30 anos esta noite

Só não me peça fotos. Não havia fotos em 1985, em vez de iPhones usávamos os olhos e em vez de HDs tínhamos a memória.
Havia mais inocência e mais romantismo, evidentemente, mas sempre foi e sempre será assim: ontem sempre haverá mais inocência e romantismo do que amanhã.
Eu ganhei o passaporte para os 10 shows do Rock in Rio de uma rádio que não ouvia respondendo uma pergunta sobre uma banda que mal conhecia e peguei um ônibus e depois outro ônibus — uma viagem curta de uma hora e meia, com um maconheiro conhecido da minha cidade que gostava de olhar para trás e ver a estrada indo embora, e uma viagem longa de 24 horas, com um peruano que olhava para a frente e me disse que um dia o Brasil também teria eleições diretas.
Eu cheguei na casa de um cara que não conhecia, irmão da mulher do irmão de um amigo. Ele me chamou de roqueiro, mostrou meu quarto e me deu as chaves do apê porque ia jogar futevôlei e não voltaria antes de eu sair. Também me disse que nos veríamos novamente apenas na outra semana, porque sairia para o trabalho antes de eu chegar — no sábado seguinte me levou para passear e pediu desculpas pela falta de atenção. Não se fazem mais irmãos da mulher do irmão de amigos como antigamente.
Todo dia era tudo sempre igual: eu pegava um ônibus na pracinha da Visconde do Pirajá, ia pra Cidade do Rock, via os shows e pegava um ônibus de volta na madrugada, descia perto da praia de Ipanema e caminhava só para o apartamento. Sem nenhum medo de ser assaltado.
Era a minha primeira vez no Rio, a primeira vez em um show com mais de 20 mil pessoas, a primeira vez que, depois que uma grande noite de shows acabava, haveria muitos outros shows na noite seguinte. Por isso mesmo, não tenho qualquer distanciamento pra julgar se os shows em particular e o festival em geral foram, de fato, bons. As apresentações eram inéditas dentro de um contexto inédito de rock, de juventude brasileira pós-abertura, de um país que tentava se libertar da ditadura, de artistas nacionais que copiavam os gringos descaradamente mas o grande público não sabia — porque muito menos pessoas tinha acesso a discos importados, ou viajava para o exterior. Ou se importava com isso.

Anos depois do Rock in Rio — que para mim faz 30 anos esta noite porque eu perdi os dois primeiros shows e cheguei apenas no domingo, dia 13 — saiu o disco ao vivo do Barão Vermelho no festival, com uma foto de capa tirada de cima do palco e um Marcélo Ferla na multidão, o pequeno e único registro pessoal em foto do primeiro festival do resto de nossas vidas, e que (para mim) faz 30 anos esta noite, e que botou o Brasil no mapa dos shows internacionais e fez decolar as bandas de rock nacionais, de quem acabei vendo outra centena de shows e com as quais convivi e entrevistei nos anos seguintes.
Em tempos ultra hi-tech, foi um belíssimo start up. Pena que ainda não existiam iPhones pra eu registrar melhor…

