Afonso de Albuquerque e a sua viagem à Índia: 1503–04

PRIMEIRA PARTE DA CRÓNICA

sobre “Afonso de Albuquerque e a sua viagem à Índia: 1503–04 ”

CHRONICA DE D. MANOEL escrita por Damião de Goes e encomendada por Dom Rodrigo António de Noronha e Menezes; 1749; PDF — pp. 112–136.

Capítulo LXXVII

Do que Afonso de Albuquerque e Francisco de Albuquerque passaram na sua viagem até chegarem a Cochim.

A armada que o rei Dom Manuel mandou no ano de 1502, de que foi por capitão o almirante Dom Vasco da Gama, ia tão bem apetrechada tanto de munições de guerra como de gente que pareceu ao rei escusado mandar no ano de 1503, mais do que seis naus, confiado de que antes que Dom Vasco da Gama partisse da Índia deixaria os negócios das especiarias organizados de tal ordem que os nossos pudessem tratar com os da terra como com amigos e que se guerra houvesse, seria no mar contra os mouros que navegavam dos mares da Arábia e Mar Vermelho para o Malabar.

Destas seis naus, fez duas capitanias: uma deu a Afonso de Albuquerque. Os outros dois capitães que iam debaixo da sua bandeira eram Duarte Pacheco Correia e Fernão Martins de Almada que morreu nesta viagem. A outra capitania o rei deu a Francisco de Albuquerque, primo de Afonso de Albuquerque; os outros dois capitães eram Nicolau Coelho que foi com Dom Vasco da Gama da primeira vez à Índia e Pero Vaz da Veiga, em cuja companhia mandou um valenciano de nome Antão Lopez que viera da Índia com João da Nova. O rei mandava Antão Lopez com embaixada ao imperador da Etiópia e reis dos abexis.

Afonso de Albuquerque partiu do porto de Belém, Lisboa, a seis de Abril deste ano de 1503 e Francisco de Albuquerque partiu no dia 14 de Abril do mesmo ano, mas Francisco de Albuquerque fez o caminho primeiro do que Afonso de Albuquerque porque chegou no mês de Agosto a Anchediva com Nicolau Coelho sem Pero Vaz da Veiga que se perdeu sem se saber como. Ali Francisco de Albuquerque encontrou Pero de Ataíde e outros capitães que escaparam da tormenta das ilhas Curia e Muria, onde morreram os Sodrés, entre eles António Campo, pelos quais soube o que se passava em Cochim. Apesar de o inverno ainda estar longe de acabar, se foi a caminho de Cananor, onde chegou com estas seis velas e soube pelos nossos que ali estavam particularmente tudo o que acontecera ao rei de Cochim na guerra passada e o mesmo lhe contou o rei de Cananor pelo que se fez logo à vela para Cochim onde chegou a um sábado, dia dois de Setembro. O rei que ainda estava em Vaipim e todos os que ali se recolheram, ficaram muito contentes e, sobretudo os nossos que a olhos longos estavam esperando naus e novas de Portugal. A gente de guerra que o rei de Calecut deixara nas paliçadas que mandara pôr em Cochim, no dia em que a nossa armada chegou, recolheu-se a Cranganor por ordem do rei de Calecut, quando soube que a nossa frota tinha chegado a Cananor.

Francisco de Albuquerque, depois que as naus ancoraram, foi nos batéis à ilha de Vaipim, onde o rei de Cochim o veio receber à praia e sem nenhuma superstição das que usam em suas visitas os reis do Malabar, levou Francisco de Albuquerque nos braços ao sair do batel, dizendo em alta voz “Portugal, Portugal” e também todos os naires que com ele estavam ao que os nossos com a mesma alegria responderam Cochim; Cochim. Ao som de anafis e outros instrumentos da terra e das nossas trombetas numa grande festa se foram para dentro da ilha, onde, depois de ter sabido das necessidades do rei de Cochim, procedidas da amizade que tinha com os portugueses, além do presente que lhe levava da parte do rei Dom Manuel, deu-lhe dez mil cruzados do dinheiro que trazia para a despesa da armada e carga das naus. Boa parte coube ao rei porque esta gente do Malabar é muito dada ao interesse e ao seu proveito particular e de menos despesa de todas as que no mundo se sabe. Esta liberalidade não só fez espanto aos do rei de Cochim, mas muita inveja aos que o deixaram para servirem o rei de Calecut. Este dinheiro foi entregue pelo feitor da armada aos oficiais do rei de Cochim.

Logo no mesmo dia, Francisco de Albuquerque levou o rei de Cochim nos batéis à cidade para tomar posse dela em nome do rei Dom Manuel. E por não estar ocioso, no mesmo dia, atacou uma ilha que está defronte de Cochim, de que o caimal se passou para o rei de Calecut, onde matou muitos dos da terra que estavam descuidados deste ataque e foram queimadas algumas das povoações da ilha; após regressou vitorioso para Cochim.

Logo no dia seguinte, atacou outra ilha do rei de Cochim de nome Chirivaipim, de que o caimal também lhe fora traidor, passando-se para o rei de Calecut. Lá matou o caimal e muitos dos seus naires, apesar de ter consigo três mil e muitos paraus com gente do rei de Calecut e também lhe queimou as casas onde morava. Nesta actividade, Duarte Pacheco Pereira, Nicolau Coelho, António do Campo e Pero de Ataíde fizeram o que a bons e esforçados guerreiros convinha porque Duarte Pacheco Pereira desbaratou a gente e os paraus do rei de Calecut e Nicolau Coelho, António do Campo e Pero de Ataíde ganharam as tranqueiras (= paliçada) dos paços do caimal e mataram-no e mandaram pôr fogo às casas.

Com esta vitória, por ser de qualidade para isso, Francisco de Albuquerque armou cavaleiros alguns dos nossos no mesmo lugar onde aconteceu a vitória. Depois disto, regressou a Cochim e no dia seguinte, atacou a ilha de Repelim que é do rei de Calecut, onde achou resistência de mais de dois mil naires que desbaratou e fez fugir até ao principal lugar da ilha, onde aconteceu dura peleja, mas no fim, depois de muitos mortos, outros fugiram do lugar e Francisco de Albuquerque deu o despojo aos naires do rei de Cochim, pelo que lhe agradeceram muito, roubaram tudo o que encontraram e depois mandou pôr fogo à ilha.

Havidas estas vitórias com seiscentos portugueses que Francisco de Albuquerque levou consigo e alguns naires do rei de Cochim, ele regressou à cidade de Cochim, onde o rei o recebeu com tanta festa e alegria como costumam fazer os vencidos e desbaratados àqueles por cuja ajuda e favor são restituídos os reinos, senhorios e bens de que, por tirania de guerra e outros desastres, são despojados sem esperança de restituição.= p. 113

Capítulo LXXVIII

De como o rei de Cochim deu licença a Francisco de Albuquerque para construir uma fortaleza onde quisesse e da chegada de Afonso de Albuquerque.

Vendo Francisco de Albuquerque o tempo de que dispunha e quanta necessidade havia de se construir uma fortaleza em Cochim para segurança dos nossos e do próprio rei de Cochim pediu-lhe licença para isso. O rei de Cochim deu-lhe logo permissão, mostrando muito contentamento em satisfazer esse pedido, dizendo que queria que a fortaleza fosse construída à sua custa por serviço ao rei de Portugal, seu irmão.

Com a permissão para a construção da fortaleza, Francisco de Albuquerque, com o parecer dos outros capitães e feitor decidiu que ela se construísse acima de Cochim, na margem do rio, num lugar forte e defensável, de que se podia fazer muito dano aos do rei de Calecut por acostumadamente entrarem por aquele lado quando faziam guerra ao rei de Cochim. Por então não terem pedra nem cal pronta, decidiram fazê-la de madeira de palmeiras e de outras árvores que o rei de Cochim permitiu que se cortassem nos seus bosques e palmares.

Esta obra foi começada no dia 27 de Setembro de 1503. O rei ia ver os andamentos da construção muitas vezes, não querendo que os nossos trabalhassem na sua construção, mas só os da terra e assim pediu a Francisco de Albuquerque; mas o desejo que tinham de a acabar era tanto que indianos e portugueses trabalhavam juntos.

Andando Francisco de Albuquerque ocupado nesta obra, quatro dias após ter sido começada chegou Afonso de Albuquerque a Cochim com as suas três naus e a gente assaz bem disposta, apesar de terem passado por muitas tormentas e tempos contrários que fizeram com que chegasse tão tarde.

Com a sua vinda, acabou-se a fortaleza com maior brevidade. Após concluída, os capitães ordenaram que se fizesse uma procissão em que o vigário levava um crucifixo debaixo de um pálio, indo adiante trombetas e foliões e assim foram por toda a cidade com muito espanto dos indianos por verem o nosso modo de prática religiosa e divertimento por causa da folia, coisa que até àquela altura não tinham visto. Por esta ordem entraram na fortaleza que o vigário logo benzeu e lhe pôs o nome de Emanuel por lembrança de Nosso Senhor Jesus Cristo, cujo próprio nome o é e por memória do rei Dom Manuel, em cujo tempo se fizera e a cruz pôs na igreja que já estava começada e lhe deu nome da invocação de São Bartolomeu.

Acabada a fortaleza, Afonso de Albuquerque e Francisco de Albuquerque decidiram continuar na guerra contra o rei de Calecut, fazendo logo o ataque com setecentos portugueses e alguns naires do rei de Cochim sobre umas povoações do senhor de Repelim a cinco léguas de Cochim ao longo do rio que atacaram de súbito e mataram muitos dos inimigos e os outros fizeram fugir, mas depois de a terra ter sido tomada, juntaram-se mais de seis mil naires que os trataram mal se não fora a boa ordem em que se recolheram aos batéis e nesta estratégia, por Duarte Pacheco não achar o seu batel no lugar onde o deixara, teve dificuldade em se defender daqueles que o seguiam por o apertarem tanto que se não fora o grande esforço com que pelejou e acudir-lhe Afonso de Albuquerque e Francisco de Albuquerque nos batéis dificilmente pudera escapar das mãos dos inimigos.

