AlmeidaGARRETT a portuguese writer

Almeida Garrett

Hoje venho partilhar convosco este meu trabalho que escrevi em 2006 numa homenagem sentida a este homem tão importante das artes e cultura portuguesas devido às notícias que corriam na altura sobre a destruição da sua casa em Lisboa.

Lagos, 01 de Abril de 2006

As Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett fizeram-me estudar novamente as Invasões Francesas de 1807–1811 e verifiquei que, desde o início, o Algarve foi ocupado por regimentos franceses e isso levou-me a outra ordem de pensamentos: exactamente à Praia de S. Roque, em LAGOS e a uma espécie de bivalves que lá se apanham nas alturas das marés grandes. Aquele cujo nome varia de lugar para lugar onde é apanhado; em Lisboa são cadelinhas e cá no barlavento são conquilhas ou condelipas.

Se nos quisermos debruçar sobre o assunto, acho que, com estes bivalves aconteceu o mesmo que com muitas outras coisas que temos: foram os de fora que nos ensinaram a reconhecer e a aprender a gostar daquilo que temos e não damos a nossa menor atenção até que um dia chega alguém de fora e nos mostra como é bom.

Se tomarmos atenção à palavra conquilha, ela é uma adaptação da palavra francesa conquilles e certamente não é pela erudição da população do barlavento, mas sim porque os soldados franceses já conheciam este género de alimento e ensinaram aos nativos a cozinhá-los para eles e claro que quem cozinha, prova e gostaram e adoptaram o nome para conquilha e o alimento.

No entanto, reza a lenda que não foi só a soldadesca que gostou das conquilhas. Diz-se que havia um general ou um comandante francês cujo passatempo favorito era apanhar conquilhas entre a Praia de S. Roque e Alvor: era o conde de Lippe. Certamente haveria portugueses que perguntariam aos seus soldados em português, apontando para o conde:

- Ele, que faz?

E o soldado francês, que não tinha estudado português teria respondido:

- Conde de Lippe. (pensando que lhe estariam a perguntar quem ele era)

O português de certeza que iria ter com ele, porque somos muito curiosos, e dir-lhe-ia:

- Condelipa?

- Sim.

O comandante teria no pensamento a sua pessoa e o português aquilo que ele estava a apanhar.

Assim passou a existir mais uma palavra nova na nossa língua — condelipa para designar aquela espécie de bivalves. ❐

Apresentação

Neste país, mais uma vez, se está a desprezar e a destruir a memória de um português que lutou pela sua pátria, que arriscou a SUA vida e quis valorizar o povo português. Além do seu exemplo de vida, deixou uma obra valorosa e vasta escrita que devia ser mais divulgada e apreciada.

Os meios de comunicação têm divulgado que a bonita casa de Almeida Garrett, onde ele viveu e de onde ele partiu para o outro mundo, está em risco de ser demolida para lá ser construído um edifício moderno de um banco. Parece-me mais uma vontade mesquinha de alguém que quer apagar esta memória, talvez por motivos correligionários, mais do que por falta de espaço. Se assim for, é triste que, em pleno século XXI, ainda não se saiba reconhecer uma pessoa de valor e um património inestimável; ainda não se saiba respeitar quem pensa diferente, quem age diferente, quem é diferente. Ainda não se saiba respeitar e valorizar o património e a memória de um país e de uma nação, seja o seu representante de que quadrante for.

Não conhecem a liberdade; não respeitam a Liberdade! ❐

Análise do século XVIII

D. João V

Comecemos por situar Almeida Garrett no contexto histórico que o antecedeu e também naquele em que viveu.

D. João V, um homem muito culto, começou o seu reinado a nove de Dezembro de 1706 e governou quase meio século. Foi um dos reinados mais brilhantes e prósperos da nossa história. Foi um rei absoluto, sem a convocação das Cortes, mas ouvia quase sempre os seus conselheiros e dava, duas vezes por semana, audiência pública ao povo que se queixava livremente e o rei mandava atender os seus pedidos e queixas. O absolutismo de D. João V apresentava, ainda e apesar de tudo, um carácter paternal pela noção que o rei tinha de que era responsável diante de Deus pela maneira como governasse o seu povo.

D. João V era um rei excepcionalmente dotado para a arte de governar e conseguiu realizar uma obra notável nos vários sectores da vida portuguesa.

Na política externa concluiu o Tratado de Utreque que pôs termo à Guerra da Sucessão de Espanha.

Internamente, reorganizou as forças armadas — exército e marinha — que tinham chegado à última penúria e desprestígio.

Defendeu a causa da cristandade a pedido do Papa Clemente XI, organizando uma esquadra que derrotou os turcos em Matapão, em 1717.

Conseguiu salvar o país da crise económica em que se arrastava desde o século XVII, graças às riquezas vindas do Brasil e aos esforços despendidos para manter Portugal afastado dos conflitos que ensanguentavam a Europa. Soube sabiamente reorganizar a administração, sanar as finanças e fomentar a vida económica. Fundou ou desenvolveu indústrias, entre as quais as do papel, dos metais, das sedas e do vidro e favoreceu a agricultura.

Foi grande protector das letras, das artes e das ciências. Fundou a Academia Real da História e a Escola de Música em Lisboa; a Academia de Portugal em Roma. Deu protecção pessoal a muitos escritores, sábios e artistas. É do seu reinado a invenção do primeiro aparelho para viajar pelo ar do Pe. Bartolomeu de Gusmão.

Mandou construir grandes monumentos notáveis: o Aqueduto das Águas Livres em Lisboa, que resolveu o difícil problema do abastecimento de água a Lisboa, condenada a não se desenvolver e que imediatamente passou a alargar a sua área, com rapidez incrível, ganhando condições de grande cidade que depois foi. Também mandou construir o Convento de Mafra, obra artística de valor inestimável, que se tornou um importante centro de cultura, pela riquíssima biblioteca que lá fundou, pela criação da aula de arquitectura que lá criou. Dotou também a Biblioteca da Universidade de Coimbra de um conjunto de valiosas obras que a elevaram a uma das melhores bibliotecas da Europa.

A sua política, na ordem internacional, foi tão acertada que Portugal gozava de imenso prestígio, difícil de igualar, por essa Europa fora e soube manter Portugal fora das numerosas e sangrentas lutas que fervilhavam entre as várias nações e até serviu de árbitro diplomático nelas.

D. José I

D. José I, bem preparado para governar, pois falava correctamente italiano, francês e espanhol; conhecia bem os autores clássicos, em especial os religiosos. Além de uma rica cultura humanista, aprendeu a arte militar, geografia, matemática, música sendo um excelente apreciador de música coral e sinfónica. Inicia o seu reinado a 8 de Agosto de 1750 e vai adoptar as ideias em moda na Europa do despotismo esclarecido ou Iluminismo que pretendia concentrar nas mãos do rei todos os poderes para realizar a tarefa de difundir entre o povo as luzes da cultura, da civilização, forçando-o a elevar-se do estado de obscurantismo para o da razão esclarecida.

Assim D. José transformou completamente a política portuguesa e o absolutismo real perde o carácter familiar para ser um poder rígido, intangível e total em que a vontade do rei não tem quaisquer limites. D. José suspende as audiências ao povo; ficará inacessível, nas alturas do poder, ajudado apenas pelos seus ministros, também isolados do contacto fecundo com a nação, mas preocupado com a publicação de leis justas e de boa razão para a felicidade dos seus súbditos.

