Biografia de Dom Rodrigo

de Maria de Portugal

D. Rodrigo António de Noronha e Menezes [01] nasceu em Lisboa, na freguesia da Encarnação, no dia 05 de Setembro de 1720. Eram seus pais D. Diogo de Noronha [05] e D. Joaquina Maria de Menezes, 3.ª Marquesa de Marialva.

Eram seus irmãos D. Pedro José de Alcântara de Menezes Noronha Coutinho e D. Francisca Rita de Menezes.

Era casado com D. Maria Antónia Soares de Noronha Mateus da Veiga Avelar e Taveira Corte-Real, filha herdeira de João Pedro Soares, Provedor da Alfândega de Lisboa e de sua esposa, D. Ana Joaquina de Portugal.

Ambos eram pais de D. Joaquina Mariana de Noronha [02] (1737–1813) que veio a casar com D. João Domingos de Mello Abreu Barbosa Soares Vasconcelos Brito e Palha (1729–1805), 14.º morgado de vínculo dos Pantoja e morgado da Fonte Boa.

de D. Fernando António Soares de Noronha [03] e de

Francisco [04] que nasceu em Lisboa, a 11 de Outubro de 1745. O Bispo, franciscano, que o baptizou aconselhou os pais a o manterem só com o nome Francisco porque isso iria ser muito importante para ele. Local e data do seu falecimento são desconhecidos até à data oficialmente; contudo ele faleceu em Lagos, no dia 01 de Novembro de 1755, no terramoto que assolou drasticamente a costa portuguesa e o seu corpo nunca foi encontrado.

Gostaria de me debruçar sobre este casal, D. Rodrigo António e D. Maria Antónia. Ambos têm o mesmo segundo nome, isto é, ambas as famílias têm o mesmo santo protector: Santo António. Também ambos nasceram no mesmo ano: 1720 e ambos nasceram em Lisboa, ela na freguesia de Santa Catarina. Ele nasceu a 05 de Setembro e ela nasceu a 17 de Julho. Ambos foram pais pela primeira vez aos dezassete anos. Tão jovens e certamente muito apaixonados!

Não se conhecem retratos de nenhum dos dois infelizmente. O maremoto de 1755 levou o que havia e eles não fizeram mais. Este sismo assolou o país, muitas vidas e das que não tragou, destruiu-as psicologicamente. Assim aconteceu com as suas vidas; foram mutiladas. Nada mais voltou a ser como era.

sobre SANTO ANTÓNIO

Santo António de Lisboa (e de Pádua)

Cronologia

CRONOLOGIA DA VIDA DE S. ANTÓNIO [05] 1191/1195 — Fernando Bulhões nasceu em Lisboa (data oficial: 15 de Agosto de 1195). 1210/11 — Ingressou, como noviço, na Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Mosteiro de São Vicente de Fora. [http://santo-antonio.webnode.pt/galeria-de-fotos/] + [file:///I:/Imagens/transferir.htm]

O Terramoto do Primeiro de Novembro de 1755

Recordemos:

É necessário salientar que o sismo do primeiro de Novembro de 1755 foi antecedido por dois outros também assinaláveis: o tremor de terra de 06 de Março de 1719 que não provocou estragos assinaláveis ainda que bastantes edifícios tenham ficado arruinados.

O tremor de terra de 27 de Dezembro de 1722 que começou das 5 para as 6 horas da tarde no Cabo de S. Vicente e se foi prolongando pelo resto do Algarve, sendo que as populações de Lagos, Portimão, Albufeira, Loulé, Faro e Tavira foram as que sofreram mais: morreram muitas pessoas e desabaram inúmeros edifícios ou ficaram inabitáveis. Aconteceu que, no rio de Tavira, as águas recuaram de tal forma que uma caravela que ia saindo barra fora, ficou em seco por muito tempo, de tal maneira que a tripulação saiu para terra a pé enxuto. Supôs-se que este tão grande tremor de terra teve a ver com uma enorme quantidade de fogo que rebentou no mar entre Faro e Tavira, pois muitas pessoas viram subir as chamas de entre as águas que fizeram grande estrondo impelidas pela lava incandescente que saía da fractura das placas tectónicas.

O terceiro tremor de terra, contudo ainda foi mais destruidor do que os precedentes. Debaixo das ruínas ficaram povoações inteiras submergidas, principalmente as junto à costa.