Embarcado Duarte Pacheco Pereira, todos se foram para Cochim com oito homens feridos de flechas e nenhum morto, levando consigo sete paraus que tomaram, além de quinze que estavam em reparação em terra e foram queimados.

Chegados a Cochim sem entrarem na fortaleza, logo, naquela mesma noite, foram atacar outros lugares de Repelim. Por Afonso de Albuquerque ir mais adiantado do que os outros batéis correu grande risco porque os naires que guardavam a povoação que eles foram acometer os estavam esperando. Mataram-lhe dois homens e feriram vinte no que esteve até ao romper da aurora, quando chegou Francisco de Albuquerque e outros capitães que logo se lançaram dos batéis e paraus para acudir a Afonso de Albuquerque. Com a sua vinda os inimigos foram desbaratados, fugindo pelos palmares e os nossos ainda mataram muitos que conseguiram alcançar.

Acabado este assunto e queimada a povoação, no mesmo dia foram à ilha de Cambalão, onde queimaram duas grandes povoações e mataram mais de setecentos dos inimigos. Com esta vitória regressaram a Cochim, dando conta ao rei do que fizeram, o que o deixou muito contente. Contudo porque era muito bom homem e piedoso rogou-lhes que não fizessem mais mal do que tinham já feito. Ele já se dava por vingado dos seus inimigos, mas isso não bastou aos nossos que ainda fizeram outra entrada pelas terras do rei de Calecut e inimigos do rei de Cochim.

Afonso de Albuquerque e Francisco de Albuquerque, depois de terem feito bastante mal nos lugares que atacaram, recolheram-se com muito esforço por virem sobre eles seis mil naires entre eles alguns espingardeiros. Neste ataque, Duarte Pacheco Pereira com os da sua capitania (da nau) desbaratou trinta e quatro paraus do rei de Calecut bem armados que defendiam os passos (lugares onde se podia passar com a água pelo joelho) aos mercadores que traziam pimenta a Cochim para carga das naus.= p. 115

Capítulo LXXIX

Do sítio da cidade de Coulão e dos costumes dos cristãos que nela vivem e de como Afonso de Albuquerque foi lá com três naus e do que fez.

A cidade de Coulão foi antigamente a mais rica e próspera de toda a terra do Malabar, mas ainda que seja uma das principais, foi muito prejudicada pela cidade de Calecut, depois que os mouros estabeleceram ali relações comerciais e o mesmo se passou relativamente à cidade de Cochim, depois que os portugueses estabeleceram ali residência.

São doze léguas da cidade de Coulão à cidade de Cochim. As casas e pagodes são como os das outras cidades do Malabar. Tem muto bom porto e tem alimentos em abundância; há nela muitos mercadores cristãos, mouros e gentios. O rei é rico e poderoso por causa dos muitos portos de mar que tem e onde entram regularmente muitas naus carregadas de mercadorias que lhe pagam direitos aduaneiros.

O rei traz sempre muita gente a soldo (= a quem paga salário); tem muitas vezes guerra com o rei de Narsinga. A maior parte do tempo, o rei reside nas cidades do sertão e na cidade de Coulão tem sempre por regedores e governadores pessoas principais do seu reino por ser de muitos negócios e muito frequentada por estrangeiros.

Neste reino de Coulão, havia naquele tempo mais de doze mil casas de cristãos da crença dos que naquela província se converteram pela pregação do apóstolo São Tomé. Além das igrejas que tem pelo sertão, há na cidade uma muito antiga que dizem os cristãos que foi fundada pelo apóstolo milagrosamente. O apóstolo São Tomé está sepultado na cidade de Malapur, do senhorio do rei de Narsinga na mesma costa. A igreja onde está a sua sepultura é como as nossas. Não tem outras imagens, além de cruzes nos altares e uma de pão grande no meio da abóbada como o têm todas as outras que há naquelas províncias.

Estava neste tempo em que lá foi Afonso de Albuquerque toda coberta de mato por aquela cidade ser muito pobre e despovoada. Tinha cuidado desta igreja um mouro que vivia de esmolas tanto de cristãos como de mouros e gentios que ali vão em romaria porque todos têm nela devoção pelos milagres que o apóstolo ali faz.

Dizem estes cristãos que, quando enterraram o corpo deste bem-aventurado apóstolo nunca lhe puderam meter o braço direito debaixo da terra porque com este braço meteu os dedos no lado de Nosso Senhor Jesus Cristo e que assim esteve muitos anos até que, no tempo em que os cristãos vieram à Índia, foram ali ter alguns deles em romaria e quiseram cortar-lhe o braço para o levar consigo a suas terras como relíquia e que, quando o tentaram cortar o braço se recolheu para debaixo da terra sem ninguém mais o ver.

Têm estes cristãos de Coulão lenda da vida e milagres deste apóstolo e livros de costumes eclesiásticos pelos quais se regem e governam sobre a religião. De tudo me pareceu suficiente escrever sobre aquilo que basta para saber onde está sepultado o seu corpo e o que há naquelas partes em que estes e outros cristãos vivem.

Voltando aos assuntos da guerra que Afonso de Albuquerque e Francisco de Albuquerque faziam ao rei de Calecut esta foi em crescendo, pois os mercadores que costumavam trazer pimenta a Cochim pelos rios abaixo não o ousavam fazer mais porque os de Calecut matavam e roubavam muitos deles pelo que foi necessário Afonso de Albuquerque ir carregar três naus a Coulão porque a rainha viúva mais o rei lhe tinham escrito que fossem àquele seu porto e lhes mandaria vender toda a pimenta que lhes fosse necessária.

Com eles foram Pero de Ataíde e António do Campo. Quando Afonso de Albuquerque lá chegou, os regedores da cidade vieram-no visitar à sua nau, oferecendo-se para, da parte da rainha e do rei, pôr à sua disposição tudo o que lhe fosse necessário. Assim que foi feita a carga e estabelecidas paz e amizade com os regedores, eles em nome do rei de Coulão e Afonso de Albuquerque em nome do rei Dom Manuel e, após regressou a Cochim, deixando ali António de Sá de Santarém por feitor e Rui de Araújo e Lopo Rebello por escrivães, frei Rodrigo por capelão e Rui de Abreu e Gonçalo Gil com outros portugueses que seriam todos até vinte.= p. 116

Capítulo LXXX

De como se fizeram pazes entre os nossos e o rei de Calecut que logo se quebraram e da partida de Afonso de Albuquerque e de Francisco de Albuquerque para o reino de Portugal e do que passaram na viagem.

O rei de Calecut, arrependido da guerra que tinha com o rei de Cochim e desejoso de paz com os nossos por saber que com a paz havia de ter mais proveito, deu disso conhecimento ao seu sobrinho o príncipe Naubeadarim que sempre se tinha oposto a esta guerra. Este desejo foi tratado, por seu conselho e parecer, pelo príncipe com Francisco de Albuquerque e foi feito em tanto segredo que os mouros da terra só o vieram a saber, após ter sido estabelecida a paz e os contratos assinados. O principal destes contratos era que:

1) o rei de Calecut fosse amigo do rei de Cochim;

2) ele mandasse logo recolher as armadas que trazia pelos rios;

3) pela mercadoria que tinha sido tomada a Pedro Álvares Cabral quando mataram Aires Correia daria logo mil e quinhentos bahares de pimenta para carga da armada e cada bahar representa três quintais, três arrobas e dezoito arráteis do nosso peso e de qualquer outra mercadoria quatro quintais;

4) nenhum mouro dos de Calecut pudesse navegar para o mar da Arábia.

Francisco de Albuquerque insistiu muito nestas capitulações por haver os dois milaneses que se lançaram em Calecut, mas o rei não lhos quis entregar, dando para isso razões suficientes.

Isto assim concluído e estabelecido, Naubeadarim se foi para Cranganor por ordem do seu tio, onde começou a fazer a entrega da pimenta e, tendo já entregue oitocentos bahares a Duarte Pacheco Pereira que Francisco de Albuquerque lá a isso mandara, trabalhando para juntar toda a soma estabelecida, aconteceu que Diogo Fernandes Correia, feitor de Cochim, sabendo que ia um tone carregado de pimenta para Cranganor que era do rei de Calecut, sem disso dar conta a Francisco de Albuquerque, mandou-o tomar pela força e trazê-lo para Cochim e porque os do tone se defendiam, dizendo que eram amigos do rei de Calecut com quem já tínhamos paz e que aquela pimenta era para os portugueses e nada disto ser de proveito para os nossos, vieram às mãos dos portugueses e neste debate os nossos mataram seis dos malabares que iam no tone e feriram outros e os malabares feriram também muitos dos nossos.

Logo Naubeadarim se queixou a Francisco de Albuquerque, pedindo que deste caso se fizesse emenda para satisfação do rei de Calecut e que não fazendo, soubesse de certeza que, segundo o rei, era de sua condição que havia de quebrar as pazes e vingar-se da afronta que lhe era feita.

Francisco de Albuquerque não satisfez nem com obras nem com palavras o pedido de desculpas, pelo que logo o rei de Calecut mandou soltar os paraus da armada pelos rios e a guerra recomeçou por culpa dos nossos.

Depois de a guerra recomeçada, o rei de Cochim disse a Francisco de Albuquerque que a determinação do rei de Calecut era que, quando ele partisse da Índia, buscar todos os modos para o destruir (ao rei de Cochim) pelo que lhe pedia que deixasse companhia de portugueses para sua guarda e defesa do seu reino. Francisco de Albuquerque assim lho prometeu, mas a companhia não foi tão grande quanto convinha a um tal negócio, pois o que ele deixou quando partiu foram uma nau, duas caravelas e um batel grande de uma nau e cerca de cem homens portugueses, além dos cinquenta que ficavam na fortaleza. A capitania destas velas deu a Duarte Pacheco Pereira que, por serviço de Deus e do rei Dom Manuel, aceitou sem recear o grande perigo em que ficava; os capitães das caravelas eram Pero Rafael e Diogo Pires.