Não podia assim D. José delegar o poder soberano nas mãos de secretários do Estado que fossem únicos responsáveis da acção política. Cabia a D. José I conduzir os negócios públicos e assumir as responsabilidades inerentes à soberania, deixando aos seus ministros executar o precioso depósito da sua real autoridade.

De imediato escolheu Sebastião José de Carvalho e Melo — conde de Oeiras, um entusiasta do despotismo esclarecido, por sugestão do duque Manuel Teles da Silva que o conhecia da Áustria, para Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra e outros colaboradores com as mesmas ideias. Criou-se uma eficiente legislação nas áreas do Ultramar, Justiça e Fazenda. Restabeleceu-se a segurança pública em muitas zonas do reino onde os roubos e os assassínios traziam as populações em sobressalto.

Passados cinco anos desde o início deste reinado, a um de Novembro de 1755, pelas nove e meia da manhã de sábado, dá-se um enorme cataclismo — o Terramoto — que abalou Portugal e a Europa e assim se fecha a primeira fase, bem clara, do reinado de D. José I. Face ao cataclismo que destruiu uma grande parte de Lisboa e que lançou a miséria e a dor em muitos lares, o rei confiou as soluções imediatas a Carvalho e Melo que foi o único Secretário de Estado a impor-se em tão duras circunstâncias. Passados seis meses, com a morte do ministro do Reino, Carvalho e Melo entrega o seu ministério e passa a ministro do Reino.

Terramoto de 1755

A um de Novembro de 1755, pelas nove e meia da manhã de sábado, dá-se um enorme cataclismo — o Terramoto — que abalou Portugal, principalmente e com enorme veemência Lisboa, mas também Cascais, Peniche, Setúbal, Alentejo e Algarve; também a Espanha e Marrocos.

O terramoto, por ocorrer no Dia de Todos-os-Santos e durante a hora da missa, fez com que grande parte da população ficasse sepultada nos escombros dos templos que ruíram. As velas e as lamparinas que ardiam nos santuários criaram numerosos focos de incêndio que rapidamente se propagaram, devido às características dos edifícios e ao traçado sinuoso de Lisboa, por um grande amontoado de casas.

A Terra tragou, as ruínas esmagaram, o fogo consumiu riquezas enormes adquiridas nas colónias e graças à explosão do barroco em todas as suas manifestações no reinado de opulência de D. João V. O próprio palácio real se desmoronou, ardeu toda a magnífica biblioteca privada da responsabilidade de D. João V e o seu núcleo de livros de música.

Os templos mais fortes e os edifícios mais seguros ficaram reduzidos a escombros. Acompanhava o tremor de terra, um rugido medonho como o de um espantoso trovão. O mar, com espantosa braveza, saia dos seus limites.

Os homens que ficaram vivos, mais pálidos que os mesmos cadáveres, vagavam loucamente sem acertar caminho; uns cobrindo com um lençol a sua nudez, buscavam o lugar do refúgio; outros com os corpos meio enterrados nas ruínas pediam, com desconcertados gritos socorro aos que passavam junto a si; outros com os braços e pernas quebrados lamentavam a sua desgraçada miséria. Ninguém sabia onde refugiar-se e só se lembravam de fugir para os campos. Tudo era pasmo, horror e confusão e em toda a corte não se viam mais do que ruínas e morte. Em breve espaço de tempo a cidade se viu reduzida a um montão de pedras: os bens do Príncipe, da Igreja e do Estado sofreram todos a mesma sorte. No meio desta confusão, os Ministros do Evangelho puseram-se em campo a semear a Palavra Divina, pregando penitência e depois do terramoto se ateou inesperadamente das próprias ruínas um horrível fogo que queimou muita gente e incendiou os templos, mosteiros e palácios, secretarias, cartórios, ouro, prata, tapeçarias quanto havia de maior valor. Este fogo durou seis dias sem haver quem o dominasse. Os ladrões aproveitaram-se desta conjuntura fazendo muito furtos, roubando casas e templos.

O porto de Lisboa, na altura cheio de navios carregados de mercadorias das colónias e para as colónias, ficou todo destruído.

O ar, a água, a terra e o fogo, cada qual de modo mais medonho prosseguiu na ruína da cidade.

Todos os lugares onde foi sentido este tremor de terra, o mar intumescido, afogou muita gente que se tinha refugiado nas praias.

Àquela imensa ruína os homens assistiam impotentes, aniquilados, apanhados na armadilha dos elementos da natureza em fúria, sem que nem do céu nem da terra lhes viesse auxílio ou possibilidade de fuga.

Várias réplicas se seguiram depois.

Podemos considerar este terramoto — de 1755 — como factor de uma atitude de viragem, causa de uma mudança imposta pelas medidas que foi necessário tomar para superar a crise que, em ondas concêntricas, alastrou pelo país e se repercutiu em todos os sectores da sociedade desta época, abalando-a desde os alicerces.

Perante um desastre de tais proporções que subverteu profundamente o habitual curso da vida, os homens interrogaram-se e, consoante a sua cultura, formação e estrato social, procuraram dar uma explicação que respondesse cabalmente às dúvidas suscitadas. Um fenómeno que atingiu todos os estratos da população, criava a necessidade urgente de encontrar uma explicação que serenasse os espíritos e que, de uma forma metafísica ou religiosa ou simplesmente naturalista, justificasse o carácter intempestivo e violento do terramoto.

Miguel Tibério Pedegache escreveu, em 1756, e descreve com minúcia as condições naturais registadas durante o terramoto, o estado do tempo — sereno e puro e barómetro a 27 polegadas e sete linhas, a temperatura — 14 graus, os impulsos da terra — tremeu a terra com três impulsos. Ele aponta com exactidão a turvação das águas dos rios, o ruído subterrâneo que precedeu o terramoto, a direcção do abalo que veio do ângulo do Sudoeste para Nordeste e o mar seguiu a sua impulsão. Considera como uma das principais causas da ruína dos edifícios, além do incêndio a terra que ora se movia verticalmente ora se inclinava para um e outro lado. Enfim os movimentos eram tão contrários e tão opostos que os muros mais fortes e mais grossos facilmente se separaram e caíram.

Neste contexto se desenvolveu a intervenção imediata e eficaz da política seguida pelo conde de Oeiras — Sebastião Carvalho e Melo que a 18 de Setembro de 1770, após vinte anos de apego ao serviço público e de provada dedicação a D. José I, se viu recompensado com o título de 1º marquês de Pombal.

O terramoto de Lisboa representa, sem dúvida, um dos mais importantes acontecimentos que modificaram a estrutura da sociedade portuguesa na segunda metade do século XVIII. Além de medidas inovadoras a nível económico, social e político que posteriormente foram tomadas, fez desencadear o aparecimento de diversas correntes de opinião em que se questionaram conceitos fundamentais como a Providência, a Justiça Divina e a interpretação científica dos fenómenos naturais.