No dia um de Novembro de 1755, sábado, pelas nove horas e três quartos da manhã de um dia claro e sereno como se fosse verão, deu-se o sismo, precedido de um forte trovão surdo e medonho e imediatamente se sentiu abrir todo o firmamento e a este tremor de terra se seguiu pouca queda de edifícios, mas o mar recuou bastante, porém no tremor que se seguiu, passados 3 a 4 minutos, foi de tal violência que o mar recuou mais de 20 braças, deixando as praias em seco e depois o mesmo mar arremeteu-se terra adentro com tal ímpeto que entrou mais de uma légua, sobrepondo-se às rochas mais altas. Depois tornando a retrair-se e depois arremeter-se terra adentro novamente por três vezes em poucos minutos e arrastando no seu fluxo e refluxo enormes massas de penhascos e edifícios, cobrindo as povoações marítimas por completo. Todos os edifícios caíram por terra até os mais fortes e as pessoas que morreram debaixo das ruínas e das ondas julga-se serem mais de duzentas e cinquenta só em Lagos. Em Lagos, era a altura em que as pessoas estavam a sair da Igreja de Santa Maria da Graça perto da actual igreja de Santa Maria, em Lagos, pois era a missa de Todos-os-Santos que tinha começado às nove horas da manhã e era feriado. O mar elevou-se que parecia tocar as nuvens e todos os que viram, fugiram para o campo. O mar subiu mais de trinta palmos, arrasou e incapacitou as hortas, devido à sua água salgada e foi levar os barcos a partes incríveis mais de meia légua pela terra adentro. A terra abriu várias vezes durante o tremor. O mar levou todos os móveis de muito valor, toda a prata, ouro, dinheiro, pipas de vinho, trigo, milho e legumes, bibliotecas particulares, escrituras das fazendas e das casas e por não terem onde se recolher fizeram barraca em Santo Amaro, Lagos, junto da ermida, onde passaram a morar. Um testemunho que chegou até aos nossos dias de um “manuscrito que possuía o Dr António Pina de Sousa Azevedo Castelo Branco, no qual se encontra a seguinte descrição: «No dia 1.º de Novembro de 1755, pelas nove horas e três quartos da manhã, aconteceu um horrível terramoto com alteração do mar que, em poucos minutos, arrasou a cidade de Lagos e as muralhas dela, subindo o mar nas nossas casas, que arrasou, à altura de 13 palmos e meio, levando todos os móveis de muito valor, toda a prata, ouro, dinheiro, 28 pipas de vinho, os trigos, milhos e legumes, a livraria do meu irmão, as escrituras das fazendas que nelas estavam e todas as moradas de casas que tínhamos nesta cidade e na ribeira. E por não termos onde nos recolher fizemos barraca em Santo Amaro, onde residimos até que fomos morar defronte do chafariz, onde faleceu o meu irmão.» [06 — p. 66] É preciso considerar que algumas mortes foram produzidas pelo forte maremoto. Deve-se, portanto atribuir a Lagos uma intensidade sísmica de grau (X)”.

Esta a importância crucial da ermida de Santo Amaro para toda a cidade de Lagos e que levou a uma grande fé e devoção a este santo; mas, em 2007, esta ermida está rasa e não foi nenhum terramoto, mas a incúria, o desleixo e o esquecimento.

Contudo a terra continuou a tremer até 20 de Agosto do ano seguinte, 1756, com poucos dias de intervalo, principalmente nos cinco primeiros meses e quase sempre de noite, nos quartos de lua nova e lua cheia. Destacam-se os tremores de 14 de Dezembro de 1755, de Junho de 1756 pelo meio-dia e o de 14 de Agosto pelas 3 horas da manhã. Nesse dia, morreram em todo o Algarve mais de mil pessoas e muitas outras faleceram depois dos ferimentos e problemas cardíacos.

Depois de muitos meses, o mar ainda apresentava uma violência fora do normal. Os ventos que mais dominavam naquele tempo eram os de sudoeste, mas logo depois do terramoto, passaram a ser os de oeste. Seguiram-se grandes furacões que causaram graves ruínas: um a 13 de Janeiro de 1757 que deitou abaixo a igreja de S. Pedro, em Faro e na vila do Cabo de S. Vicente caiu uma rocha, da 01 para as 2 horas da tarde que matou algumas pessoas.

Nos meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro seguintes ao terramoto houve frios excessivos como nunca tinham acontecido no Algarve antes. A serra de Monchique esteve coberta de neve sem se derreter durante muito dias seguidos.

Nesta altura, houve partos frequentes de duas crianças e alguns de três; em Janeiro de 1757, uma mulher deu à luz um feto monstruoso em Lagos. Tinha o vaso de mulher e do meio saía um nervo de três dedos de comprimento. A cabeça era maior do que todo o corpo; da testa para cima tinha mais de dois palmos; no lugar dos olhos, havia apenas duas fistulas; no do nariz havia apenas uma pele muito fina que cobria um único orifício. Ainda viveu algumas horas.