Isto feito e chegado Afonso de Albuquerque de Coulão com as três naus que lá fora carregar, se partiram de Cochim para Cananor, onde recebeu cartas de Rodrigo Reinel que ficara em poder de Naubeadarim em Cranganor, onde estava recebendo a pimenta quando a guerra recomeçou que o avisava do grande poder militar que o rei de Calecut juntava contra o rei de Cochim e teve o mesmo aviso por cartas de Cojebequii, o mouro nosso amigo que morava em Calecut, mas nem isto serviu para deixarem mais gente a Duarte Pacheco Pereira.

Dali se foram a Calecut, onde depois de ancorados, mandaram pedir ao rei Rodrigo Reinel e outros portugueses que estavam em seu poder. O rei escusou-se a fazê-lo e, por se passar o tempo da navegação, não quis esperar mais.

Tomada dali a sua rota para o reino de Portugal, partiu primeiro Afonso de Albuquerque e depois Francisco de Albuquerque no derradeiro dia de Janeiro de 1504. Nesta viagem perderam-se Francisco de Albuquerque e Nicolau Coelho sem se saber onde nem como. Pero de Ataíde perdeu-se nos baixos de São Lázaro, mas a gente salvou-se e com parte dela se foi a Moçambique num zambuco, onde morreu e a outra gente se foi a Melinde. António do Campo que Afonso de Albuquerque e Francisco de Albuquerque despacharam da Índia alguns dias antes que partissem com as novas da perdição dos Sodrés e a guerra do rei de Calecut com o rei de Cochim chegou a Lisboa a 16 de Julho de 1504 e Afonso de Albuquerque chegou a Lisboa a 24 de Agosto do mesmo ano.

Afonso de Albuquerque apresentou ao rei Dom Manuel, entre outras coisas dois cavalos persas grandes, muito formosos e ligeiros que o rei estimou muito por serem os primeiros que vieram a este reino daquelas partes.= p. 117

Capítulo LXXXV

De como depois da partida de Afonso de Albuquerque e Francisco de Albuquerque se renovou a guerra entre o rei de Calecut e o rei de Cochim e do que Duarte Pacheco Pereira nisso fez. p.121

Duarte Pacheco Pereira com a sua nau e a caravela de Pero Rafael porque a outra caravela, a de Diogo Pires ficou em Cochim para ser consertada, acompanhou Afonso de Albuquerque e Francisco de Albuquerque enquanto estiveram em Cananor e no porto de Calecut.

Depois da partida de Afonso de Albuquerque e de Francisco de Albuquerque, Duarte Pacheco Pereira regressou a Cochim por causa da guerra que o samorii rei de Calecut queria outra vez começar. Quando chegou, o rei de Cochim veio visitá-lo e disse-lhe a certeza que tinha da guerra e como estava desesperado por se poder defender, pediu-lhe afincadamente que o desenganasse se era verdade que o havia de ajudar nestes trabalhos ou se eram somente mostras o que andava fazendo para o entreter com palavras até se ir para Cananor ou Coulão porque com tão pouca gente e navios como os que lhe deixaram Afonso de Albuquerque e Francisco de Albuquerque duvidava que ousasse pelejar com o poder do rei de Calecut.

Duarte Pacheco Pereira que, apesar de ser muito cavalheiro era também demasiadamente colérico, agastado e movido com estas palavras esteve quase para agredir o rei. Contudo cheio de cólera disse-lhe:

- Confio tanto em Deus que hei-de prender o rei de Calecut e preso, mandá-lo a Portugal. Descanse e prepare a sua gente que, quanto aos portugueses, não tem de que duvidar.

Acabada esta conversa, o rei recolheu-se aos seus paços e Duarte Pacheco Pereira recolheu-se à fortaleza e porque lhe disseram que os mouros de Cochim, com medo do rei de Calecut se queriam ir todos da cidade, mandou chamar alguns deles a casa de um dos principais de nome Clinamacar, onde os exortou a não saírem de Cochim, dando-lhes motivos por que não o deviam fazer e, por fim, afirmou-lhe que jurava pela sua Lei que os que se fossem e depois os encontrasse que os havia de enforcar e o mesmo faria logo aos que soubesse de certo que queriam deixar a cidade. Com esta exortação, uns por medo e outros por vontade prometeram-lhe que não iriam para nenhuma outra parte e que por serviço do rei de Portugal e do rei de Cochim poriam as suas vidas e bens em perigo.

Isto acabado, Duarte Pacheco Pereira que em nenhuma outra coisa tinha o sentido senão em como havia de provocar o rei de Calecut, entrou algumas vezes pelas terras de Repelim e outras vezes pelas terras de seus aliados e vassalos e nestes ataques fez muito dano, regressando sempre vitorioso a Cochim, embora num destes ataques que fez em Repelim lhe ferissem oito dos seus. Com estas vitórias alegrava toda a gente e principalmente ao rei que já começava a ter nele mais confiança do que pouco antes lhe dera a entender.

O samorii rei de Calecut, sabendo do estrago que Duarte Pacheco Pereira fazia nas suas terras, apressou-se o mais depressa que pôde com uma grande armada por mar e por terra até chegar a Repelim com intenção de entrar na ilha de Cochim pelo passo de Cambalão.

Certificado Duarte Pacheco Pereira por cartas de Rodrigo Reinel que depois morreu (= foi morto) em Calecut e de Cojebequii, ordenou o seguinte à gente que havia de ir com ele defender aquele passo e deixar na sua nau e na fortaleza:

1. Na nau, deixou vinte e cinco homens com o mestre Diogo Pereira que ficou por capitão com muita artilharia e munições de guerra em defesa da cidade;

2. Na fortaleza, deixou por capitão Diogo Fernandes Correia, feitor com trinta e nove homens entre os quais Lourenço Moreno e Álvaro Vaz escrivães da feitoria;

3. Consigo levou a caravela de que era capitão Pero Rafael com vinte e seis homens e dois batéis, por capitão de um Diogo Pires com vinte e três homens, a quem mandou que andasse nele até ter consertada a sua caravela e no outro batel iam vinte e dois homens entre os quais o próprio Duarte Pacheco e um outro Simão de Andrade que embora ainda fosse um rapaz já naquela altura dava mostras de ser o bom guerreiro que depois veio a ser. Iam nesta pequena armada setenta e três homens, incluindo os capitães, todos confessados, comungados e juramentados de morrerem uns pelos outros antes de se deixarem aprisionar nem cometerem coisa que prejudicasse a sua honra.

O rei de Cochim estava na cidade quando Duarte Pacheco Pereira desancorou de diante da fortaleza Emanuel e, chegando onde ele estava, o rei veio recebê-lo à praia com muita alegria, mas quando viu que estava posta a esperança de se perder ou ficar no seu reino com uma tão pequena companhia em comparação com o exército do rei de Calecut que com a sua gente cobria a terra e com os paraus entupia os rios do Malabar, com as lágrimas nos olhos pediu-lhe que já que nem dele nem do seu reino se podia fazer conta nem em todos eles havia poder nem resistência contra o seu inimigo lhe rogava que, com os seus buscasse maneira de se salvar, pois já estava certa a sua perdição e de todo o seu Estado. Que proveito se podia seguir ao de perecerem todos em suas terras (de Cochim) sem poder valer a homens a quem tanto bem queria, vendo-os tão animados a morrerem para o livrarem dos trabalhos e perigos que a sua triste ventura o tinha posto.

Duarte Pacheco Pereira, apesar de ser muito esforçado, não ficou sem fazer mudança, não pelo receio dos perigos de que estava ameaçado, mas sim pela compaixão que teve do rei e dos que junto dele estavam, a que todos via com muito menos esforço do que davam a entender as palavras do rei. Contudo ainda lhe disse:

- Não desconfie porque a força desta armada está no poder do Deus Verdadeiro em quem os portugueses crêem e adoram e que há-de confundir o rei de Calecut e fará falsas todas as esperanças que os seus feiticeiros lhe dão do sucesso desta guerra que ele começou. Isto é quanto a Deus que tudo pode! Quanto aos homens, estes meus são tão esforçados e o passo onde vamos esperar o rei de Calecut é tão estreito que nele espero desbaratá-lo sem nenhuma outra ajuda.

Com estas e outras palavras, Duarte Pacheco Pereira consolou o rei o melhor que pôde, falando sobre o modo que cada um deles devia ter nesta guerra. O rei de Cochim não tinha mais do que cinco mil naires porque muitos dos seus se juntaram ao samorii. Destes deu quinhentos a Duarte Pacheco Pereira que levou consigo na caravela, batéis e navios da terra de que eram capitães Candagora e Frangora seus administradores das finanças e o caimal de Palurt e o panical de Arraúl, a quem mandou que obedecessem em tudo a Duarte Pacheco Pereira. Com esta companhia partiu Duarte Pacheco Pereira de Cochim de noite, uma sexta-feira antes do Domingo de Ramos, dia 16 de Março de 1504 e duas horas antes do dia nascer chegava ao passo de Cambalão.= p. 123

Capítulo LXXXVI

Do que Duarte Pacheco Pereira fez depois de chegar ao passo de Cambalão e de como o samorii (= imperador) rei de Calecut o acometeu a primeira vez e foi desbaratado.

Quando Duarte Pacheco Pereira chegou ao passo de Cambalão esteve até ao romper do dia no meio do rio e ao amanhecer chegou-se a terra, onde encontrou no porto bem oitocentos naires dos do rei de Calecut e as suas flechas e tiros de espingarda os quiseram atingir para que não desembarcassem, mas os nossos quando chegaram ao porto dispararam a artilharia com que os inimigos recuaram, dando-lhes a possibilidade de desembarcarem. Depois que os viram em terra, voltaram a atacar-nos e a peleja durou cerca de meia hora até que se puseram em fuga, deixando alguns mortos no campo.

Isto feito, os nossos puseram fogo a uma povoação que ficava ali perto e depois recolheram-se para o passo, levando consigo algumas vacas para alimento, o que os naires de Cochim estranharam muito por os malabares terem por religião não matarem a vaca nem lhe comerem a carne.