A catástrofe sofrida por Lisboa, com os seus efeitos devastadores, deu origem em Portugal e no resto da Europa a uma controvérsia sobre o optimismo e a existência do mal na Terra, motivando diversas posições filosóficas, metafísicas ou científicas que sobreviveram na literatura da época e exprimem a importância deste debate na história do pensamento europeu.❐

Percurso de Portugal

1755 — Terramoto em Lisboa; Fundação da Companhia de Grã-Pará e Maranhão;

1756 — Criação da Companhia Geral da Agricultura dos Vinhos do Alto Douro;

1758 — Atentado contra D. José;

1759 — Execução dos conjurados; expulsão dos jesuítas;

1772 — Reforma da universidade;

1777 — Morte de D. José. Início do reinado de D. Maria I;

1778 — Demissão do Marquês do Pombal. Libertação dos presos do Estado;

1779 — Fundação da Academia Real das Ciências;

1780 — Fundação da Casa Pia;

1792 — Loucura da rainha;

1793 — Campanha do Russilhão;

1796 — Fundação da Real Biblioteca Pública;

1801 — Incursões espanholas; perda de Olivença;

1807 — Invasão francesa (Junot); saída da família real para o Brasil;

1808 — Vitórias de Roliça e Vimeiro;

1809 — Invasão francesa (Soult);

1810 — Invasão francesa (Massena); batalha do Buçaco;

1820 — Instauração do regime constitucional-liberal;

1822 — D. Pedro proclama a independência do Brasil;

1823–4 — Golpe de estado de D. Miguel; exílio de D. Miguel;

1828 — Regresso de D. Miguel e sua aclamação;

1832 — Desembarque no Mindelo das forças liberais;

1834 — Convenção de Évora-monte; exílio de D. Miguel; extinção das ordens religiosas; rainha, a D. Maria II; morte de D. Pedro;

1836–47 — Revoltas e levantamentos;

1853 — Morte de D. Maria II;

1856 — Abolição da escravatura no ultramar.❐

N.A. — As ideias iluministas que tiveram a sua concretização no reinado de D. José I, têm a sua origem na Revolução Francesa em 1789 e expandem-se pela Europa e em Portugal durante as invasões francesas de 1807–1810. Neste período das invasões francesas, Portugal e os portugueses sofreram todas as calamidades pelas vidas perdidas, pelo empobrecimento do país, sujeito durante anos a fio ao saque dos estrangeiros, à guerra, à fome e à brutal carestia e à ausência dos intelectuais, dos quadros técnicos, da arte, da cultura e da riqueza existente no país, pois tudo foi deslocado para o Brasil para bem do Brasil que alcançou uma dignidade e desenvolvimento a todos os níveis que nunca tinham pensado ser possível lá acontecer. No entanto, no país, permaneceu, em anos vindouros, a dignificar um povo sacrificado — o elogio às qualidades demonstradas pelo soldado português: enérgico, frugal, paciente, dócil e engenhoso. Esta deserção completa para o Brasil, deixando em Portugal apenas os deserdados da sorte trouxe a Portugal onde encontrou terreno fértil uma nova filosofia de vida, de maneira de estar e fazer, uma nova dignidade aos que ficaram, com a ajuda das tropas francesas.

O valor da imprensa

Com os primeiros anos do novo século — XIX — e os acontecimentos derivados das Guerras Peninsulares, uma nova era surgiria na edição em Portugal. Uma mudança quase absoluta de interesses inicia-se nos finais de 1807. Efectivamente, as publicações de tipo científico que até aí preenchiam o campo cultural desaparecem perante o surto inusitado de um novo tipo de publicações. Em Maio de 1808, um extraordinário surto panfletário inicia-se em Portugal. O editor toma consciência do valor da opinião pública perante os extraordinários acontecimentos que ocorrem na Europa. A sua força passa a ser instrumento que, na mente das autoridades e dos leitores, toma o lugar das armas sendo para muitos, mais contundente e perigoso. A tirania imposta pela França onde imperava um sistema oriundo de uma assembleia de representantes, vai contrapor-se à tirania tradicional do poder real. A revolução francesa criara um clima de inquietações e dúvidas. O pequeno escrito satírico e violento explode em torrentes para caricaturar o inimigo. Entre 1808 e 1811 estes opúsculos são de uma tenaz persistência dirigindo o seu ataque a pessoas ou à Constituição, à França e à sua política, a Napoleão e aos seus generais. A partir daí, afastado o perigo do invasor a nível do território nacional, baixa significativamente a sua edição.

Após a saída dos invasores, ficou o ódio e o rancor ao opressor, mas também muito do seu credo político. Em 1816, o governo da regência estimou que devia permitir uma liberdade de impressão ilimitada para não deixar arrefecer o ardor do povo. Mas depressa, após assegurada a Restauração, recuou e passou de um extremo ao outro, ao ponto de proibir a impressão de qualquer escrito que tivesse um cheirinho a liberdade.

A revolução liberal de 1820

A 24 de Agosto de 1820, deu-se uma revolução em Portugal que solidificou a 27 de Outubro e que criou a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino ao mesmo tempo que a Junta Provisional Preparatória das Cortes com o objectivo de criar as condições para as eleições que se realizaram a 10, 17 e 24 de Dezembro de 1820 e as Cortes tiveram a sua primeira sessão a 24 de Janeiro de 1821.

A 7 de Setembro de 1822, D. Pedro, filho de D. João VI, no Brasil, declara a independência do Brasil.

A 23 de Setembro de 1822, foi assinada a Nova Constituição de Portugal pelos deputados e no dia 30 de Setembro, o rei D. João VI, fez o seu juramento solene a esta constituição. Nesta constituição se declarava que “o governo da Nação Portuguesa é a monarquia constitucional hereditária.” (Art.º 29), mas o rei, embora não estivesse submetido a responsabilidade (Art.º 127), ficava numa posição de subalternidade em relação às Cortes, uma vez que a “autoridade do rei provém da nação” (Art.º121)

A 12 de Outubro de 1822, no Brasil, D. Pedro é aclamado Imperador do Brasil.

A conjuntura internacional não era favorável aos liberais portugueses e a pressão exercida a nível europeu e os acontecimentos que tiveram lugar em Espanha desencadearam uma contrarrevolução em Portugal liderada por D. Miguel, filho de D. João VI, e forças militares que se instalaram em Vila Franca de Xira. D. João VI junta-se ao filho, subscrevendo uma proclamação aos habitantes de Lisboa na qual anunciava o propósito de modificar a constituição desse ano. O governo foi dissolvido e a constituição suspensa. A tentativa de golpe de estado em 29 de Abril de 1824 pretendeu operar uma viragem ainda mais acentuada num sentido absolutista.

No dia 30 ocorreram prisões em massa de liberais.

O rei, D. João VI, desterra D. Miguel que deixa Portugal a 13 de Maio de 1824. Foi decisiva a acção do corpo diplomático no abortar deste golpe absolutista. D. João VI continua a governar, mas a constituição não é alterada.

D. João VI morre a 10 de Março de 1826 e quem lhe sucede no trono?

D. Miguel tinha sido expulso do país e D. Pedro era imperador do Brasil. Em Outubro deste ano — 1826 — os apoiantes de D. Pedro, da Carta, liberais e os apoiantes de D. Miguel, absolutistas, combatem por todo o país numa guerra civil que vai durar até 27 de Maio de 1834, dia em que é assinada a Convenção de Évoramonte por absolutistas e liberais com D. Miguel a abdicar das suas pretensões ao trono e a proposta de D. Pedro, de 1826, a ser aceite por ambas as partes. A proposta de D. Pedro, imperador do Brasil, consistia na aceitação por Portugal de uma nova constituição enviada por ele em Abril de 1826, em novas eleições em Portugal e na sua abdicação do trono de Portugal a favor da sua filha, Maria da Glória, futura D. Maria II. Assim aconteceu: a 15 de Agosto de 1834 reuniram as Cortes que aclamaram D. Maria da Glória, rainha de Portugal.