As doenças que sobrevieram, foram umas febres lentas sem grande secura da língua que provocavam delírios, parótidas, convulsões. Em Lagos, houve bastantes, mas foram poucos os que morreram. Os remédios usados para a cura destes males foram cevada, tamarindos, raiz de cardazol, pevides de cidra cozidos, sementes frias maiores e juntava-se a cada dose, 18 gr de nitro e pontas de veado. Todos os doentes se sangraram, mas nenhum se purgou senão depois de vencida a doença. Só dos três cozimentos simples sentiam melhoras assim como das emoluções de sementes frias à noite, em que se juntava a mesma mistura. Em Faro, houve quase os mesmos sintomas e nas outras terras do Algarve não houve sintomas tão graves; geralmente houve comichão e pruridos continuados; algumas terçãs perniciosas que foram curadas com água da Inglaterra e alguns copos de limonada.[06]

Há notícias de que este terramoto de 01 de Novembro de 1755 mudou as correntes marítimas em frente da costa, arrefecendo as águas e diminuindo a riqueza pesqueira existente. Abriu também várias bocas no rio que ficam cheias de água com a maré vazia e não se lhe acha o fundo.

A igreja de Santa Maria da Graça ficou rasa com o chão; a igreja de S. Sebastião ficou em pé, mas com bastante ruína; a igreja da Misericórdia ficou em pé, mas arruinada e foi a primeira que se consertou, pois foi para lá a colegiada de Santa Maria da Graça; a igreja de S. Braz e a igreja de Porto Salvo também foram destruídas; a igreja de Santo António dos soldados infantes (da Infantaria) ficou muito arruinada; a ermida do Espírito Santo ficou rasa com o chão e também a ermida de Nossa Senhora da Graça, junto à Porta da Vila e também a ermida de S. Roque e também a ermida de S. Pedro e também a ermida de S. Lázaro e também a ermida de S. João Baptista e também a ermida de Santa Bárbara dos soldados artilheiros e também o hospital militar e também o convento de S. João de Deus e também o convento dos religiosos da Santíssima Trindade e também o convento das religiosas do Carmo e também o convento de Nossa Senhora da Glória dos padres capuchos (franciscanos). O forte do Pinhão ficou muito demolido; a fortaleza de Nossa Senhora da Penha de França/Ponta da Bandeira ficou arruinada; as casas da Câmara ficaram rasas; a Casa da Vedoria Geral e da Guarda principal ficaram arruinadas e também a Cadeia da Cidade. Os edifícios maiores da cidade ficaram por terra assim como as muralhas todas.

Em Lagos, só em 1794, o hospital militar foi mandado construir no terreno onde existiam os antigos Paços do Concelho, o hospital de S. João de Deus e a antiga torre do relógio. Junto ao hospital militar acha-se a igreja de Santa Maria da Graça transformada em adega. A ermida do Espírito Santo foi transformada em taberna. Os terrenos das igrejas de Porto Salvo e de S. Braz passaram a armazéns de arrecadação do regimento militar.

A sete de Maio de 1850, foi concedida à Misericórdia de Lagos, para aumentar as enfermarias, o terreno do que era o Palácio dos capitães-generais, Governadores do Algarve e que se situava entre o hospital e o quartel. Em 1885, foi edificado no mesmo local um hospital civil. O convento dos padres capuchos fica extramuros a Norte da cidade e a sua igreja chamava-se Nossa Senhora da Glória. Nele instalou-se a Guarda Republicana. A igreja da Misericórdia passou a paróquia de Santa Maria. O convento das freiras carmelitas passou a Casa de instrução e Educação pública.

A nove de Maio de 1821, nas Cortes, o deputado Domingos de Mello expõe a decadência em que a cidade se encontra passados sessenta e seis anos do terramoto. Tendo este deputado nascido em Lagos afirma ter o direito e a obrigação de interceder pela cidade que já foi capital do Algarve e que, na altura, se achava «pobre e demolida; sem calçadas nas ruas principais e públicas; sem polícia; sujeita a moléstias contagiosas pela sua falta de limpeza em geral e em particular pela infecção das águas públicas, pela ruína e pelo abandono em que se achava o seu aqueduto.