Recolhido Duarte Pacheco Pereira ao passo, no mesmo dia lhe chegaram quinhentos naires do rei de Cochim, em companhia dos quais vinha Lourenço Moreno com quatro espingardeiros portugueses. Quando Duarte Pacheco Pereira chegou a este passo de Cambalão o rei de Calecut ainda lá não estava e no dia seguinte, este apareceu defronte do lugar onde os nossos estavam com a seguinte companhia: Bertacorol, rei de Tanor com quatro mil naires, Catanambarii, rei de Bipur e de Cucurão, junto da serra de Narsinga com doze mil naires, Cocagatacol, rei de Cotagom entre Cananor e Calecut, junto da serra com dezoito mil naires, Currivacuil, rei de Curiga entre Panane e Cranganor com três mil naires. Estes traziam a sua gente e bandeiras separadas cada um por si e sob a bandeira do rei de Calecut vinha Nambeja seu sobrinho, Paramhira, senhor de Cranganor que agora é reino, Papucol, senhor de Cahliam entre Calecut e Tanor, Parinhara Mutacoil, senhor da terra que está entre Cranganor e Repelim, Benara, senhor de Nambeadarim acima de Panane por terra, Nambir, senhor de Benalacheri, Papapucol, senhor de Bipur, entre Cani e Calecut, Papucol, senhor de Papurangari, o catual de Maugatenara e muitos outros caimães. Esta companhia que vinha por terra, sob a bandeira do rei de Calecut passava de vinte mil homens entre naires e mouros de que no exército havia bastantes.

A companhia do mar era de cento e sessenta navios de remo em que entravam setenta e seis paraus com arrombadas de artilharia poderosa. Este ardil deram-lhe os dois lombardos milaneses que andavam ao serviço do rei de Calecut. Cada parau destes levava duas bombardas, vinte e cinco flecheiros e cinco espingardeiros. Vinte destes paraus vinham ordenados em fila para atacarem a caravela. Além destes setenta e seis, iam cinquenta e quatro catures e trinta tones de coxia larga com cada um sua bombarda e dezasseis homens de peleja. Nesta armada do mar havia mais de doze mil homens de guerra de quem era capitão o príncipe Naubeadarim, sobrinho e herdeiro do rei de Calecut e por sota (= nau de retaguarda) capitão Elancol Nambeadarim, senhor de Repelim de tal modo que a gente que entrou nestes dois exércitos do mar e da terra em serviço do rei de Calecut passaria de setenta mil homens de peleja.

Além desta enorme multidão de gente e navios mandou o rei de Calecut, por conselho e ordenança dos dois lombardos milaneses, fazer de noite um baluarte de terra e madeira defronte do passo onde os nossos estavam de que no tempo dos combates recebiam muito dano por haver de uns aos outros muito pouco espaço.

Duarte Pacheco Pereira quando soube da chegada do rei de Calecut e da frota que vinha com ele, mandou dar cabos da caravela a um dos batéis e daquele ao outro guarnecidos com cadeias de ferro grossas com que ocupavam todo o passo. Nesta ordem e com muitas bombardadas receberam esta armada do rei de Calecut de que arrombaram alguns paraus e mataram muita gente sem nenhum dos nossos ficar ferido ou ser morto. A multidão dos inimigos era tanta que se embaraçavam uns nos outros. Contudo a jangada dos vinte paraus que vinham em fila adiantou-se a toda a sua frota chegando-se à nossa caravela e batéis e atirando muitas bombardadas com que davam assaz trabalho aos nossos.

Havendo já um bom espaço de tempo que uma e a outra parte se servia da artilharia de maneira que com o fumo e o fogo da pólvora não se viam uns aos outros, Duarte Pacheco Pereira mandou atirar com um camelo que ainda não descarregara o que se fez em tão boa hora que o segundo tiro desmanchou toda a fila de paraus, arrombando quatro paraus que logo foram ao fundo. Estes desbaratados logo se começou a chegar outra quadrilha de paraus dos quais os nossos arrombaram treze e meteram outros treze ao fundo. Nestes dois ataques dos nossos mataram muitos do inimigo e fizeram-nos afastar.

O senhor de Repelim vendo isto, ele próprio acudiu com uma grande frota de paraus, catures e tones e o mesmo fez o rei de Calecut por terra. Este foi um bravo e perigoso combate porque de ambas as partes eram os nossos acometidos de modo que quase se tiveram por derrotados, mas assim como a pressa da vitória do inimigo era grande também maior era o esforço de Deus. Isto era já depois da hora véspera. Até esta altura, os nossos tinham já morto trezentos e cinquenta homens conhecidos, além de outros vulgares que passavam de mil. Dos nossos, por milagre de Deus, não morreu nenhum e poucos ficaram feridos; um dos nossos batéis foi arrombado pelos tiros de artilharia do inimigo, mas não tanto que não o conseguissem consertar antes que anoitecesse. Candagora e Frangora, capitães do rei de Cochim que durante todos estes combates estiveram na caravela (porque os outros naires que iam nos paraus e catures fugiram com medo no dia em que o rei de Calecut chegou ao passo), vendo a vitória que Deus dera aos nossos e quão esforçadamente o fizeram, ficaram espantados, pedindo perdão a Duarte Pacheco Pereira da desconfiança que tiveram de ele poder desbaratar tão grande multidão de gente. Com a notícia de tão grande vitória, o rei de Cochim ficou muito contente e, por isso, mandou logo o príncipe de Cochim visitar Duarte Pacheco Pereira, desculpando-se de não o fazer ele pessoalmente pela necessidade de ficar em guarda da cidade.

Após a vitória, os nossos, apesar de bastante esgotados pelo esforço, nem por isso deixaram de cantar e se divertir toda aquela noite e tocar as trombetas e dar com martelos na artilharia e fazer ruído com cadeias de ferro que havia nos navios para assim espantarem os inimigos e para que pensassem que estavam fazendo alguma máquina para os combater no dia seguinte.

Duarte Pacheco Pereira vendo que nem por mar nem por terra o vinham acometer se foi, depois da hora véspera, num dos batéis atacar uma povoação do caimal de Cambalão, onde, apesar da resistência, mandou pôr fogo.

No dia seguinte, chegou a caravela que ficara em Cochim e que Duarte Pacheco Pereira, por terra, fora avisado da sua partida e foi ao seu encontro. Nela estava o rei de Cochim que o veio ver e depois de terem conversado sobre os seus assuntos, despediu-se dele e trouxe a caravela para o passo de Cambalão. Entregou a capitania da caravela a Diogo Pires e a do batel a Cristóvão Jusarte e já que o rei de Calecut, por conselho dos seus feiticeiros, durante toda esta semana não acometeu o passo, Duarte Pacheco Pereira não deixou de fazer o seu trabalho, entrando pelas terras de Cambalão e fazendo muitos ataques inesperados em que queimou alguns lugares da ilha de bom despojo e regressou sempre vitorioso.= p. 125

Capítulo LXXXVII

Do segundo e terceiro combates que o samorii rei de Calecut deu aos nossos em que também foi derrotado.

O rei de Calecut injuriado de tamanha afronta como a que recebera dos portugueses, pensou logo no dia seguinte voltar a atacar os portugueses, mas por conselho dos seus feiticeiros não o fez, dando-lhe dia certo para a vitória. Este dia era o Dia de Páscoa tão solene à nossa religião que se podia esperar nele a vitória com maior certeza do que em nenhum outro.

No Dia de Páscoa, em amanhecendo, apareceu uma armada muito maior do que a primeira. Esta era de cem paraus, cem catures e oitenta tones, onde havia mais de quinze mil homens de peleja; destes cinco mil eram flecheiros, duzentos espingardeiros e os outros de espada, rodela e lança, além dos bombardeiros que serviam a trezentos e oitenta tiros de artilharia falcões e berços e os outros de metal que fundiram os dois lombardos milaneses e para que o rei pudesse mais facilmente desbaratar os nossos, mandou a um dos seus capitães que, com setenta paraus, fosse acometer a nossa nau que ficara de guarda da cidade de Cochim para que Duarte Pacheco deixasse o passo para a socorrer e ele (rei de Calecut) deixou-se ficar com toda a outra armada no rio de Repelim.

Estes paraus foram ter a um estreito que entra no rio de Cochim por onde o rei de Calecut também poderia passar com toda a sua armada e o fizera se não lhe parecera fraqueza mudar o propósito que tinha de passar pelo de Cambalão. Estes paraus passaram de noite sem serem pressentidos pelo que, quando chegou a nau a acometeram muito bravamente. Esta notícia por via do rei de Cochim com muita diligência chegou a Duarte Pacheco Pereira às nove horas do dia e ele ficou muito suspenso com este recado por ver que era ardil de guerra que o rei de Calecut pusera em prática para lhe enfraquecer o passo e o entrar. Contudo por conselho e parecer de todos, foi socorrer a nau com a caravela de Diogo Pires e o batel de Cristóvão Jusarte. Encontraram a nau em tamanho aperto que se tivessem tardado um pouco mais dificilmente se pudera defender, mas assim que os inimigos o viram largaram a nau, fugindo para Repelim. Duarte Pacheco Pereira não os quis seguir nem pelo menos entrar na nau porque já ouvia o som de bombardas que parecia que vinha dos lados de Cambalão, pelo que voltou logo e assim chegou ao passo de Cambalão numa altura em que era muito necessário porque os inimigos tinham passado a caravela ao lume de água à força de bombardadas e desfeitas as arrombadas e também as do batel, tanto por mar como por terra, combatiam os nossos com tanto ímpeto, mas se ele não chegara a tempo, que chegou, o passo teria sido entrado. Ao chegar deu nas costas do inimigo e nos que estavam no passo à frente de tal maneira que os fizeram fugir a todos: uns pelo rio acima e outros em todas as direcções em terra.