Apesar disto, os ânimos em Portugal não se acalmaram e esta dualidade permaneceu com lutas e batalhas um pouco por todo o país, mas de forma dispersa, até finais de 1847.❐

II PARTE

Viagens na minha terra” de Almeida Garrett

Esta viagem de Almeida Garrett com amigos a Santarém inicia-se no dia 17 de Julho de 1843, segunda-feira, com quarenta e quatro anos de idade. Ele viveu as invasões francesas e as suas consequências até esta data.

Para compreender esta crónica e as divagações de Almeida Garrett ao longo desta pequena viagem até Santarém, de uma semana, convém ter sempre presente o contexto português em que ele viveu e que está acima descrito.

Então leiamos e ouçamos Almeida Garrett:

“Frades… frades… eu não gosto de frades. Como nós os entendemos hoje, não gosto deles, não os quero para nada, moral e socialmente falando. Porém o frade faz muita falta.

Nas cidades, aquelas figuras altas e sérias, com os seus hábitos talares, quase todos pitorescos e alguns elegantes, atravessando as multidões de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de alcatruz que distinguem a peralvilha raça europeia. Cortavam a monotonia do ridículo e davam fisionomia à população.

Nos campos, o efeito era ainda maior: eles caracterizavam a paisagem, poetizavam a situação mais prosaica de monte ou de vale e tão necessárias, tão obrigadas figuras eram, em muitos desses quadros, que sem elas o painel já não é o mesmo. Além disso, o convento no povoado e mosteiro no ermo animavam, amenizavam, davam alma e grandeza a tudo; eles protegiam as árvores, santificavam as fontes, enchiam a terra de poesia e de solenidade. O que não sabem nem podem fazer os agiotas barões que os substituíram. O barão é o mais desgracioso e estúpido animal da criação. O barão é usurariamente revolucionário e revolucionariamente usurário.

Ora sem sair dos barões e tornando aos frades, eu digo que nem eles compreenderam o nosso século, nem nós os compreendemos a eles…

Por isso brigámos muito tempo. Afinal vencemos nós e mandámos os barões a expulsá-los da terra. No que fizemos uma sandice como nunca se fez outra. O barão mordeu no frade, devorou-o… e escouceou-nos a nós depois.

Com que havemos nós agora de matar o barão?

Mas o frade não nos compreendeu a nós; por isso, morreu e nós não compreendemos o frade; por isso fizemos os barões de que havemos de morrer.

Ora o frade foi quem errou primeiro em nos não compreender a nós, ao nosso século, às nossas inspirações e aspirações com o que falsificou a sua posição, isolou-se da vida social, fez da sua morte uma necessidade, uma coisa infalível e sem remédio. Assustou-se com a liberdade que era sua amiga, mas que o havia de reformar e uniu-se ao despotismo que o não amava senão relaxado e vicioso porque de outro modo lhe não servia nem o servia.

Nós também errámos em não compreender o desculpável erro do frade, em lhe não dar outra direcção social e evitar assim os barões que é muito mais daninho bicho e mais roedor.

Porque desenganem-se, o mundo sempre assim foi e há-de ser. Por mais belas teorias que se façam, por mais perfeitas constituições com que se comece, o status in statu forma-se logo ou com frades ou com barões ou com pedreiros-livres se vai pouco a pouco organizando uma influência distinta quando não contrária às influências manifestas e aparentes do grande corpo social. Esta é a oposição natural do progresso, o qual tem a sua oposição como todas as coisas sublunares e superlunares, esta corrige saudavelmente às vezes e modera a sua velocidade; outras a empece com demasia e abuso, mas enfim é uma necessidade.

Ora eu, que sou ministerial do progresso, antes queria a oposição dos frades do que a dos barões. O caso estava em a saber conter e aproveitar. O progresso e a liberdade perderam, não ganharam.

Quando me lembra tudo isto; quando vejo os conventos em ruínas, os egressos a pedir esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos frades — não dos frades que foram, mas do que poderiam ser. O frade que é patriota e liberal na Irlanda, na Polónia, no Brasil poderia e deveria sê-lo entre nós e nós ficávamos muito melhor do que estamos, com meia dúzia de clérigos de requiem para nos dizer missa e com duas grosas de barões, não para tal oposição salutar, mas para exercer toda a influência moral e intelectual da sociedade porque não há outra cá.

Se exceptuarmos o débil clamor da imprensa liberal, já muito esganada pela polícia, não se ouve no vasto silêncio deste ermo senão a voz dos barões gritando contos de réis!

Dez mil réis por um eleitor!

Mais duzentos contos pelo tabaco!

Cinco mil contos para as estradas dos aeronautas!

Seis mil contos para isto, dez mil contos para aquilo!

Não tardam a contar por centenas de milhares.

Contar a eles não lhes custa nada.

A quem custa é a quem paga para todos esses balões de papel: a terra e a indústria .

II

Pegue qualquer na bela crónica de el-rei D. Fernando; obedeça à lei concorrendo com o seu cruzado (moeda) novo para o aumento e glória da benemérita companhia que tem o exclusivo desses caranguejos de vapor que andam e desandam no rio; entre nos referidos caranguejos em que além da porcaria e do mau cheiro, não há perigo nenhum senão o de rebentar toda aquela câmara óptica que anda por arames e que em qualquer país civilizado onde a polícia fizesse alguma coisa mais do que imaginar conspirações, há muito estaria condenada a ir ali caranguejar para as Lamas, à sua vontade. Mas enfim, cá não há doutros nem haverá tão cedo, graças ao muito que agora diz que se cuida dos interesses materiais do país e, portanto tome o seu lugar, passe o mesmo que eu passei; chegue-me a Santarém; descanse e ponha-se-me a ler a crónica. Verá se não é outra coisa; verá se diante daquelas preciosas relíquias ainda mutiladas, deformadas como elas estão por tantos e tão sucessivos bárbaros, estragadas, enfim pelos piores e mais vândalos de todos os vândalos, as autoridades administrativas e municipais do feliz sistema que nos rege ainda assim mesmo não vê erguer-se diante de seus olhos os homens, as cenas dos tempos que foram; se não ouve falar as pedras, bradar as inscrições, levantar-se as estátuas dos túmulos e reviver-lhe a pintura toda, reverdecer-lhe toda a poesia daquelas idades maravilhosas!

… cansou-se-me a cabeça, peguei no Camões e fui para a janela. Era uma destas manhãs de inverno como as não há senão em Lisboa. Abri os Lusíadas à ventura, deparei com o canto IV e pus-me a ler aquelas belíssimas estâncias:

E já no porto da ínclita Ulisseia…

Pouco a pouco amotinou-se-me o sangue, senti baterem-me as artérias da fronte… as letras fugiam-me do livro, levantei os olhos, dei com eles na pobre nau Vasco da Gama que aí está em monumento-caricatura da nossa glória naval … E eu não vi nada disso: vi o Tejo, vi a bandeira portuguesa flutuando com a brisa da manhã, a Torre de Belém ao longe… e sonhei, sonhei que era português, que Portugal era outra vez Portugal.

Eram as últimas horas do dia, quando chegámos ao princípio da calçada que leva ao alto de Santarém. A pouca frequência do povo, as hortas e pomares mal cultivados, as casas de campo arruinadas, tudo indicava as vizinhanças de uma grande povoação, descaída e desamparada. O mais belo dos seus ornatos e glórias suburbanas ainda o possui a nobre vila; não lho destruíram de todo; são os seus olivais. Reconheceu-o o meu coração e alegrou-se de os ver; saudei neles o símbolo patriarcal da nossa antiga existência e no murmúrio das folhas que o vento agitava a espaços, ouvir o triste suspirar de seus lamentos pela vergonhosa degeneração dos netos…

Chegámos enfim ao alto; a majestosa entrada da grande vila está diante de mim.