Posto que nenhuma das cidades marítimas de Portugal tem uma baía tão bela, espaçosa e capaz como Lagos e aonde em todos os tempos as armadas nacionais e estrangeiras ali faziam escala para se refazerem de refrescos, carnes e da preciosa água que tinha. O lastimoso estado em que estava o aqueduto reduzido, que em menos de mil passos geométricos conduz do seu nascimento a água à cidade, no momento só oferece a impossibilidade de fornecer qualquer gota de água. Ele está situado junto do rio da cidade e coberto muitas vezes pelas enchentes da maré que no inverno tem chegado a lançar pelas bicas do único chafariz que há, em lugar de água, lama, ervas e bichos que são introduzidos nas roturas pelas chuvas e marés. Assim durante o verão, esta mesma água, única de que se servem os habitantes, deve ser a causa de uma moléstia febril com indícios de epidemia. Só num dos últimos três anos morreram repentinamente perto de quatrocentas pessoas. O relógio público desapareceu durante o terramoto e até à data a cidade continua sem relógio público; o cais da cidade continua destruído e o mar arruína a cidade desse lado. Os moradores de Lagos continuam numa situação de miséria e sem possibilidades económicas. Lagos ainda não tem casas de Câmara. No entanto, os lacobrigenses estão sobrecarregados de impostos: décimas, sisas, contribuições, subsídios, real da água, dízimos, novos impostos, arruados, ...» [06]

Com o passar dos anos, a pouco e pouco, o Algarve conseguiu sair desta fase de morte e desolação, mas nunca mais voltou a alcançar o esplendor e opulência que tivera.

Assim foi!

E como foi com a família Noronha e Menezes?

D. Maria Antónia já era dirigente na Irmandade de Nossa Senhora da Conceição e, durante aquele almoço-recepção de boas-vindas no castelo do alcaide de Lagos, a um de Abril de 1754, ela foi convidada para presidir à Irmandade.

Durante as reuniões, ela foi-se apercebendo das preocupações e prejuízos que o período de seca que se estava a viver provocava na vida do dia-a-dia da população. Então na reunião de Março de 1755, propôs uma peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, com a intenção de pedir a Nossa Senhora o fim da seca e chuva para que houvesse boas colheitas. Foi escolhido o primeiro de Novembro desse ano, Dia de Todos-os-Santos, para que estes intercedessem a favor da população.

Quando teve oportunidade de falar com o marido, expôs-lhe as intenções da Irmandade e D. Rodrigo achou bem e propôs-se acompanhar a peregrinação com seis militares e também iria convidar o Bispo do Algarve, D. Frei Lourenço de Santa Maria. Seria não uma peregrinação de Lagos, mas de todo o Algarve, pois todo o Algarve estava a viver um período raro de seca. O Bispo do Algarve aceitou a proposta e propôs que padres de Lagos e Portimão os acompanhassem com os seus paroquianos. Foram dois os padres que os acompanharam nesta peregrinação: um da igreja de Santa Maria da Graça, em Lagos e outro de Portimão.

O dia 01 de Novembro de 1755 amanheceu um dia de verão ameno e luminoso. Às seis e meia da manhã, a família Noronha e Menezes saía de casa, do Palácio dos Capitães-Generais, Governadores do Algarve. O pai e a mãe com 35 anos de idade, a filha mais velha, Joaquina Mariana de Noronha, a fazer 18 anos, no dia 03, o filho D. Fernando com 13 anos e dois serviçais. O mais novo, D. Francisco, de 10 anos, ficava em casa com a ama. D. Rodrigo não concordou que ele fizesse a peregrinação: era muito novo e era necessário levantar-se muito cedo e também era um grande esforço físico e psicológico, o que não era adequado para uma criança tão nova. Não podia ser! Apesar da insistência da mãe que afirmava que tudo lhe seria aliviado com a presença da ama e ela estaria tranquila porque estaria por perto, D. Rodrigo não cedeu.

Assim partiram os quatro para a igreja de Santa Maria da Graça, ponto de encontro e de partida da peregrinação e às 7:00 horas da manhã, de lá saíram os quatro com os seis militares de escolta, o Bispo do Algarve e um padre da colegiada desta igreja e os que aderiram a esta peregrinação em caleches com rumo ao Santuário de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Ao todo eram oito caleches.

- Vês, Rodrigo, aqueles casais trouxeram os filhos da idade do nosso ou ainda mais novos!

D. Rodrigo olhou e verificou isso.

- Não te preocupes, Antónia, nós tomámos a decisão mais acertada.

- Essa decisão é tua; não minha!