Neste combate, os inimigos perderam dezanove paraus entre queimados e alagados e morreram duzentos e noventa homens; dos nossos, por milagre de Deus, não morreu nenhum porque em muitos deram os piloros nas cabeças, braços, peitos, pernas e por todo o corpo sem lhes fazer dano, passando deles adiante. Os inimigos ficaram tão furiosos que desmanchavam e quebravam as apadesadas em pedaços, no que claramente se viu que Deus era o que pelejava por eles. O rei de Calecut, vendo quanto ao contrário do que esperava lhe sucederam os dois combates, como de sua condição era instável, quisera desistir desta guerra e a mesma vontade achou em muitos dos seus; contudo, aconselhado pelos mouros, determinou acometer uma terceira vez o passo trazendo toda a sua frota alinhada em esquadrões.

Duarte Pacheco Pereira mandou aos das caravelas e batéis que não atirassem nem se mostrassem, senão quando ele o dissesse. Os inimigos que estavam em terra julgaram que não o faziam por medo e por isso deram uma grande apupada e chegaram-se ao passo e o mesmo vinham fazendo os navios de Calecut, todos tão confiados que, sem nenhuma ordem, chegaram aos nossos a tiro de lança. Então Duarte Pacheco Pereira mandou dar um grande grito e disparar a artilharia contra os da terra e os do mar e subitamente mataram tantos e arrombaram tantos navios dos de Calecut que todos, tanto uns como os outros, deixaram o combate a quem mais depressa fugiria. O caimal de Repelim que era capitão destes navios que acometeram primeiro, vendo isto mandou pô-los novamente em corpo, começando de novo a bombardear os nossos, mas o rei de Calecut irritado por isto se fazer de longe e que não ousavam chegar-se ao passo mandou o príncipe Naubeadarim que era capitão geral da armada do mar que fosse para aquele lado e que o senhor de Repelim se retirasse dali, pois estava a fazer tão mal o ataque. O senhor de Repelim sentiu-se muito afrontado e ofendido, mas Naubeadarim fez tanto como o ele porque ainda que viesse com toda a flor da armada foi também recebido pelos nossos com piloros de bombardas que nunca nenhum dos da sua companhia, por muito que ele os animasse e ameaçasse, ousou chegar-se ao passo, mas antes vendo-se tão maltratados, puseram-se em fuga. Foi tamanho o medo desta derrota que mesmo o rei de Calecut, desesperado e com medo de lhe tomarem a artilharia que estava no baluarte que mandara fazer defronte do passo, a mandou tirar dali e levou consigo, retirando-se do campo como homem derrotado.

Os inimigos perderam desta vez vinte e dois paraus e outros navios e como se soube por certo morreram deles mais de seiscentos.

Duarte Pacheco Pereira não contente com esta vitória foi ainda seguindo os inimigos um bom pedaço de tempo às bombardadas e ainda saltou em terra e queimou dois lugares sem encontrar nenhuma resistência. Depois regressou ao passo já eram quatro horas da tarde, pois tanto duraram estes ataques, começando pela manhã e logo aquela noite, no quarto da hora primeira, por aviso dos espias que trazia, foi dar a um lugar muito grande dos inimigos que queimou e matou muitos dos que nele moravam. Contudo ao recolher, que já era ao romper do dia, encontrou resistência de naires e matando e ferindo alguns deles fez fugir os outros.

Dali partiu para o passo, onde encontrou muito refresco que lhe mandara o rei de Cochim. O refresco veio bem a propósito a todos e pelos que trouxeram o refresco, Duarte Pacheco Pereira mandou dizer ao rei de Cochim que perseverasse porque ele esperava em Deus de não somente vencer o rei de Calecut, mas ainda o capturar e lho entregar prisioneiro.= p. 127

Capítulo LXXXVIII

De como o rei de Calecut passou o rio de Repelim e instalou o seu arraial nas terras de Porcâ, onde acometendo os passos de Palurt e o do vau foi outra vez derrotado.

Com estas derrotas dos da companhia do rei de Calecut, tendo aquela guerra por infortunada, muitos desertaram, entre os quais um foi o caimal Mangate Muta, um seu irmão e um seu primo que, no dia seguinte, depois do terceiro combate, abandonaram secretamente o arraial para a ilha de Vaipim com intenção de fazerem dali os seus acordos com o rei de Cochim, cujos vassalos eram. O rei de Calecut sentiu muito, por todos os três serem guerreiros muito esforçados, pelo que logo começou outra vez a insinuar prosseguir esta guerra, mas aconselhado pelos dois lombardos milaneses e por alguns dos reis e senhores que andavam com ele, determinou continuar o que tinha começado. Nisto foi contrariado pelo príncipe Naubeadarim como já outras vezes o fizera, fazendo-lhe sobre isto uma exortação pública, chamando-o à razão e com argumentos, os quais o rei ia aceitando de boa vontade, se não fora o senhor de Repelim o contradizer, pois ele era muito submisso ao rei.

Finalmente ficou estabelecido que se continuasse a guerra e visto que, pelo passo de Cambalão não se podia fazer a entrada; ainda que fosse com afronta do rei, esta se fizesse por outro passo chamado Palinhar que estava um bom pedaço distante daquele. Palinhar era um lugar muito cheio de lamas e matos de espinheiros, de tão ruim fundo que os nossos não poderiam lá chegar com as caravelas. Dali o rei de Calecut passaria a Cochim pelo passo do vau, como fizera da outra vez, quando derrotara o rei de Cochim. Que Duarte Pacheco Pereira não fosse avisado desta decisão.

Logo no dia seguinte ao terceiro combate, passaram do outro lado do passo à terra de Porcâ. Os espias dos nossos, quando viram o inimigo levantar o arraial, imaginaram que o rei de Calecut regressava a Calecut, mas quando o viram deslocar-se para o passo de Palinhar, avisaram logo Duarte Pacheco Pereira e, após este espia vieram outros que lhe disseram que cerca de quinhentos naires do rei de Calecut andavam na ilha de Arrabil, cortando e queimando muitas árvores que entre eles é sinal de vitória. Duarte Pacheco Pereira logo avançou com alguns portugueses e duzentos naires do rei de Cochim que levava consigo misturados. Ele e Pero Rafael, em esquadrão, no outro passo os atacou e desbaratou, matando a maior parte deles e trazendo cinquenta prisioneiros que, quando regressava encontrou embrenhados num bosque da ilha. Quis enforcá-los a todos, mas a rogo dos naires do rei de Cochim, apesar de inimigos não o fez e mandou presos ao rei de Cochim que também pela vida deles lhe mandara rogar.

Isto feito e Duarte Pacheco Pereira, verificando que já não valia a pena continuarem no passo de Cambalão, levou as caravelas ao passo de Palurt que fica a uma boa légua do vau, onde não podiam chegar por ter pouco fundo e ele com os seus batéis se foi dali ao passo do vau donde podia facilmente socorrer as caravelas.

Quando chegou ao passo de Palurt, encontrou alguns naires na ponta da ilha de Arraúl que, de um lado e do outro, está situada entre as terras de Repelim e de Porcâ. O rei de Calecut instalava o arraial a uma légua de Palurt. Os naires, vendo os nossos, acudiram à praia donde os fizeram recuar para dentro às bombardas. Estando ali ancorado, Duarte Pacheco Pereira foi avisado de que, no dia seguinte, que era o primeiro dia do mês de Maio, havia o rei de Calecut de mandar atacar o vau.

Ao amanhecer, Duarte Pacheco Pereira foi lá com os batéis, dando o sinal que havia de fazer aos capitães das caravelas quando tivesse necessidade de socorro. Ao chegar ao passo do vau, mandou dar grandes gritos para que os inimigos soubessem que tinha chegado. Lá encontrou o príncipe de Cochim com seiscentos naires.

O rei de Calecut, depois de ter ido para o outro lado, nas terras de Porcâ, por conselho dos seus, no dia seguinte ao que os seus feiticeiros disseram que haveria vitória, mandou combater de ambos os passos de Palurt e do vau e contra o de Palurt, onde estavam as caravelas mandou o senhor de Repelim com toda a frota e ao do vau mandou o príncipe Naubeadarim com quinze mil homens. Duarte Pacheco Pereira, que esperava o mesmo, mandou logo arrasar a ponta da ilha de Arraúl e cortar todo o arvoredo que nela havia para os inimigos não porem ali secretamente algumas bombardas e mandou dar cabos de uma caravela a outra, fazendo toda a noite uma grande festa para darem a entender ao inimigo que não tinham medo.

De madrugada, chegaram Simão de Andrade e Cristóvão Lusarte nos batéis porque o vau ficava seguro quando a maré enchia. Duarte Pacheco Pereira mandou aos seus que comessem porque aquele dia sobre todos, era aquele em que haviam de mostrar o esforço com que sempre venceram o inimigo e com estas palavras e outras os animava ao bravo e perigoso combate em que logo se haviam de encontrar.

Isto era ao romper do dia, a hora em que os inimigos com algumas bombardas que tinham em terra na ponta da ilha, começaram a atirar contra os nossos e logo dali a pouco apareceu a frota que era composta por duzentas e cinquenta velas e, por vir ainda longe, Duarte Pacheco Pereira fez dar aos remos nos batéis e, chegando a terra, foi atacar a estância donde os inimigos atiravam e fê-los fugir e porque não pôde trazer as bombardas, mandou-as encravar. Desbaratada esta companhia recolheu-se às caravelas, estando já a armada dos inimigos bem perto da nossa e por os seus tiros varejarem amiúde, mandou que estivessem todos baixos sem se mexer até ele o mandar. Isto aos inimigos pareceu que os nossos estavam com medo; então começaram a se aproximar das caravelas quarenta paraus enfileirados. Logo Duarte Pacheco Pereira mandou dar uma grande gritada, tocar as trombetas e disparar a artilharia com que os paraus se desorganizaram logo. O senhor de Repelim mandou imediatamente outros paraus em ajuda, onde foram tantas as bombardadas de uma parte e da outra que nem o céu nem a terra nem a água se viam com o fumo e chamas de fogo. Contudo os inimigos aproximavam-se cada vez mais dos nossos navios e tão perto deles que se serviam das flechas e lanças de arremesso. Nisto esteve a peleja um bom pedaço de tempo sem a vitória se inclinar a nenhuma das partes até que Deus, por Sua misericórdia, a declarou a favor dos nossos, começando-se os paraus a alagar pela muita gente que lá já tinham morta. O senhor de Repelim, vendo que o rei de Calecut via de terra a peleja e querendo-o contentar, tentara passar o vau, mas os nossos, por duas vezes, o defenderam, matando muitos dos que com o senhor de Repelim estavam.