Fora da Vila é um largo vasto, irregular e caprichoso como um poema romântico. Palácios, conventos, igrejas ocupam gravemente e tristemente os seus antigos lugares, enfileirados sem ordem aos lados daquela imensa praça em que a vista dos olhos não acha simetria alguma, mas sente-se na alma.

À esquerda, o imenso Convento do Sítio ou de Jesus, logo o das Donas, depois o de S. Domingos, célebre pelo jazigo de S. Frei Gil. Defronte o antiquíssimo Mosteiro das Claras e ao pé as baixas arcadas góticas de S. Francisco. À direita, o grandioso edifício filipino, perfeito exemplar da maciça e pedante arquitectura reaccionária do século XVII, o Colégio, tipo largo e belo no seu género, das construções jesuíticas…

Mais abaixo e no fundo desse declive, aquela massa negra é o resto, ainda soberbo, do já imenso palácio dos condes de Unhão.

Entrámos a porta da antiga cidadela. Que espantosa e desgraciosa confusão de entulhos, de pedras, de montes de terra e caliça! Não há ruas, não há caminhos: é um labirinto de ruínas feias e torpes.

Depois de muito procurar entre pardieiros e entulhos achámos a Igreja de Santa Maria de Alcáçova. A real colegiada de Afonso Henriques, a quase catedral da primeira vila do reino, um dos principais, dos mais antigos, dos mais históricos templos de Portugal, isto?… mesquinha e ridícula massa de alvenaria, sem nenhuma arquitectura, sem nenhum gosto! Risco, execução e trabalho de um mestre pedreiro de aldeia e do seu aprendiz! É impossível. Mas era, era essa. A antiga capela real, a veneranda Igreja da Alcáçova foi passando por sucessivos reparos e transformações até que chegou a esta miséria.

Perverteu-se por tal arte, o gosto entre nós, desde o meio do século passado especialmente; os estragos do terramoto grande quebraram por tal modo o fio de todas as tradições da arquitectura nacional que, na Europa, no mundo todo, talvez se não ache um país onde, a par de tão belos monumentos antigos como os nossos, se encontrem tão vilãs, tão ridículas e absurdas construções públicas como essas quase todas que há um século se fazem em Portugal.

Nos reparos e reconstruções dos templos antigos é que este péssimo estilo, esta ausência de todo o estilo, de toda a arte mais ofende e escandaliza.

Olhem aquela empena clássica, posta de remate ao frontispício todo renascença da Conceição Velha, em Lisboa. Vejam a emplastagem de gesso com que estão mascarados os elegantes feixes de colunas góticas da nossa Sé.

Não se pode cair mais baixo em arquitectura do que nós caímos quando, depois que o marquês de Pombal nos traduziu em vulgar e arrastada prosa, os rococós de Luís XV que no original, pelo menos eram floridos, recortados, caprichosos e galantes como um madrigal, esse estilo bastardo, híbrido, degenerando progressivamente e tomando presunções de clássico, chegou nos nossos dias até ao chafariz do Passeio Público!

Aqui pegado ao pardieiro rebocado da capela entra-se por esta portinhola estreita e baixa, rasgada, bem se vê que há poucos anos, no que parece muro de um quintal ou de um pátio. Recebeu-nos o actual possuidor e habitante do régio alcácer, ilustre e venerado chefe do Partido Progressista em Portugal que veio fixar aqui a sua residência no alcácer do nosso primeiro rei. Entrámos na pequena horta em forma de claustro que une a antiga casa dos reis com a sua capela. Assim foi, sem dúvida, noutro tempo: a parede oriental da igreja é o muro do quintal de um lado, mas as comunicações foram vedadas, provavelmente quando a Coroa alienou o palácio e o separou assim perpetuamente do templo. Plantada de laranjeiras antigas, os muros forrados de limoeiros e parreiras, aquela pequena cerca, apesar de muitos canteiros e alegretes de alvenaria com que está moirescamente entulhada, é amena e graciosa à vista.

Santarém é um livro de pedra em que a mais interessante e mais poética parte das nossas crónicas está escrita. Rico de iluminuras, de recortados, de florões, de imagens, de arabescos e arrendados primorosos, o livro era o mais belo e o mais precioso de Portugal. Encadernado em esmalte verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras, fechado a broches de bronze por suas fortes muralhas góticas, o magnífico livro deveria durar sempre enquanto a mão do Criador se não estendesse para apagar as memórias da criatura. O povo de cuja história ela é o livro ainda existe; mas esse povo caiu em infância; deram-lhe o livro para brincar; rasgou-o, mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha e fez papagaios e bonecas, fez carapuços com elas.

Não se descreve por outro modo o que esta gente, chamada governo, chamada administração, está fazendo e deixando fazer há mais de um século em Santarém.

As ruínas do tempo são tristes, mas belas; as que as revoluções trazem, ficam marcadas com o cunho solene da história; mas as brutas degradações e as mais brutas reparações da ignorância, os mesquinhos consertos da arte parasita; esses profanam, tiram todo o prestígio.

A vida palpitante e actual acabou em Santarém inteiramente; hoje é um livro que só recorda o que foi.

No caminho encontrámos o barão de P. — barão de outro género e que não pertence à família lineada que nesta obra procurámos classificar para ilustração do século.

Os ilustrados municipais santarenos têm tido por vezes o nobre e generoso pensamento de demolir a porta de Atamarma por onde entrou D. Afonso Henriques para reconquistar Santarém; o arco de triunfo de Afonso Henriques, o mais nobre monumento de Portugal! A ideia é digna da época. Felizmente parece que tem faltado o dinheiro para a demolição. Por cima da porta de Atamarma está uma capelinha de Nossa Senhora da Vitória. Quer a tradição que primeira erguida e consagrada à Virgem pelo heróico fundador da monarquia e da independência portuguesa. Este é um dos muitos pontos em que a religião das tradições deve ser respeitada e criada sem grandes exames porque nada ganha a crítica em pôr dúvidas e o espírito nacional perde muito em as aceitar.

Eu creio na Senhora da Vitória de Santarém e em muitos outros santos e santas que a religião do povo tem por esses nichos e por essas capelas e por esses cruzeiros de Portugal a recordar memórias de que se não lavrou outro auto, não se escreveu outra escritura; de que não há outro documento e que os frades croniqueiros não julgaram dever escrever por melhor escrito e mais bem guardado nos livros de pedra em que estava. Coitados! Não contaram com os aperfeiçoadores, reparadores e demolidores das futuras civilizações que para pôr as coisas em ordem, tiram primeiro tudo do seu lugar.

A Câmara de Santarém, não podendo demolir o arco, tomou um meio-termo que aposto que ninguém é capaz de adivinhar. Aforou a capela por cima da porta, com altar, com santos e tudo e assim esteve aforada alguns anos, não sei para quê nem porquê; o caso é que esteve.

O ano passado (1842), porém, começou a manifestar-se esta reacção religiosa que os especuladores quiseram logo converter em ganância pessoal, descontando-a no mercado das agiotagens facciosas, mas perdem o seu tempo, ainda bem! Veio logo esta reacção nas ideias das gentes e a capela da Senhora da Vitória sobre o arco, não sei também como nem porquê, foi desforada e restituída ao culto popular. A capela é um refacimento ridículo e miserável, sem nenhuma da solenidade do antigo, nem elegância moderna alguma.