D. Rodrigo deu ordem de partida e todas as caleches se puseram em movimento. Saíram do Largo da igreja, passaram pela rua Direita, seguiram para a rua Portas de Portugal e tomaram a Estrada Real n.º 78. [07 — p. 169] Nesta Estrada, encontraram-se com as caleches em peregrinação da Irmandade da Nossa Senhora da Conceição que vinham de Portimão com o seu pároco. Eram cinco. Todas as caleches se alinharam e partiram em direcção à serra. Passaram por Bensafrim, Alfambras, Aljezur, Odeceixe, Odemira, … Em Santa Luzia, desceram das caleches, foram colocadas as mesas e cadeiras desmontáveis num espaço de merendas e tiveram o seu primeiro piquenique. Eram nove horas da manhã. Conversaram, caminharam entre mesas e peregrinos; todos se ficaram a conhecer ou a conhecer melhor e os seus estômagos mais confortados. Alegres e felizes porque tudo estava a correr bem e o tempo estava convidativo a esta peregrinação entraram novamente nas caleches e, cantando cânticos de louvor, partiram em direcção a Beja. Eram cerca das nove horas e trinta minutos da manhã.

Perto de Aljustrel, todos os cavalos começaram a ficar nervosos e inquietos, relinchando muito. Os homens olhavam uns para os outros sem perceber o que se passava. Ouviram um som medonho vindo da costa e os cavalos empinavam-se sem possibilidade de controlo. D. Rodrigo diz imediatamente:

- Saiam todos das caleches. Desatrelem os cavalos e prendam-nos às árvores.

Foi o pandemónio. Os militares depressa prenderam os seus cavalos às árvores e acudiram aos que estavam nas caleches para que descessem e aos cavalos para desatrelá-los e prendê-los às árvores. Os cocheiros ainda deixaram fugir três cavalos que não voltaram a encontrar. Era grande a precipitação. A terra tremia com tal violência que ninguém se aguentava em pé. D. Maria Antónia, agarrada aos dois filhos, chamava pelo marido.

- Rodrigo, Rodrigo, é o fim do mundo. Não te afastes de nós!

- Querida, tem calma. Tenho de orientar todos. D. Frei Lourenço, a minha esposa precisa da sua palavra, por favor!

- Rodrigo, ainda bem que não trouxemos o Francisco. Graças a Deus.

- Alinhem as caleches transversalmente à estrada e juntas! — gritou D. Rodrigo.

As lágrimas vieram aos olhos de D. Rodrigo; naquele momento queria ter o seu filho junto de si para apoiá-lo e protegê-lo como só um pai o pode fazer. Francisco estava a precisar de si e não podia ajudá-lo. Não conseguia segurar as lágrimas! Estavam em campo aberto, o céu parecia desabar e a terra desfazer-se: eram relâmpagos, trovões violentíssimos, a terra não parava de tremer violentamente com fendas a abrir-se por todo o lado e a chuva começou a desabar com tal violência assolada pelo vento. Era algo medonho de observar, mas não tinham como proteger-se. Era o fim do mundo e o seu filho estava longe e sem protecção. Quem olhava para ele não sabia se eram lágrimas ou só da chuva… continuou a dar orientações aos seus homens e a todos para que houvesse o mínimo de estragos e psicologicamente não se abatessem.

- Acalmem os cavalos, por favor! — gritou Dom Rodrigo para os homens. Os cavalos empinavam-se e puxavam com força querendo soltar-se; quase que arrancavam as árvores. Sem cavalos não tinham como sair dali.

- Vamos voltar para casa — gritavam as mulheres.

D. Frei Lourenço com os dois padres tentaram acalmar principalmente as mulheres com os filhos chorando agarrados a elas. D. Frei Lourenço diz-lhes:

- Estamos a meio do caminho. Não podemos voltar para trás. Estamos em peregrinação por uma grande causa. Ninguém se esqueça disso! Vamos então rezar para que este inferno passe depressa.

Todos se abrigaram como possível nas caleches e rezavam o terço em uníssono entre lágrimas e os filhos agarrados a si.

A filha diz a D. Maria Antónia com os filhos agarrados a ela.

- Mamã, treme tanto; até assusta!

- Eu vou ter com o papá. — diz-lhe o filho, D. Fernando.

- Onde está o teu pai? Consegues vê-lo? — pergunta-lhe D. Maria Antónia.

O filho espreita.

- Está ali junto dos cavalos. — responde-lhe D. Fernando.

- Pois os cavalos são-lhe mais importantes do que nós. É junto de nós que ele deve estar! — disse D. Maria Antónia com muita raiva.

- D. Maria Antónia, por favor, reze!

- D. Frei Lourenço, como quer que eu reze? Eu não consigo!!!

- Mamã, eu vou!

- Filho, se não puderes, volta; por favor!

Quando o filho chega junto de D. Rodrigo que estava falando com calma aos animais.