Estando Duarte Pacheco Pereira neste trabalho, aproximou-se dele Candagora a dizer-lhe que Naubeadarim, príncipe de Calecut, vinha para passar o vau com uma grande companhia de gente e que o rei de Calecut vinha atrás dele. Depois de saber isto, Duarte Pacheco Pereira deixou-se estar atirando as bombardadas aos inimigos até à hora em que a maré, vazando, podia dar lugar a Naubeadarim para passar o vau. Para lá se foi logo e lho defendeu de maneira que, apesar de Naubeadarim insistir muito em passar o vau e também a muita gente que levava consigo com berços encarretados que para isso fez trazer a colos de homens, ele não pôde passar e tomou a decisão de recuar.

Nesse instante, chegou recado do rei de Calecut para Naubeadarim que não sabia qual o fizera pior se o senhor de Repelim em não afundar os nossos navios ou ele em não passar o vau como lho prometeram. Naubeadarim ficou tão envergonhado que, de novo, com doze mil homens voltou a atacar o passo. Houve uma brava peleja e Naubeadarim viu-se constrangido a fugir.

Nestes combates e no de Palurt, o rei de Calecut perdeu muita gente e muitos navios e ficou tão irritado que, se estivesse na sua mão, mandaria cortar a cabeça a alguns dos seus capitães. Contudo não os deixou de repreender e chamar-lhes cobardes e principalmente ao senhor de Repelim e a Naubeadarim, príncipe de Calecut.= p. 129

Capítulo LXXXIX

De como o rei de Calecut em pessoa combateu o passo do vau, onde foi derrotado e de algumas coisas que antes e depois disso aconteceram.

Dois ou três dias depois de Deus dar esta vitória aos nossos, começou uma tão grande enfermidade no arraial do rei de Calecut que a guerra teve as suas tréguas por lhe morrer muita gente sem se conhecer de que doença nem medicamento para a sua cura. Constrangido, o rei se foi do acampamento militar até que aquela doença cessou.

Contudo Duarte Pacheco Pereira, em todo este tempo, não esteve ocioso, mas antes se apercebeu de tudo o que lhe era necessário e porque dantes lançara abrolhos (= espinhos) de ferro no vau e estes, por serem curtos, se sumiram tanto na lama do vau que não afectaram o inimigo; então mandou no baixa mar fincar no vau estacas de areca (palmeiras indianas) tostadas com pontas muito agudas.

O rei de Calecut, nesta altura, soube pelos seus feiticeiros que os seus deuses estavam muito irados contra ele e que se aplacariam se logo mandasse fazer um turcol (casa de oração tipo mosteiro) no lugar que eles lhe dissessem que são casas de oração onde vivem homens religiosos como entre nós frades. Ele prometeu fazê-lo e eles indicaram-lhe o dia certo em que nele haveria vitória, para o que se começou a preparar para o combate.

Deste assunto, Duarte Pacheco Pereira teve aviso pelos seus espias com quem, nesta altura, estavam trezentos naires do rei de Cochim e duzentos naires do Mangate. estes fugiram um dia antes da peleja e Duarte Pacheco Pereira, ao regressar das caravelas que fora visitar, soube por dois naires de Cochim que o fizeram a mando do mesmo Mangate. Duarte Pacheco Pereira, por lhe parecer traição, avisou o príncipe de Cochim, mandando-lhe dizer por um brâmane que viesse logo para o ajudar, por quanto, no dia seguinte, esperava ataque do rei de Calecut. O brâmane deu o recado ao príncipe já tarde demais para ter qualquer benefício. O rei de Calecut, no dia em que os seus feiticeiros lhe disseram que pelejasse, partiu com todo o seu exército, repartido da maneira seguinte:

À frente, precediam dois mil naires para guarda de trinta bombardas que o rei mandaria atirar para onde os nossos estavam;

Atrás deles, seguia a vanguarda do exército de que era capitão Naubeadarim com doze mil homens em que entravam dois mil flecheiros e trinta espingardeiros;

Após ele, o senhor de Repelim com outra tanta gente;

Na retaguarda, vinha o samorii rei de Calecut com quinze mil homens entre flecheiros, espingardeiros, lanceiros e de espada e rodela e quatrocentos homens que traziam machados para cortarem a paliçada.

Contra todo este poder, Duarte Pacheco Pereira tinha dois batéis, quarenta homens portugueses e em cada um seis berços, dois falcões e um tiro grosso por proa.

Os que vinham com a artilharia do rei de Calecut, ao chegarem, começaram logo a descarregá-la contra os nossos, mas Duarte Pacheco Pereira, depois de os segurar um pouco, aproximou-se deles com os batéis e às bombardadas fê-los recuar para dentro de um palmeiral. Estando assim a pelejar, chegou Naubeadarim com a vanguarda do exército que, com grande ímpeto, acometeu o vau, mas os nossos defenderam-no às bombardadas e com rocas de fogo que lhe lançavam amiúde, matando muitos deles e, porque a maré vazava, Duarte Pacheco Pereira, para não ficar atolado na lama do passo, retirou-se um pouco para trás e mandou Cristóvão Lusarte, porque o seu batel era mais pequeno, que esperasse no passo o mais que pudesse porque, com o retorno da maré, que não devia tardar, se juntaria a ele. Assim ambos, cada qual no lugar em que a água deixava flutuar os batéis, defendiam o passo de tal maneira que os inimigos não ousavam atacá-lo.

Era tão grande o ruído e o atirar das bombardas, espingardas e flechadas que, por muito alto que do batel de Cristóvão Lusarte dissessem a Duarte Pacheco Pereira que os naires de Cochim que guardavam a estacada a abandonaram, este não o pôde ouvir e, já nesta altura, o senhor de Repelim estava no passo, ajudando a gente de Naubeadarim, quando chegou o rei de Calecut com toda a força do seu exército e, por o conhecerem pela bandeira e sombreiro que trazia à frente, Duarte Pacheco Pereira mandou atirar com um falcão de que o piloro deu tão perto dele que o fez balançar no andor em que vinha e o piloro matou dois naires que estavam junto dele, pelo que se retirou um bom pedaço para trás, mandando dizer a Naubeadarim e ao senhor de Repelim que apertassem com a sua gente para passarem o vau antes que a maré subisse mais.

Com este recado e à força de pancada e cutiladas que davam nos seus, faziam-nos entrar no vau e, empurrando-se uns aos outros, começaram a sentir as pontas das estacas de areca com tanta dor que os primeiros, bradando e lamentando-se aos que seguiam atrás, começaram a embaraçar-se uns nos outros de maneira que, caindo uns sobre os outros, esforçavam-se por conseguir voltar para trás e os nossos nos batéis usavam a artilharia sobre eles.

Durante isto, os dos machados, pela água de todo ser baixa, chegaram à paliçada, começando a cortá-la sem acharem resistência por os naires de Cochim, que a guardavam, terem fugido. Duarte Pacheco Pereira, vendo isto, ficou muito triste e apreensivo porque, acudindo àquela parte, os inimigos entrariam pelo passo por aquela área onde ele estava e não acudindo, passariam pela outra, o que se fizessem no mesmo dia, chegariam a Cochim e ficariam senhores de toda a terra. Contudo determinou acudir ao mais necessário que era a paliçada.

Duarte Pacheco Pereira aproximou-se o mais que pôde do batel de Cristóvão Lusarte e saltou para dentro e disse a Cristóvão Lusarte para saltar para o seu e, por este batel ser mais pequeno, aproximou-se da paliçada o mais que pôde, donde começou a atirar com a artilharia de maneira que os inimigos começaram a retirar-se da paliçada. Logo acudiu Naubeadarim com a maior parte da sua gente e alguns tiros de artilharia pelo que renovou a peleja tão bravamente que os inimigos chegaram até a porem as mãos nos remos do batel em que estava Duarte Pacheco Pereira. Este, vendo -se cercado por todos os lados, chamou com muita devoção em alta voz Deus em socorro e ajuda porque em todas as outras pelejas nunca sentiu que poderia ser vencido, senão nesta. Logo o Senhor lhe acudiu com o seu grande poder porque a maré começava já a subir. Os do batel, apercebendo-se disso, deram um grande grito e começaram a balancear o batel para o voltarem, mas era tanta a quantidade dos inimigos que os tinham cercado ao redor que não o puderam fazer.

À medida que a maré ia subindo, ia crescendo o ânimo aos nossos como a homens a quem tinha chegado o verdadeiro socorro que lhes era necessário pelo que, muito mais amiúde do que dantes, começaram a descarregar a artilharia, espingardas, lanças, paus tostados e outros tiros de arremesso contra os inimigos, fazendo eles o mesmo até que a maré subiu tanto que a força da água fê-los deixar o passo.

Depois disto, Duarte Pacheco Pereira regressou ao lugar onde deixara Cristóvão Lusarte que, da sua parte, fez também muito naquele dia como esforçado guerreiro e nem creio que tal nome se possa negar a nenhum dos que ali se encontraram. Chegando Duarte Pacheco Pereira onde estava Cristóvão Lusarte cada um saltou para o seu batel e, sem quererem perder tempo, servindo-se da maré percorreram o vau, atirando muitas bombardadas contra a ilha de Porcâ, onde o rei de Calecut estava alojado e mataram alguns que andavam à borda de água, fazendo-os recuar para dentro dos palmares.

O rei de Calecut ficou muito triste e envergonhado com esta derrota por, diante e na sua presença, um enorme exército não derrotar e tomar às mãos dois batéis com tão pouca gente. Repreendendo muito os seus, partiu em desespero ao longo da ilha para a parte onde estava Pero Rafael com as caravelas. Este, vendo passar o rei de Calecut ao longo da praia, mandou disparar um tiro grosso que, junto do rei, matou três naires, dos quais um era o que lhe dava o betelhe. O tiro foi tão perto do rei que o sangue dos naires lhe saltou para o rosto.

