sobrinhos, cunhados e um casal de amigos. Passei o dia tentando uma conexão de internet para discutir e melhorar a apresentação que faríamos na semana seguinte para um grande anunciante e provável patrocinador da arena. Não conseguia desligar.

Saímos a tarde para caminhar na praia até a foz do rio que fica a 1km da casa. Tenho fotos fantásticas e lembranças desse fim de tarde, a alegria de meus filhos brincando na areia, meus sogros caminhando de mão dadas, Lulli e sua irmã abraçadas e sorrindo, meus cunhados, todos muito felizes. Terminamos o dia na varanda e depois na grande mesa onde tomamos um café com bolo, aipim e cuscuz. Fui deitar leve e feliz.

Meu Deus, estou tendo outro infarto

Combinei com meu cunhado para despertar às 2h para assistirmos a uma luta de MMA. O celular tocou, sentei na cama, levantei e caminhei em direção a sala. Senti um pouco de tontura e me apoiei nas paredes do corredor. Ao chegar na sala lembro de ver meu sogro e o cunhado na frente da tv. Tentei falar mas não conseguia, tudo escureceu.

O que aconteceu nos minutos em que fiquei desacordado foi desesperador para todos. Reuni depoimentos de todos para poder entender.

Meu cunhado viu minhas pernas dobrarem e literalmente desabei no piso da sala. Aos gritos tentou me levantar com a ajuda de meu sogro enquanto Lulli despertava assustada e corria para a sala. Meu filho Gabriel acordou com a confusão e chegou logo em seguida mas antes pediu a pequena Camila, com apenas 8 anos, que voltasse para a cama. Não seria nada bom ver seu pai sendo reanimado com massagens, tapas e em meio a gritos de pânico da família.

Lulli conta que nunca me bateu tanto. Gritava, massageava meu rosto e dava uns tapas. Gabriel com seus 2 metros de altura e uma mão pra lá de grande, massageava meu peito buscando uma reação. Foram os mais longos 3 ou 4 minutos.

Abri os olhos. Lembro de Lulli bem a minha frente e Gabriel ao lado. Um silêncio provocado pela fraca audição do momento. Aos poucos comecei a entender o que falavam. Pisquei os olhos para mostrar que estava ali e reagindo. Lulli relatou o que tinha acontecido e perguntou como estava me sentindo. Respirei lentamente e disse: estou tendo um infarto. Leve-me para uma emergência.

Alguns minutos depois estávamos dentro do carro, meu cunhado dirigindo, Lulli e minha cunhada me mantendo acordado. Respirava lentamente com muito esforço. Enxergava pouco e mal falava, resultado da baixíssima pressão arterial e dos fracos batimentos cardíacos suficientes apenas para me manterem vivo. No telefone falavam com meus sobrinhos médicos, meus anjos da guarda, e avaliavam as opções de hospitais.

O caso era complicado. Decidiram pelo primeiro atendimento em Itabuna, seguimos com o carro em plena madrugada até a emergência do hospital. Os sobrinhos Lula e Larissa já estavam na porta. Fui colocado em uma cadeira de rodas e conduzido até uma maca na emergência. O plantonista estava atônito com o quadro. Lula assumiu o comando e, enquanto os exames básicos eram feitos para determinar a extensão do infarto, Larissa levava informações para Lulli e a família. Uma coisa era certa, precisava ser transferido para Salvador o mais rápido possível.

Por azar, ou sorte, a única unidade de hemodinâmica da região estava desativada para uma pequena manutenção e reforma. Itabuna e Ilhéus, juntas, tem mais de 400 mil habitantes e naquele feriado a única opção para uma emergência cardíaca era uma remoção para Salvador a mais de 400km de distância.

Meu coração estava muito fraco, com menos de 25 batimentos. O sangue não chegava normalmente a todo o corpo, estava pálido, gelado e, naquelas condições, não aguentaria o transporte. O cardiologista de plantão naquele feriado não respondia aos chamados pelo celular. O tempo passava e meu organismo não reagia ao tratamento com trombolíticos que foram usados para estabilizar o quadro. Enquanto isso, Lulli acionava nossa rede de amigos para conseguir confirmar uma UTI aérea para as primeiras horas da manhã. Acordou muita gente de madrugada, discutiu com atendentes do plano de saúde e fez pedidos já em desespero até que conseguiu confirmar o avião. Minha cunhada conseguiu contato com uma cardiologista amiga da família e ela se deslocou para o hospital. Estava pronto para sair para o aeroporto de Ilhéus quando ela confirmou que meu coração não aguentaria a viagem com aquele quadro. Definiu-se por colocar um marca-passo e lembro bem de Lula pinçando uma artéria em meu pescoço e introduzindo os fios. Mais alguns minutos e recebemos autorização para voar.