- Filho, que fazes aqui? Estás melhor junto da tua mãe e do Senhor Bispo.

- Papá, a mamã está muito nervosa. Treme tanto! Está muito zangada consigo porque não nos dá apoio.

- Eu estou todo encharcado! — disse-lhe D. Rodrigo.

- Nós também completamente.

- Mas vocês estão na caleche.

- Mas entra chuva e vento de todo o lado. Estamos todos encharcados e sem comida. Já não se aproveita nada.

- Filho, abraça-me para não veres os relâmpagos!

D. Rodrigo estava completamente desesperado, mas era o líder e não podia esquecer que todos esperavam dele a solução para todos os problemas.

- Filho, tem calma. Isto vai acabar!

- Pelo menos, tu não tremes!

- Meu filho! — e deu-lhe um beijo na cabeça.

Os homens percorriam todas as caleches, verificando os estragos e tomando decisões. Por volta das 10.00 horas da manhã, decidiram que o pior já tinha passado e estava na altura de seguir caminho para Aljustrel para pedir ajuda, pois todos estavam encharcados e muito amedrontados.

Em Lagos, no palácio do Governador do Algarve, que se passa?

À salinha onde está a sua ama, chega a vozinha de Francisco, ainda não eram nove horas da manhã.

- Não me foi chamar para me levantar. — diz Francisco à ama que estava na salinha.

- Hoje é feriado. Está dispensado das aulas. Os seus pais e irmãos não estão. Foram numa peregrinação. Voltam tarde.

- Eu sei. O meu pai contou-me ontem. Eu também prefiro assim!

- Vamos então para fazer a sua higiene e vestir-se. — diz-lhe a ama.

Depois foi tomar o pequeno-almoço. Após a ama pergunta-lhe:

- O que gostaria de fazer, D. Francisco?

- Jogar à bola lá fora.

- Está bem. Traga então a bola.

E foram ambos para o terraço. Ela dava um pontapé na bola para ele e ele fazia a mesma coisa e riam-se divertidos.

De repente, soa um som medonho vindo mar.

- É um trovão e está próximo. Trovoada seca (sem chuva) é mais perigosa. Vamos para dentro!

D. Francisco pegou depressa na bola e correram para dentro de casa. A ama levou-o para a sua salinha. Fechou portas e janelas.

- Que está a fazer, Menina? — pergunta-lhe a governanta.

- É para não se ver os relâmpagos e não ouvir os trovões.

- É boa ideia! — confirma o Francisco.

A governanta sai abanando a cabeça e com um leve sorriso nos lábios.

- Sente-se comigo aqui na cadeira de balouço até isto passar. — diz-lhe a ama.

Ainda ela não tinha acabado a frase e tudo estava a tremer violentamente.

- Vou balançar bem a cadeira para não se sentir a terra a tremer.

- Está bem. — diz-lhe ele aconchegando-se ainda mais no seu colo e abraçando-a.

- Feche os olhos, D. Francisco, que eu fecho também.

E começou a rezar: — Avé, Maria, a cheia de graça…

A água invadiu toda a casa cobrindo tudo.

‘Água salgada, que estranho! Não sei nadar.’ — pensou ela.

Abraçaram-se com mais força.

‘Avé, Maria, a cheia de graça…’

Eles estavam no primeiro andar do palácio onde havia um terraço longitudinal. No rés-do-chão, ficavam a cozinha, a sala das refeições e outras salas que davam para um grande e amplo jardim.

No palácio do alcaide de Lagos, nesta altura, estavam a esposa do alcaide e o filho de quatro anos também no primeiro andar deste palácio. O marido encontrava-se no castelo a estudar e resolver assuntos pendentes. Este casal frequentava a missa da igreja da Misericórdia que era às 17:00 horas. O filho começa a chorar com o temporal e o chão a tremer e a mãe pega no filho e espreita o céu pela janela. Vê o mar muito encapelado muito mais alto do que onde ela estava. Assusta-se e, de repente, tudo é revolto pela base da onda e tudo termina. Do palácio ficam apenas as bases.

As bases das ondas removem também o telhado do castelo e este fica completamente cheio de água do mar. O alcaide não sabe nadar e foi apanhado de surpresa. Assim ficou.

Ficaram órfãos os outros dois filhos, rapazes, a estudar no Colégio Militar em Lisboa. Os avós passaram a assumir a responsabilidade por eles.

Palácio dos Capitães-Generais, Governadores do Algarve

Onde ficava exactamente o Palácio do Governador do Algarve?

Situava-se exactamente paralelo ao castelo e ao palácio do alcaide, no lugar onde actualmente estão as instalações do hospital e a entrada para o Palácio do Governador do Algarve era onde actualmente é o portão para a entrada das ambulâncias.