O rei desceu do andor e caminhando a pé se afastou da caravela. Nesta peleja, o rei perdeu muito mais gente do que em todas as outras sem dos nossos morrer nenhum, factos que certamente se pode crer como milagrosos. Esta peleja durou desde o amanhecer até às horas de vésperas, quando o príncipe de Cochim chegou ao passo, após receber o recado do brâmane e, sem saber nada do combate porque o recado que Duarte Pacheco Pereira mandara pelo brâmane de que haveria naquele dia o rei de Calecut os atacar, não lhe foi transmitido.

Duarte Pacheco Pereira, irritado pela demora do príncipe de Cochim e seus naires e pela fuga dos seus naires da paliçada, não queria falar com o príncipe; mas este apertou tanto Duarte Pacheco Pereira que este ouviu as desculpas do príncipe e as recebeu. Duarte Pacheco Pereira contou-lhe a fuga dos seus naires e o facto de não lhe ter sido dado o recado que lhe mandara. Tudo foram artes e traição do Mangate e Duarte Pacheco Pereira avisou-o de que visse o que fazia dali por diante e que não se fiasse mais no Mangate.

Dali Duarte Pacheco Pereira se foi para as caravelas, onde o rei de Cochim o veio visitar com muita festa e alegria como já o fizera outras vezes, lançando-lhe os braços ao seu pescoço e dizendo-lhe que a ele, depois de Deus, devia o seu reino e Estado. Duarte Pacheco Pereira respondeu-lhe a isso com discrição, queixando-se-lhe da traição que os seus naires fizeram ao fugir da paliçada, atribuindo esse facto a Mangate e a seus parentes, dizendo-lhe:

- Mangate é seu inimigo secreto. Será melhor que o lance fora das suas terras para que seja do conhecimento de todos que é um traidor e vá servir o rei de Calecut como já o fez antes.

Acabadas todas estas conversas, o rei regressou a Cochim, mandando a todos os seus caimães, panicães e naires que em tudo, como a sua própria pessoa, obedecessem dali por diante a Duarte Pacheco Pereira.= p. 131

Capítulo XC

Das traições que, por conselho do senhor de Repelim, o rei de Calecut ordenava para matar e destruir os nossos e por não acontecer segundo a sua vontade, quis fazer a paz e outras particularidades.

O rei de Calecut, com a grande irritação e tristeza que tinha, não se conseguindo controlar mais nem dos que com ele andavam, desonrava tantos os feiticeiros como os reis e capitães, chamando a todos cobardes entre os quais o que acusava mais era o senhor de Repelim porque reconhecia já nele ser fanfarrão e cobarde. Este para voltar a cair na graça do rei, aconselhou-o a que mandasse pôr veneno na água que os nossos bebiam e tivesse maneira de fazer o mesmo aos mantimentos.

Este ardil foi revelado a Duarte Pacheco Pereira por Charcanda naire que fora criado do príncipe de Cochim, Narmuhim. Logo Duarte Pacheco Pereira mandou que nenhum dos que andavam com ele bebessem nem de rio nem de fonte nem de poço, salvo de poços que cada dia ele mandaria abrir. Isto fazia-se com pouca dificuldade por a terra ser baixa e abaulada; relativamente aos mantimentos, mandou que tanto os que lhe mandassem como os que comprassem, aqueles que os trouxessem tomassem prova primeiro.

O senhor de Repelim, vendo que este ardil não surtia efeito, deu ao rei de Calecut outro ardil: mandar secretamente pôr fogo à cidade de Cochim e no próximo combate, atacar ao mesmo tempo, a nau, as caravelas e batéis não só com gente e artilharia, mas também com elefantes, cobras de capelo e pós de veneno. De tudo foi avisado o rei de Cochim e sobre isso veio encontrar-se com Duarte Pacheco Pereira muito triste e medroso. Duarte Pacheco Pereira respondeu-lhe:

- Descanse! Eu mandei fazer uma coisa com que hei-de prender o rei de Calecut e tomar-lhe os elefantes, matar-lhe muito mais gente do que já aconteceu. Vá para Cochim e mande-me quantas cadeias de ferro e amarras de naus lá haja. São necessárias para o que preciso fazer.

Trazida esta encomenda e entregue a Duarte Pacheco Pereira, este começou a fingir que queria fazer um grande edifício e por os da terra, que são naturalmente curiosos, não verem o que era, defendeu que nenhum se aproximasse do passo do vau. Lá tinha mandado abrir grandes covas e fazer fossados que, de baixa mar ficavam cheios de água em altura que só se pode passar a nado. O rei de Calecut foi avisado do segredo desta obra e começou a ficar receoso e também todos os seus porque por experiência, já conheciam o ânimo, esforço e engenho que havia em Duarte Pacheco Pereira que, nesta altura, fez algumas entradas pelos rios e terra firme, em que queimou muito lugares e tomou quatro paraus do rei de Calecut com treze bombardas de que fez serviço ao rei de Cochim.

Andando assim ocupado, disseram-lhe que os mouros tinham dito ao rei de Calecut que ele não podia estar muito tempo no passo do vau. Para o rei saber quão ausente estava, Duarte Pacheco Pereira mandou, numa ponta junto ao rio, fazer umas casas e ao redor delas abrir uma grande cova cheia de água como se fosse uma ilha. No cabo desta ponta mandou fazer um bastilhão, no qual pôs um pau alto, a que os malabares chamam calvete onde fazem justiça a gente de baixa condição e popular. Alguns naires de Cochim perguntaram-lhe para que era e ele disse que era para nele mandar espetar o rei de Calecut. Eles não só ficaram espantados com a resposta, mas ainda tão assombrados que se foram sem lhe responder. O rei de Calecut, sabendo disto ficou com tanto medo que, por via de dois mouros de Cochim, um de nome Cherina e o outro Mamalemarear tratou secretamente de fazer a paz com Duarte Pacheco Pereira, sem disso dar conta a pessoa nenhuma, além do príncipe Naubeadarim que sempre contrariou esta guerra.

Estes mouros deram a entender a Duarte Pacheco Pereira que este acordo que procuravam fazer com ele era da sua autoria, pelo desejo que tinham de paz. Duarte Pacheco Pereira respondeu-lhes que se fossem embora. Quando o rei de Calecut mandasse-lhe acordar a paz que ele lhe responderia e com isto os mandou embora. O rei ficou muito mais atemorizado pelo, por conselho do mesmo príncipe Naubeadarim e do senhor de Repelim determinou, com muito maior força e poder do que até ali fizera, atacar o passo para o que se começou a preparar. Nesta altura, deu a mesma enfermidade que já da outra vez aconteceu no seu arraial militar, ma não foi tão perigosa como antes por os físicos (=alquimistas) terem descoberto o medicamento. Contudo foi proveitosa aos nossos porque, pelos avisos que Duarte Pacheco Pereira teve do modo em que o rei determinava de o vir atacar se preparou de maneira que a tudo resistiu e obteve a vitória.

Capítulo XCI

De como Duarte Pacheco Pereira desbaratou outra vez o rei de Calecut.

O rei de Calecut, depois de passada a doença que, pela segunda vez, atacara o seu acampamento militar, determinou com a gente que tinha e muita outra que juntou e munições de guerra que para isso mandara fazer, vir atacar Duarte Pacheco Pereira ao passo do vau pela seguinte ordem:

Por terra, acompanhado de trinta mil homens com uma artilharia ordenada como sempre costumava fazer;

Diante dele, o senhor de Repelim com uma grande quantidade de escavadores para fazerem valas e fossas na ponta de Arraúl, onde os seus se pudessem abrigar dos tiros da nossa artilharia e utilizar a sua, protegida;

Por mar, vinham, à frente da frota muitas balsas de lenha com alcatrão, estopa e outros materiais que ardiam em chamas de fogo, a pô-las vinham cento e dez paraus em fila e atrás cem catures e oitenta tones de coxia larga, todos em boa ordem, com muita gente e artilharia;

Por último, seguiam oito castelos de madeira que o rei de Calecut mandara fazer a conselho de um outro mouro de Repelim chamado Cojeale, homem sabedor da guerra. Cada castelo vinha colocado sobre dois paraus, lançadas duas vigas que atravessavam de popa a popa e de proa a proa de cada um dos paraus sobre o alicerce edificou os castelos e um sobrado em cada um deles em altura de dezoito palmos, com traves e outra madeira e cravação de ferro tão forte que parecia impossível poder-se derrubar com nenhum tiro por grosso que fosse.

Duarte Pacheco Pereira que de tudo isto tinha aviso pelos seus espias muito antes deste dia em que o rei de Calecut o veio atacar que era o Dia da Ascensão de Nosso Senhor, para que não lhe aferrassem as caravelas com os castelos, mandou fazer uma bastida de matos, tipo jangada de oito braças de comprimento e outras tantas de largura todos chapados com barras de ferro. Esta bastida, mandou-a lançar a uma distância de um tiro de pedra, diante das proas das caravelas, amarrada a seis grossas âncoras com cadeias de ferro tão compridas que chegavam ao fundo da água, três a montante e três a jusante. Como os castelos dos inimigos tinham bordos dos paraus eram de vinte e dois palmos de altura cada um; soube-se esta medida por engenho de homens que tinha no campo do rei de Calecut. Mandou fazer uns esteios de meios mastros muito bem pregados nas amuradas das caravelas, nas cimalhas dos quais se cerravam uns chapitéus, tipo sobrado que em cada um podiam estar seis homens. Nesta ordem, os capitães das caravelas esperaram os inimigos e Duarte Pacheco Pereira nos batéis com alguns paraus e gente que tinha do rei de Cochim.

A gente que vinha por terra com o rei de Calecut, principalmente os da companhia do senhor de Repelim, faziam tanto estrondo de gritos e instrumentos de guerra que deram azo a que Duarte Pacheco Pereira saísse em terra na ponta de Arraúl, onde houve grande refrega de ambos os lados, mas aumentou tanto a gente dos inimigos sobre os nossos que lhes foi necessário recolherem-se aos batéis.