Ai! Santarém, Santarém! Abandonaram-te, mataram-te; agora cospem-te no cadáver.

Santarém, Santarém, levanta a tua cabeça coroada de torres e de mosteiros, de palácios e de templos!

Mira-te no Tejo, princesa das nossas vilas e verás como eras bela e grande, rica e poderosa entre todas as terras portuguesas.

Ergue-te, esqueleto colossal da nossa grandeza e mira-te no Tejo. Verás como ainda são grandes e fortes esses ossos desconjuntados que te restam. Ergue-te, esqueleto de morte; levanta a tua face; sacode os vermes que te poluem; esmaga os répteis que te corroem, as osgas torpes que te babam, as lagartixas peçonhentas que se passeiam atrevidas por teu sepulcro desonrado.

Ergue-te, Santarém, e diz ao ingrato Portugal que te deixe em paz, ao menos nas tuas ruínas, mirrar tranquilamente os teus ossos gloriosos; que te deixe em seus cofres de mármore, sagrados pelos anos e pela veneração antiga, as cinzas dos teus capitães, dos teus letrados e grandes homens.

Diz-lhe que te não vendam as pedras de teus templos, que não façam palheiros e estrebarias de tuas igrejas; que não mandem os soldados jogar a pêla com as caveiras dos teus reis e a bilharda com as canelas dos seus santos.

Tiraram-te os teus magistrados, os teus mestres, os teus seminários… tudo menos o entulho e a caliça, as imundícies e os monturos que deixaram acumular em tuas ruas que espalharam por tuas praças.

Santarém, nobre Santarém, a Liberdade não é inimiga da religião do Céu nem da religião da Terra. Sem ambas, não se vive, degenera-se, corrompe-se e em seus próprios desvarios se suicida.

A religião de Jesus Cristo é a mãe da Liberdade; a religião do Patriotismo a sua companheira. O que não respeita os templos, os monumentos de uma e outra, é mau amigo da Liberdade, desonra-a, deixa-a em desamparo, entrega-a à irrisão e ao ódio do povo.

A igreja da Graça, pequena e do pior gosto moderno, notável não tem nada, senão quatro medalhões de pedra lavrada com bustos de homens e de mulheres em relevo que visivelmente pertenceram à edificação antiga e que actualmente estão incrustados na tosca alvenaria do cruzeiro. São talvez relíquias da primitiva Igreja do Santo Milagre que nas sucessivas edificações se têm conservado. Abençoado seja o escrupuloso que as salvou deste último melhoramento que houve no desgraçado e desgracioso templo.

Nela se conservaram, por espaço de cinco ou seis anos, os restos mortais da senhora infanta D. Maria da Assunção que falecera em Santarém nos últimos meses da ocupação daquela vila pelas forças liberais. O cadáver mal embalsamado e com más drogas, foi metido num caixão de folha de Flandres. Em pouco tempo a corrupção estragou e rompeu a folha e uma infecção terrível apestava a igreja. Sofreu-se isto anos; apresentou-se ao governo várias vezes, mas nenhuma solução se pôde obter até que o prior, declarando que, se não mandavam tomar conta daqueles restos da pobre princesa, ele se via obrigado a metê-los na terra, foi-lhe respondido que fizesse como entendesse e ele entendeu que os devia sepultar no cruzeiro da igreja, como fez. E aí jaz, em sepultura rasa, sem mais distinção nem epitáfio, a mui alta e poderosa princesa D. Maria, filha do mui alto e poderoso príncipe D. João VI, Rei de Portugal, imperador do Brasil e da conquista e navegação, etc.

Assim é o mundo, as suas grandezas e as suas glórias!

A casa onde se operou o Santo Milagre conservou-se por alguns séculos em grande veneração, em mil seiscentos e tantos converteu-se por fim em capela. Hoje está abandonada, chove em toda ela e apenas tem uma má porta que a defende das incursões dos animais. Pena e desleixo grande porque é elegante e graciosa a capelinha, lavrada de bons mármores no melhor gosto do século XVI. De renascença já muito adiantada no clássico, é um verdadeiro tipo de estilo filipino que tanto predomina nesta época em toda a península.

Pela invasão de Massena, o grande palácio escalabitano foi mandado recolher a Lisboa e aí se conservou alguns anos até muito depois da completa retirada dos franceses. Passado todo o perigo de que o exército invasor roubasse ou profanasse a santa relíquia, começou a reclamá-la o senado e povo santareno e a mostrar muito pouca vontade de a restituir o senado e o povo ulissiponense que foi necessário um estratagema de um humor inqualificável para que a relíquia regressasse a Santarém.

Em Santarém, há poucas casas particulares que se possam dizer verdadeiramente antigas; na Ribeira, nenhuma. As emplastagens e replastagens sucessivas têm anacronizado tudo; mas na vila alta ou Marvila há os templos, os conventos, a cerca das muralhas que todavia conservam a fisionomia histórica da terra.

Lá encontrámos o Colégio, edifício grandioso, vasto, magnífico, própria habitação da Companhia-rei que o mandou construir para educar os infantes, seus filhos. Creio que esta e a de Coimbra eram as duas principais casas que para isso tinham os Jesuítas em Portugal. Foram os Templários dos séculos modernos, os Jesuítas. A potência formidável e quase régia que aqueles levantaram com a espada tinham estes fundado com a doutrina. Riquezas, poder, influência, uns e outros as tiveram, com aplauso e aquiescência geral; uns e outros as perderam do mesmo modo. Aqui esteve depois de muitos anos o seminário patriarcal, cujas aulas frequentava a mocidade do distrito. Hoje lêem-se ali outras palestras da cátedra administrativa. É a sede do governo civil.

Santarém é das terras de Portugal a mais bem situada e qualificada para um grande estabelecimento de instrução e de educação pública. Porque não há-de estar aqui o Colégio Militar ou a Casa Pia ou outra grande escola, seja qual for? Porque há-de ser esta centralização de ensino em Lisboa? Em que se funda um privilégio dado à capital, em prejuízo e à custa das províncias?

Visitámos S. Domingos, um dos mais antigos estabelecimentos monásticos do reino. Não sei descrever o que senti quando a enferrujada chave deu a volta na porta da igreja e o velho templo se patenteou aos nossos olhos. Acabara de servir de palheiro! A derradeira camada de palha que apodrecera aderia ainda ao lajedo húmido e exalava um forte vapor mefítico que nos sufocava. Podemos ver os túmulos dos d’Ocens e tantos outros interessantes monumentos que abundam na parte superior do templo. A inferior ou corpo da igreja é de um miserável e moderno anacronismo.

Respirando a custo aquele ar infecto, todo o tempo que lhe pudesse resistir quis aproveitá-lo em examinar a principal e mais interessante relíquia da profanada igreja — a capela e jazigo de S. Frei Gil. A capela de S. Frei Gil é um mesquinho rifacimento moderno do lado esquerdo da igreja sem nenhum vestígio de antiguidade, nenhum ornato característico, pesada, grosseira, velha sem ser antiga, um verdadeiro non-descriptum de mau gosto e sensaboria. O túmulo do santo está elevado no altar numa espécie de mau trono. Subi acima da degradada e profanada credência para o examinar de perto. É de pedra o jazigo, mas ultimamente vê-se que tinham pintado a pedra; não tem lavor algum. E estava vazio, a loisa levantada e quebrada!…

Quem me roubou o meu santo?