Mapas do castelo e palácios e fotografias do castelo

Planta n.º 01 (± 350 anos antes de Cristo quando o capitão BOHODES, cartaginês, criou a vila Nova Laccobriga e construiu o seu castelo. Era um entreposto comercial muito importante para Cartago) [06 — p. 20]

1. — castelo;

20. — colina (ermida da Nossa Senhora da Conceição — igreja de São Sebastião);

32. — colina (ermida da Nossa Senhora da Graça — Porta da Vila);

35. — colina (convento e igreja da Nossa Senhora do Carmo)

a. Ribeira dos Touros;

b. Ribeira das Naus;

c. Ribeira de Bensafrim — Rio de Lagos;

Planta n.º 02 (± 210 anos antes de Cristo, Cartago passa a conquistar e formar colónias, construindo um grande império e a Nova Laccobriga passa a sua colónia e a ter muralhas) [06 — p.22]

1. — castelo;

2. — cais;

3. — primeiras muralhas: Porta da Vila — Estrada para Sagres; Porta dos Quartos — Estrada para Sagres e Estrada Real;

a. — Ribeira dos Touros;

12. — Estrada Real (n.º 78);

13. — Estrada para Sagres, muito importante para o comércio dos produtos agrícolas na vila;

Planta n.º 03 — século XIII [06 — p. 33]

1. — castelo;

2. — cais;

3. — primeiras muralhas: Porta da Vila — Estrada para Sagres; Porta dos Quartos — Estrada para Sagres (peregrinações muito importantes ao santuário de S. Vicente e à ermida de Nossa Senhora de Guadalupe) e Estrada Real n.º 78;

4. — ermida Nossa Senhora da Graça junto à Porta da Vila;

5. — primeiro núcleo populacional extramuros com a ermida Nossa Senhora da Conceição ao centro;

a. Ribeira dos Touros;

b. Ribeira das Naus;

8. — praia da Ribeira dos Touros

9. — espaço dedicado ao comércio

10. — praia da Ribeira das Naus

Planta n.º 04 [06 — p. 329]

T — castelo;

Planta n.º 05 (século XVI — antes das remodelações para a construção do Palácio dos Capitães-Generais, Governadores do Algarve e do Palácio do Alcaide) [06 — p. 338]

2. — pátio interior do castelo com uma cisterna;

3. — segundas muralhas (século XVI);

4. — cais;

6. — primeiras muralhas;

Planta n.º 06 — idem [06 — p.339]

1. — castelo e cisterna com porta para o exterior;

2. — salão de recepções;

Planta n.º 07 (depois da remodelação de todo o espaço com castelo para gabinetes de trabalho do alcaide de Lagos e do Governador do Algarve; palácio para o alcaide de Lagos e palácio para o Governador do Algarve) [06 — p. 57]

24. — castelo e cisterna;

20. — Palácio do Alcaide de Lagos com entrada lateral;

21. — Palácio do Governador do Algarve e jardim; entrada do mesmo pelo portão onde actualmente estacionam as ambulâncias;

22. — caminho do Palácio do Governador para o castelo;

14. — igreja da Misericórdia/Santa Maria (Irmandade da Misericórdia em Lagos desde 1498);

15. — Sacristia;

16. — hospital da Misericórdia;

19. — cais das segundas muralhas;

28. — Casa da Dízima;

17. — portagem;

Planta n.º 08 (século XVI — segundas muralhas iniciadas em 1520 e concluídas em 1598 segundo o plano do Infante D. Henrique (século XV)) [06 — p.37]

1. — castelo;

8. — Praça do Pelourinho;

14. — Trem de Artilharia;

4. — Porta da Vila (de Lagos);

A. — ermida Nossa Senhora da Graça;

15. — aldeia da Porta da Vila e Porta Nova;

18. — segundas muralhas;

13. — Porta dos Quartos e estrada para Sagres;

16. — aldeia da Porta dos Quartos;

17. — aldeia da Porta do Postigo;

B. — igreja de São Sebastião/ermida Nossa Senhora da Conceição; Porta de Portugal e Estrada Real n.º 78;

10. — Praça do Cano/Aqueduto;

9. — espaço de actividade comercial;

Planta n.º 09 — século XVII [06 — p.51] 

1. — castelo;

3. — primeiras muralhas;

14. — trem de artilharia;

i. — Fortaleza Nossa Senhora da Penha/Ponta da Bandeira;

A. — ermida Nossa Senhora da Graça;

15. — aldeia da Porta da Vila (de Lagos) e Porta Nova;

18. — segundas muralhas;

13. — Porta dos Quartos e estrada para Sagres;

19. — edifícios e construções militares;

16. — aldeia da Porta dos Quartos;

17. — aldeia da Porta do Postigo;

B. — igreja de São Sebastião;

10. — Praça do Cano/Aqueduto;

9. — espaço de actividade comercial;

8. — Praça do Pelourinho.

