O conflito de gerações e o gap no jornalismo

Mary Donohue é juíza aposentada e, por duas vezes, foi vice-governadora do estado de Nova Iorque. E eu nem sabia disso — me julguem. Mary, em uma única fala, relaciona os millenials (ou geração Y), McLuhan e slow dancing, que aqui pra nós seria algo como paquera, xaveco, flerte, aquele momento de investida para conquistar alguém na balada. A conexão entre esses elementos ajuda, um pouco, a se entender algumas causas e sintomas de um conflito de gerações — mas que eu quero usar aqui pra pensar o jornalismo.

Resumidamente, o argumento dela é o seguinte: há um gap na comunicação entre figuras que exercem algum tipo de liderança e os millenials. No jornalismo, esse gap pode ser entendido como o abismo entre veículos e leitores, empresas e consumidores — que vão além dos millenials, óbvio, mas o raciocínio ainda serve.

A perda de algumas referências baseadas em instituições como a família, por exemplo, e o apego a esquemas que regem o cotidiano dessa geração acarretam, segundo esse raciocínio dela, algumas consequências para a compreensão de contextos mais macros de socialização. No caso do jornalismo, o apego a modelos já esgotados, por parte de algumas empresas e veículos, impede o aperfeiçoamento da relação com seus consumidores e dificulta a compreensão de um panorama midiático que transborda fronteiras impostas por meios e suportes estáticos de alguns anos atrás. Estes consumidores, por sua vez, têm nas redes a possibilidade de experimentar formatos e práticas diferenciados, mas continuam esbarrando em mecanismos limitados, que pouco exploram as potencialidades digitais ou as apropriam de forma incoerente com as maneiras pelas quais o conteúdo é produzido, consumido e (re)circulado em outras esferas.

A relevância que as mídias sociais assumem na ampliação do processo de obtenção e circulação de conhecimento é outro ponto que Mary levanta, fazendo uma conexão com as ideias do McLuhan sobre os meios como extensão do ser humano. Todo esse conjunto de artefatos, como ela explica, potencializa as conversações: fala-se mais e, fala-se de coisas que essas lideranças não querem que se fale sobre, já que quanto mais extensões temos, mais fácil é ser pego numa mentira. Trazendo isso pro jornalismo, essa rede de conversações, e de produção de conteúdo paralela aos veículos, também é vista com maus olhos por várias empresas — ou ignorada em outros casos. Passadas duas décadas de jornalismo digital, a diversidade de atores complexifica ainda mais a questão e uma crise sistêmica tensiona a necessidade de reflexão sobre os mecanismos empregados.

McLuhan fala da necessidade de um filtro para se compreender essas extensões e Mary entende esse filtro, hoje, como uma liderança baseada num princípio de mentoring — que traduzindo para o português seria algo mais próximo de uma tutoria. Esse processo deveria, de acordo com a conexão que ela estabelece entre o conflito de gerações e a perda de algumas referências, recuperar a contextualização e a coleta de dados como elementos fundamentais de um processo de pesquisa — ou investigação — que efetivamente forneça oportunidades não só de aprendizagem e conhecimento por essa geração, mas também de saber como esses aprendizados são construídos.

A falta de método para pensar o jornalismo acaba atrasando a busca por modelos e práticas que dialoguem não só com millenials e outras tantas gerações, mas que acompanhem uma evolução social e cultural que vai muito mais além do que a exploração da tecnologia.

Não é nem um pouco difícil de encontrar por aí uma penca de exemplos que refletem o quanto a ânsia por uma solução pontual motivada pela necessidade de lucro (ou sobrevivência no mercado) ignora a necessidade de processos de investigação que levem em consideração contextos (macro e micro), particularidades e especificidades de um público que não é (nunca foi) uma massa amorfa como algumas teorias da comunicação tentaram emplacar. Não é à toa, nesse sentido, que muitos veículos jornalísticos vem batendo com a cara na parede, insistentemente, por tentarem reinventar a roda entregando um produto reembalado para um novo suporte ou plataforma, sem perceber que algumas apropriações, mas simples do que se possa imaginar, são capazes de reconfigurar velhas práticas, abrindo espaço para a constituição de novos modelos.

A linha de pensamento que ela desenvolve no vídeo serviu muito para que eu refletisse um pouco mais sobre os problemas do jornalismo. Vender tablet, trocar assinatura por ingresso pra show, como se vê, por exemplo, na imprensa local, me parece mais uma estratégica de compensação infantil, que ignora a observação sobre as particularidades, as características daquele que se quer conquistar. Se para os millenials é necessário explicar os detalhes do processo, como conclui Mary, é como se os jornalistas precisassem aprender uma série de skills que vão muito mais além de saber como empacotar um conteúdo. O processo jornalístico iria bem mais além do que a produção de notícia, considerando, efetivamente, o leitor nas dinâmicas de produção e circulação dos conteúdos.

*Como meu objetivo aqui foi só divagar sobre jornalismo a partir da fala de Mary Donohue, optei por não linkar exemplos em função da particularidade de cada caso.

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