A equipe da unidade aérea de emergência nos recebeu na pista do aeroporto de Ilhéus, transferindo-me da ambulância para a aeronave e checando meus sinais. Uma conversa rápida e técnica entre médicos e recebemos autorização para decolar. Lulli ao meu lado, segurando minha mão e rezando. Sentia a apreensão da equipe médica a cada minuto que ganhávamos altitude e olhava para aquele equipamento ao meu lado, o desfibrilador, carregado e pronto para ser usado.

Em Salvador, outra ambulância UTI estava aguardando na pista. O protocolo foi rápido me despedi da equipe medica ouvindo um sonoro: Boa sorte campeão. Era um domingo, bem cedo e sem trânsito, o que facilitou nossa chegada ao hospital. Ao abrir a porta da ambulância lembro bem da cara de assustados que estavam meus amigos e familiares. Não conseguia falar e até um gesto de levantar o polegar era difícil.

A equipe da emergência foi rápida e em minutos estava pronto para mais uma angioplastia. O médico explicou que iria trocar o marca-passo e avisei: Doutor, eu vou apagar! Senti meus olhos fecharem e abrirem em seguida. Perguntei como foi e ele respondeu: Você teve uma parada cardíaca e não conseguimos trocar o marca-passo. Vamos tentar mais tarde. Agora vamos para o centro cirúrgico. Não lembro de mais nada até o dia seguinte quando acordei na UTI e vi Lulli ao meu lado. Olhei para meu corpo e notei que estava amarrado e imobilizado. O médico contou que após o procedimento tive uma reação à medicação, fiquei muito agitado e não atendia ao pedido dos enfermeiros, por isso fui imobilizado. Contou também que trocaram o marca-passo durante o procedimento e fui reanimado novamente.

Já estava estabilizado, ainda na UTI, e era hora de entender o tinha acontecido. Foi tudo muito diferente do primeiro infarto. Foi muito pior. O caso era tão complicado que se me dessem um Isordil ainda na praia, meu coração não resistiria. E tinha um na casa, ainda bem que não lembraram de pedir.

Mudando a vida, para valer.

Uma semana internado e já me sentia novo. Queria sair logo. O cardiologista que comandou a equipe passou a me acompanhar. Na saída do hospital foi muito claro. Mude de vida e procure se cuidar mais. Seu coração não vai suportar outro acidente como esse.

Passado o susto, nossa família começou a implementar um novo projeto. A ideia era dar mais qualidade de vida para mim começando com pequenas mudanças de rotina. Nos mudamos para um condomínio bem perto da escola dos filhos, passei a cuidar mais da alimentação, comecei com as caminhadas e tentei diminuir o ritmo de trabalho. Continuava viajando mas escolhia melhor a logística e a agenda para poder manter uma rotina de exercícios, escolhia os hotéis de acordo com as distancias das reuniões e até a qualidade da cama. Busquei de todas as formas mudar minha vida conforme orientação do cardiologista.

O ano de 2013 começou com promessas de uma vida melhor. Simplificamos nosso dia a dia e nos preparamos para o grande salto que veio acontecer em 2014 com a decisão de mudarmos para a Espanha.

O começo de um novo ciclo

Com a família alinhada no propósito de mudarmos para Ávila, tudo ficou mais fácil. Enxergávamos todos com clareza as soluções para tudo. Começamos alegremente um processo de desapego em nossa vida. Doamos livros, fizemos um grande bazar com nossas roupas, móveis e toda decoração de casa, e decidimos que levaríamos do Brasil as lembranças da família, dos amigos e o que coubesse em nossa bagagem no avião. Mudança em um container, nem pensar. Leves e soltos preparamos um planejamento com um calendário feito no espelho da sala com metas e datas limites para tudo. As festas de despedida, que não foram poucas, foram as mais divertidas que fizemos. Encerramos um ciclo no aeroporto de Salvador no dia 09 e começamos outro no dia 10 de fevereiro de 2015, na Espanha.

Precisei passar por dois infartos e um câncer para entender o que realmente é importante nessa nossa curta passagem pela vida. Valorizei demais as conquistas materiais sem notar que já tinha tudo o que precisava para viver feliz. Perdi muitas noites de sono e deixei de conviver mais tempo com as pessoas que realmente amo e com meus amigos. Mas ganhei uma nova oportunidade que agarrei com todas minhas forças e paixão.
Quero viver sim. Quero viver o bastante para ser feliz. Quero viver para tornar essas pessoas que amo mais felizes ainda.
Maurício Castro, setembro de 2015
Gabriel e Camila, meus melhores e mais perfeitos projetos nessa vida.