O rei de Calecut ficou tão indignado, sabendo que os nossos estavam na ponta, pelejando com os seus que mandou aos principais capitães do exército que passassem adiante e lhe trouxessem Duarte Pacheco Pereira vivo para ele mandar fazer justiça sobre o que morreram muitos dos inimigos sem poderem executar a ordem do rei de Calecut.

Isto tudo se fez ao romper do dia e logo daí a pouco, com a jusante da maré, a frota de Calecut começou a descer pelo rio abaixo na ordem que acima se disse. Duarte Pacheco Pereira que estava nas caravelas, vendo isto recolheu-se num catur aos batéis, encaminhando-se para o passo do vau.

Chegada a frota do inimigo que era coisa medonha de se ver as balsas de fogo guiadas pela corrente e barcos que as empurravam com varas foram cair sob os mastros que estavam encadeados e ancorados diante das caravelas, às quais pela distância o fogo não fez nenhum dano, mas antes enquanto arderam tiveram os nossos algum repouso porque os inimigos, com medo do fogo, não ousavam aproximar-se. Quando o fogo cessou todos os paraus e outros navios começaram a aproximar-se da nossa jangada, atirando com a artilharia às caravelas ao que os nossos lhes respondiam, arrombando alguns dos seus navios em que lhes mataram muita gente. Nesta altura, os castelos chegaram à balsa, nos quais, no maior deles vinham quarenta homens e em dois pelo menos trinta e cinco e nos cinco mais pequenos trinta homens em cada um, a maior parte deles espingardeiros e em todos as bombardas que podiam levar.

Chegando o maior destes castelos à balsa, começou a utilizar a artilharia e Duarte Pacheco Pereira (que no catur já regressara às caravelas) mandou atirar com um camelo ao maior destes castelos, mas o tiro, apesar de lhe acertar não fez entrada. Depois deste mandou atirar outro que fez o mesmo e por isto ficou tão triste que levantou os olhos para o céu, dizendo:

- Senhor, não tomes hoje em conta os meus pecados. Deixa, por vossa misericórdia, o castigo dos meus pecados para outro dia.

Isto em voz tão alta que o ouviram muitos. Os outros castelos puseram-se a par deste e deles lançavam tantas setas, tiros de espingardas e bombardas que era tudo uma nuvem de fumo e fogo.

Nesta maior pressa, estando as duas caravelas cercadas por todas as partes, tanto pelos castelos como pelos paraus e outros navios, estando ao rubro a fúria da peleja, Duarte Pacheco Pereira mandou atirar outra vez com o camelo ao castelo principal. Deste tiro, como já dos outros, ficaram-lhe abalados os fechos e agora acabaram de quebrar de todo, levando o tiro um lanço do castelo ao mar com alguns homens, ao que os nossos, postos de joelhos, deram um grande grito, louvando Deus pela mercê que lhes fizera e carregando logo com mais artilharia, o castelo ficou desfeito de todo. Contudo os outros castelos nem por isso deixavam de fazer o seu trabalho, combatendo muito asperamente as caravelas, apesar de receberem muito dano, o que durou até à hora de vésperas em que já começava o retorno da maré, com a qual os castelos movidos pela força da água, começaram a afastar-se da jangada. Os inimigos que tinham as duas caravelas cercadas com os paraus e outros navios, vendo isto afastaram-se, tendo por escusado continuar a combater naquele dia.

Os batéis que estavam no passo do vau, de um deles era capitão Cristóvão Lusarte e do outro batel era capitão Simão de Andrade com os paraus e catures de Cochim, em que andava Lourenço Moreno. O príncipe de Cochim com mil naires guardava a paliçada. Todos defenderam o passo dos ataques do rei de Calecut com tanto esforço que nunca a sua gente, por muito que se esforçasse, conseguiu passar. Estiveram nesta peleja até que a subida da maré os fez terminar este combate que foi o mais bravo e cruel de todos os combates que tiveram e o rei de Calecut perdeu muita gente. Dos nossos, pela graça de Deus, apesar de muitos ficarem feridos, não morreu nenhum.= p.134

Capítulo XCII

De algumas coisas que sucederam depois deste combate e de como o rei de Calecut, irritado e envergonhado, se foi meter num turcol (casa tipo mosteiro) e se fez paz com alguns reis e senhores do Malabar.

No dia seguinte a este último combate, o rei de Cochim veio visitar Duarte Pacheco Pereira acompanhado de muitos caimães, panicães e naires e também dos mais mouros honrados que moravam em Cochim, alegrando-se todos com ele pela vitória que Deus lhe dera, dizendo-lhe o rei de Cochim que Duarte Pacheco Pereira tinha feito tudo o que lhe prometera. Este respondeu-lhe que não tinha feito tudo, pois não espetara o rei de Calecut no calvete, mas que a culpa fora de o rei ficar sempre na retaguarda dos seus e nunca aparecer na frente, onde ele sempre pelejara.

Feita esta visita, o rei de Cochim regressou ao palácio e todos os dias mandava visitar Duarte Pacheco Pereira com refrescos e coisas necessárias para a guerra porque Duarte Pacheco Pereira nunca se quis partir daquele lugar, onde o rei de Calecut ainda o veio atacar por duas vezes; na última vez, trazendo novamente os castelos. Este fez isto mais para agradar aos reis e senhores que com ele andavam do que por ter disso vontade. A sua gente andava já tão desiludida e os nossos com todos os de Cochim tão destemidos que, com menos trabalho do que das outras vezes, os derrotaram também nestas duas. O samorii rei de Calecut ficou tão desanimado que, sem se preocupar mais com os outros nem confiar mais nos seus feiticeiros e falsos profetas, no dia de São João pela manhã, levantou o arraial e se foi meter num turcol para nele servir os seus deuses e fazer vida de religioso, deixando o reino ao seu sobrinho Naubeadarim.

Contudo, antes de isto fazer, buscou modos e meios para mandar matar Duarte Pacheco Pereira, o que foi descoberto e por isso Duarte Pacheco Pereira prendeu alguns naires dos que estavam nesta conjuração; um deles que era espia, era de Cochim da casa dos Leros que mandou açoitar à sua frente para deles saber a verdade que logo confessaram e por isso mandou-os enforcar, mas a rogo de alguns naires do rei de Cochim, que com ele ali estavam, deixou de o fazer e mandou-os presos para deles se fazer justiça.

Depois do samorii rei de Calecut estar no turcol, sua mãe, induzida pelos mouros, mandou-lhe tantos recados e admoestações, exortando-o outra vez à guerra que lhe foi forçado sair de lá contra a sua vontade, mas isto foi de seu pouco proveito porque antes que saísse do turcol, os outros reis e senhores que o ajudaram na guerra, entre os quais o senhor de Repelim, mandaram pedir paz a Duarte Pacheco Pereira que lha concedeu por vontade e parecer do rei de Cochim, ficando o rei de Calecut de fora, havendo já quase cinco meses que durava a guerra em que o samorii rei de Calecut, como se achou por contagem dos seus escrivães, perdeu dezoito mil homens, treze mil por doença e cinco mil nos combates e muitos tiros de artilharia e fustalha. Duarte Pacheco Pereira não quis deixar o passo do vau enquanto as pazes não estivessem assinadas porque o pouco tempo em que se concluíram e o pouco que confiava na verdade destes senhores do Malabar lhe fazia parecer que era tudo enganos.

Estando ainda ali, veio ter com Duarte Pacheco Pereira, por via fluvial, Rui de Araújo, escrivão da feitoria de Coulão com cartas do feitor António de Sá que o avisava de que os mouros da terra de Coulão, confiados na vitória que esperavam que o rei de Calecut tivesse sobre ele, os cercaram e mataram um homem e assim teriam feito a todos se não lhes acudissem os governadores da cidade que lhe pedia, pois estava em paz, que chegasse a Coulão para castigar os mouros que foram culpados porque se o não fizesse lhe seria forçado (visto as afrontas que todos os dias recebiam deles) deixar a cidade e regressarem a Cochim.

Duarte Pacheco Pereira, depois das pazes juradas, partiu do passo para Cochim no dia 03 de Julho deste ano de 1504, onde deu conta ao rei do que se passava em Coulão. O rei de Cochim recebeu-o com grandes festas acompanhando-o até à fortaleza Emanuel, onde Duarte Pacheco Pereira esteve, providenciando as coisas que diziam respeito ao seu cargo até ao dia 26 deste mês de Julho, em que partiu na sua nau para Coulão, deixando Pero Rafael em guarda da cidade de Cochim com a capitania das duas caravelas e dois batéis.

Chegando a Coulão, Duarte Pacheco Pereira informou-se de como tudo se passara e vendo que a execução seria muito difícil por nisso estarem envolvidos os mouros principais da cidade, tratou do que dizia mais respeito ao serviço do rei, pedindo aos governadores que lhe cumprissem o contrato que fizeram com Afonso de Albuquerque, pelo qual se obrigavam a não deixarem sair nenhuma especiaria daquele porto até o feitor do rei Dom Manuel, seu senhor, não ter feita provisão de todas as especiarias que quisesse. Não o contrariando, Duarte Pacheco Pereira tomou de cinco naus de mouros que estavam a carregar toda a pimenta que já tinham posto nas naus e fez o mesmo a outras naus que carregavam às escondidas junto daquele porto até que o feitor se abasteceu de toda a que lhe era necessária.

Depois disto feito, fez-se à vela no início de Setembro, correndo a costa do Malabar até à chegada de Lopo Soares de Alvarenga à Índia. Nesta altura, tomou algumas naus que entregou com a carga ao mesmo feitor António de Sá.

Duarte Pacheco Pereira era tão temido que nenhum rei nem senhor de toda aquela região ousava fazer coisa que imaginasse que o iria irritar.= p. 136

Transcrita para o português actual por Maria Carmelita de Portugal

Lagos, 12 de Maio de 2017

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Afonso de Albuquerque e a sua viagem à Índia: 1503–04