Eu não podia acreditar no que estava escutando

Eu não podia acreditar no que estava escutando. “É melhor você não estar aqui quando eles chegarem, a esposa dele não aceita bem isso” — foi o que ele disse nas entrelinhas entre várias desculpas. Como eu pude entender somente agora o que ele queria dizer?

Eu não poderia ficar na casa dele. A esposa do colega de quarto, não aprovava isso. Como se eu fosse uma criminosa que deveria ser encontrada em becos escuros e ruas desertas para ninguém ver. Mas sou apenas uma mulher que está na casa de um cara com quem ela passou os últimos três dias. Uma mulher que acreditou que ele gostava da sua companhia.

Estou imóvel na cama sem saber o que fazer. Aquele pedido para eu ir embora ainda ecoava na minha cabeça. O lençol bagunçado, enrolado em meio ao edredom. Estou de bruços, pensando sobre o que acabei de entender, e as lágrimas começam a escorrer. Um sentimento de raiva e tristeza começa a se espalhar por todo corpo. Meu coração está perdido em meio a essa confusão de sentimentos. Não conseguia pensar na melhor atitude para reagir aquela rejeição que tanto me doía. Não me machucava ele não me querer ali, isto era um direito dele. Mas sim o motivo, a explicação.

Naquele momento só conseguia pensar que os homens não valorizam pessoas gentis e legais. Eu deveria aprender tratar eles mal, abusar da boa vontade, e talvez ser muitas vezes cruel. Mas preciso voltar a pensar no que tenho agora. Minha vontade é ir embora. Preciso da minha casa, minha cama. As lágrimas agora já percorrem meu rosto com mais velocidade. Ele está ali imóvel, parado. Me pergunto se ele não vai falar nada ou se vai apenas ficar me olhando como se a errada fosse eu. Que belo idiota.

Me viro e expresso as únicas palavras que consigo pensar. Vou embora pra minha casa. Ele quase que imediatamente me responde. Você está brava? Respondo apenas um sim. Estava muito mais triste do que brava. Talvez ele não tenha entendido o peso das suas palavras naquele dia.

Não estava brava, estava triste, assustada, chateada. Meu corpo pedia pra sair daquele lugar. Mas meu coração estava com medo de partir. E se eu nunca mais o encontrar? Eu também sabia que nem deveria estar preocupada com isso. Mas o coração nem sempre pensa racionalmente.

Comecei a juntar minhas coisas, peguei tudo que havia trazido um dia antes. Só conseguia pensar que estava com raiva. Meu coração estava tão triste. Partir era a melhor decisão. Enxuguei as lágrimas que ainda escorriam pelo meu rosto. Coloquei o casaco, pois qualquer coisa acolhedora naquele dia era melhor que nada. Peguei a mochila no chão. Olhei mais vez para aquele, que acreditei seriamente que seria meu companheiro de muitos momentos ainda. Mas esta seria nossa última cena juntos.

Abri a porta, ele ficou ali. Imóvel, talvez sem entender o que estava acontecendo. Mas era melhor partir. Precisava de ar, da minha casa, da minha cama.