Quem foi o anátema que se atreveu a tal sacrilégio?

Era o ano de 1834.

Entremos no convento das pobres Claras, tão aflitas e desconsoladas, agora que as ameaçam de dissolução como aos frades.

Não será assim: aquelas instituições não metem medo aos verdadeiros liberais e os outros lá têm o espólio dos frades para devorar; estão entretidos; as freiras salvam-se por ora.

Chegadas junto à capela onde estava o cofre, as freiras pararam conservando as duas alas da procissão e continuando no acentuado murmúrio do seu salmo. Findo o salmo, seguiu-se breve intervalo de silêncio. Depois os três homens levantaram-se e deixando cair as suas capas, viu-se que o do meio era um frade velho, magro, curvado e seco, trajando ainda, apesar da lei, o burel preto dos franciscanos e cingido com a sua corda. Os outros dois eram domínicos e vestiam de preto e branco, segundo as cores do seu proscrito instituto.

O velho franciscano subiu com passo trémulo os degraus do altar, beijou o cofre que estava sobre ele e voltando-se para a comunidade que o contemplava em religioso silêncio disse com uma voz cava que parecia vir do sepulcro, mas acentuada e forte:

- Irmãs, vimos entregar-vos este depósito precioso. Deus não quer que os cadáveres dos seus santos fiquem expostos às aves do Céu e às alimárias da Terra. Este é o santo corpo de um dos maiores santos que produziu esta terra de Portugal quando era abençoada. Hoje é maldita e não devia conservar as suas relíquias. Os filhos de S. Domingos foram expulsos de sua casa assim como nós fomos; nós, filhos de Francisco; encontrámo-nos sem tecto nem abrigo uns e outros e juntámos as nossas misérias para as chorarmos como irmãos que somos, como filhos de pais que tanto se amaram e ajudaram. Peregrinaremos juntos por essas solidões da terra e juntos iremos bater por essas portas que cerrou a impiedade e a indiferença, a pedir o pão de cada dia porque temos fome. Que importa! Não professamos nós, não nos honramos nós de ser mendigos? De que vivemos nós sempre, senão de esmola? Não choreis, irmãs, não choreis sobre nós. Deus que o permitiu, bem sabe o que fez. Louvado seja Ele sempre! Nós tínhamos pecados para mais! Ainda foi misericordioso connosco o Senhor da justiça e do castigo. A nós tiraram-nos tudo, tudo! Até estas mortalhas que tínhamos escolhido em vida e que nem a morte ousava roubar-nos. A furto e como quem se esconde para um acto criminoso, nós a vestimos esta noite para cometer o que eles chamarão um furto e que era uma obrigação sagrada nossa. Fomos à antiga casa de nossos irmãos e roubámos o corpo do bem-aventurado S. Frei Gil. Aqui vo-lo entregamos: guardai-o. Enquanto estes muros estiverem em pé que o abriguem dos desacatos dessa gente sem Deus nem lei. A vós não ousarão expulsar-vos daqui; talvez vos matem à fome… não pode ser: Deus não há-de permiti-lo; mas qualquer que seja a Sua vontade, resignai-vos a ela, minhas irmãs. Só Ele sabe como nos ama e como nos castiga. Louvemo-l’O por tudo.

Assim desapareceu do túmulo o corpo de S. Frei Gil de Santarém.

Os tempos são outros hoje: os liberais já conhecem que devem ser tolerantes e que precisam de ser religiosos.

Quando houver em Portugal um governo que saiba ser governo; há-de regular e consolidar a existência das freiras; há-de aproveitá-las para as piedosas instituições do ensino da mocidade, da cura dos enfermos e do amparo dos inválidos.

Os barões andam-lhe com o cheiro nos poucos bens que lhes restam às pobres freiras.

Mal do governo que deixar comer mais, aos barões!

Aproximei-me do convento de S. Francisco de Santarém. Tem um belo adro e uma vista solene. Plantaram ali acácias depois de extinto o convento. As baixas e aguçadas arcadas do claustro, as altas naves do templo, todos esses túmulos e inscrições que por aí estão e que tanto caracterizam este, um dos mais antigos e mais históricos edifícios do reino. Quero partir de Santarém. Já me cansam estas perpétuas ruínas, estes pardieiros intermináveis, o aspecto desgracioso destes entulhos, a tristeza destas ruas desertas. Da bela igreja gótica fizeram uma arrecadação militar; andou a mão destruidora do soldado quebrando e abolando esses monumentos preciosos, riscando com a baioneta pelo verniz mais polido e mais respeitado desses jazigos antiquíssimos; os lavores mais delicados esmoucou-os, degradou-os. Levantaram as lajes dos sepulcros e, ao som da corneta militar, acordaram os mortos de séculos, cuidando ouvir a trombeta final…

Malditas sejam as mãos que te profanaram, Santarém; que te desonraram, Portugal; que te envileceram e degradaram, nação que tudo perdeste até os padrões da tua história!…

Nos pardeiros deste convento velho, consertado pelas Obras Públicas, fizeram quartel de soldados!…

O belo jazigo do rei D. Fernando I, formoso e frívolo, tão dado às delícias do prazer, em que estado ele está!

Ó nação de bárbaros! Ó maldito povo de iconoclastas que é este!

O túmulo do segundo marido de D. Leonor Teles é um sarcófago de pedra branca, fina e friável, elegante e simplesmente cortada, com mais sobriedade de ornatos do que têm de ordinário os monumentos do século XIV. A brutalidade da soldadesca deturpou-o a um ponto incrível. Imaginou a estúpida cobiça destes alanos modernos que devia estar ali dentro algum grande haver de riquezas encantadas; talvez cuidaram achar sobre a caveira do rei a coroa real, marchetada de pérolas e rubis com que fosse enterrado; talvez pensaram encontrar, apertado ainda, entre as secas falanges dos dedos mirrados, aquele globo de oiro maciço que lhes figura o rei de espadas do sujo baralho de sua tarimba e que eles têm pela indisputável e infalível insígnia do supremo império; talvez supuseram que, mesmo depois de morto, um rei devia ser de oiro… enfim, quem sabe porque se vê, é que quiseram abrir e arrombar o túmulo. Tentaram, primeiro, levantar a campa; não puderam, tão solidamente está soldada a pedra de cima ao corpo ou caixão do jazigo que o todo parece maciço e inconsútil. Mas nesse engenho, quebraram e estalaram os lavores finos dos cantos, os cairés delicados das orlas e a campa não cedeu; parece chumbada pelo anjo dos últimos julgamentos com o selo tremendo que só se há-de quebrar no dia derradeiro do mundo.

A cobiça estólida dos soldados não se aterrou com a religião do sepulcro, nem lhe causou atrição, ao menos, esta resistência quase sobrenatural das pedras do movimento. Vê-se que trabalhou ali, de alavanca e de ariete, algum possante e poderoso pé-de-cabra, mas que trabalhou em vão muito tempo.

Desenganaram-se enfim com a tampa e resolveram atacar mais brutalmente, mas com mais vantagem, as paredes do sarcófago que justamente suspeitaram de menos espessa. Assim era e conseguiram na parede da frente abrir um rombo grosseiro por onde entra facilmente um braço todo e pode explorar o interior do túmulo à vontade.

Assim o fiz eu, que meti o meu braço por essa abertura bárbara e achei terra, pó, alguns ossos de vértebras e duas caveiras, uma de homem, outra de criança.

Não me lembro que haja memória alguma de infante que aí fosse sepultado também, segundo faziam os antigos muitas vezes, que punham os cadáveres das crianças nos jazigos dos pais, dos parentes até de meros amigos de suas famílias.

Tive, confesso, uma espécie de prazer maligno em imaginar a estúpida compridez de cara com que deviam ficar os brutais profanadores quando achassem no túmulo do rei o que só têm os túmulos de reis ou de mendigos: ossos, terra, cinza, nada!

Por mim, estive tentado a furtar a caveira de el-rei D. Fernando. Se acreditasse na frenologia parece-me que não tinha resistido. Não creio nessa ciência, felizmente para a minha consciência. Também não sei o que faria, se a caveira fosse de outro homem. Mas o fraco rei que fez fraca a forte gente, não são relíquias as suas, que se guardem.

O´quem sabe? Esta profanação, este abandono, este desacato do túmulo de um rei, ali na sua terra predilecta. D. Fernando era santareno de afeição. Não será ele o juízo severo da posteridade, a vindicta pública dos séculos que tarda, mas ultrajante cai enfim sobre a memória reprovada do mau príncipe e lhe desonra as cinzas como já lhe desonrara o nome?

Quero acreditar que tal não podia suceder aos túmulos de D. Dinis, de D. Pedro I, dos Joanes I e II, de…

Sim e aonde está o de Camões? O de Duarte Pacheco onde esteve? Que ainda é mais vergonhosa pergunta, esta última…

Em Portugal, não há religião de nenhuma espécie. Até a sua falsa sombra, que é a hipocrisia, desapareceu. Ficou o materialismo estúpido, alvar, ignorante, devasso e desfaçado a fazer gala de sua hedionda nudez cínica no meio das ruínas profanadas de tudo o que elevava o espírito.

Uma nação grande ainda poderá ir vivendo e esperar por melhor tempo, apesar desta paralisia que lhe pasma a vida da alma na mais nobre parte do seu corpo. Mas uma nação pequena é impossível; há-de morrer.

Mais dez anos de barões e de regimen da matéria e infalivelmente nos foge deste corpo agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do espírito.

Creio nisto firmemente.

Mas ainda espero melhor, todavia, porque o povo, o povo está são; os corruptos somos nós, os que cuidamos do saber e ignoramos tudo.

Nós, que somos a prosa vil da nação, nós não entendemos a poesia do povo; nós, que só compreendemos o tangível dos sentidos, nós somos estranhos às aspirações sublimes do senso íntimo que despreza as nossas teorias presunçosas porque todas vêm de uma acanhada análise que procede, curta e mesquinha, dos dados materiais insignificantes e imperfeitos enquanto ele, aquele senso íntimo do povo, vem da Razão divina e procede da síntese transcendente, superior e inspirada pelas grandes e eternas verdades que se demonstram porque se sentem.

E eu, que descrevo isto, serei eu demagogo? Não sou.

Serei fanático, jesuíta, hipócrita? Não sou.

Que sou eu então?

Quem não entender o que eu sou, não vale a pena que lho diga…

Perdoai-me, leitor amigo, uma reflexão última no fim deste capítulo, já tão secante e prometo não reflectir nunca mais.

Jesus Cristo que foi o modelo da paciência, da tolerância, o verdadeiro e único fundador da liberdade e da igualdade entre os homens. Jesus Cristo sofreu com resignação e humildade quantas injustiças, quantos insultos lhe fizeram a Ele e à sua missão divina; perdoou ao matador, à adúltera, ao blasfemo, ao ímpio, mas quando viu os barões a agiotar dentro do templo, não se pôde conter: pegou num azorrague e zurziu-os sem dor. ❐

Biografia de Almeida Garrett

Da biografia de Almeida Garrett gostaria de salientar que nasceu no dia 04 de Fevereiro de 1799, no Porto.

No dia 30 de Junho de 1820, toma o grau académico de bacharel em Leis e em 19 de Novembro de 1821 termina a formatura em Leis fixando residência em Lisboa.

A 4 de Outubro de 1822, é acusado, perante os tribunais, de abuso de liberdade de imprensa, sendo absolvido.

A 11 de Novembro de 1822, casa na igreja de S. Nicolau em Lisboa com Luísa Cândida Midosi que conheceu no dia 29 de Setembro de 1821.

A 10 de Junho de 1823, parte para viver em Inglaterra, imediatamente após o regresso de D. Miguel a Portugal — Vila Franca de Xira e a Vilafrancada. Em Agosto regressa a Lisboa, mas é logo preso, passando três dias no Limoeiro, após o que é deportado e proscrito.

A 04 de Agosto de 1824, está a trabalhar em França, no Havre, como empregado da casa bancária Laffitre.

A 14 de Junho de 1826, é autorizado a regressar a Portugal.

Em 1827, funda o jornal Português e depois O Cronista.

Em Junho de 1828, com o regresso de D. Miguel a Lisboa, Almeida Garrett parte novamente para ir viver para a Inglaterra.

Em Janeiro de 1832, Almeida Garrett assenta praça no batalhão de caçadores em Paris e parte para Belle Isle a juntar-se ao exército de D. Pedro.

A 29 de Fevereiro de 1832, Almeida Garrett larga de Belle Isle a bordo da corveta Juno e dezassete dias depois desembarca na ilha Terceira.

A 8 de Julho de 1832, desembarca no Mindelo e dias depois instala-se no Convento dos Grilos, no Porto, onde está aquartelado o corpo de voluntários académicos.

Em 1834, é nomeado encarregado de negócios junto do governo belga e cônsul-geral de Portugal na Bélgica.

Em 1836, é demitido desse lugar e separa-se da esposa.

A 28 de Setembro de 1836, é incumbido de propor um plano para a fundação e organização de um teatro nacional. Cria-se por sua iniciativa, a Inspecção Geral dos Espectáculos, o Conservatório Real e o Teatro Nacional de D. Maria II. Conhece Adelaide Pastor ou Deville que se apaixona por ele, consagrando-lhe a sua vida.

A 14 de Janeiro de 1841, nasce-lhe Maria Adelaide, única filha que lhe sobrevive.

A 26 de Julho de 1841, morre Adelaide Pastor.

Em Janeiro de 1846, conhece em Lisboa, num baile de beneficência, Rosa Montufar Barreiros, viscondessa da Luz, sua derradeira paixão.

A 04 de Março de 1852, é nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros e a 17 de Agosto é demitido desse cargo.

A 09 de Dezembro de 1854, Almeida Garrett morre em Lisboa, na sua casa da antiga rua de Santa Isabel; casa que, em 2006, se preparam para demolir, fazer desaparecer assim como o património e o nome deste homem que foi protagonista da nossa história e foi da elite daqueles conturbados anos que vivemos. Só barões o podem fazer!

É muito extensa a obra literária de Almeida Garrett.

Lagos, 31 de Março de 2006

BIBLIOGRAFIA

AMADO, José Carlos; História de Portugal; Vol. II; Verbo Juvenil; Editorial Verbo; Lisboa, Outubro de 1966;

MEDINA, João; História de Portugal; Vols. VII — VIII; Ediclube; Madrid, 1994;

GARRETT, Almeida; Obras completas de Almeida Garrett; nº de edição: 1433; Vol I; Lisboa; Círculo de Leitores; Maio de 1984.❐

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