O castelo

Por volta do ano 356 antes de Cristo, aconteceu um forte sismo com maremoto nesta localidade (Lacóbriga primitiva) que ficou destruída. Por esta altura, Bohodes, capitão cartaginês e emigrantes de Cartago, fenícios, gregos e autóctones reedificaram-na numa colina bem alta a cerca de 3 km de distância, à qual deram o mesmo nome, denominaram-na Laccobriga e Bohodes constrói o seu castelo no sopé. Assim passa a morar em Lagos, pela primeira vez, o Governador da região e nesta altura não são construídas as muralhas e o castelo mantém-se até 1960. O cais foi construído com o castelo e ficava junto do castelo. Porque os visitantes conheciam a localização anterior de Laccobriga, passaram a denominar esta de Nova Laccobriga. A Nova Lacóbriga distava 03 km do local da Lacóbriga primitiva e situava-se a 37 6 20 LTW e a 29 LGE (meridiano de Lisboa).

Políbio e Tito Lívio informam-nos de que, em 210 antes de Cristo, dois exércitos cartagineses estavam estacionados em território que tempos depois veio a ser português: um no Algarve e outro na foz do Tejo, comandados respectivamente por Magão e Asdrúbal.

É também de salientar o documento mencionado por JP Rocha no seu livro Monografia de Lagos que nos informa que, durante o domínio romano, «Porto de Aníbal fica junto à residência do Governador Provincial, Olin, na cidade de Lacóbriga, junto ao mar.» [07 — p.353] Lacóbriga tinha dois portos: a Praia de S. Roque/Meia-Praia, sem pagamento de portagem e o ancoradouro junto ao Castelo e Porta da Alfândega, com pagamento de portagem.

Entre 1688–90, foram feitas obras de conservação e melhoramentos no Palácio dos Governadores e foram construídos o jardim e a escadaria do Palácio.

No maremoto de 01 de Novembro de 1755, o castelo e os palácios ficaram arruinados e não foram reconstruídos.

A 07 de Maio de 1850, os terrenos e as ruínas existentes dos dois edifícios do Castelo, que se situavam entre o hospital e o quartel, foram cedidos à Misericórdia de Lagos para aumentarem as enfermarias.

Em 1938–40, construiu-se a Avenida da Guiné que passava junto do castelo.

Em 1958–60, foram demolidas as ruínas ainda existentes. Foi construída a Estrada Nacional n.º 125, deitando abaixo a parte das muralhas que lhe ficavam no caminho e foi feita a recuperação de outra parte das muralhas e a construção da Porta de S. Gonçalo. O espaço do castelo e palácios foram integrados no Hospital de Lagos. [07 — p.329]

Quando a peregrinação chegou a Aljustrel foi a desolação; a vila estava em ruínas, havia mortos entre os escombros das casas. Os habitantes olharam para eles que chegavam e continuaram o seu trabalho de limpeza e ajuda aos feridos.

— Estão pior do que nós. Vamos já para Beja; no quartel, vão ajudar-nos! — esclareceu D. Rodrigo.

A peregrinação seguiu para Beja.

Chegados ao quartel de Beja, D. Rodrigo pede para falar com o comandante Manuel Soares; que se conheciam. Ele prontamente veio ter com eles.

- Donde vêm vocês? Parece que passaram pelo inferno ou muito perto. — disse o comandante.

- Apanhámos o que aconteceu de manhã a meio do caminho, antes de chegarmos a Aljustrel. Foi indescritível! — comentou D. Rodrigo. — Estamos todos num estado lastimável. Em que nos podes ajudar?

- Bem, são onze e meia. José, leva as mulheres e as crianças para a caserna 7 e avisa para que os homens não entrem. Manuel, leva os homens para a caserna 8. Tirem as roupas molhadas! As mulheres envolvam-se em lençóis e mantas, como quiserem e aos homens arranjam-se fardas de trabalho, enquanto as vossas são lavadas e secas. O mesmo para as roupas das mulheres e crianças. À uma hora, é o almoço na cantina. E tu, vai lá com eles e durante o almoço ficas na minha mesa; assim podemos conversar.

D. Rodrigo, depois de verificar que tudo estava encaminhado, estendeu-se numa das camas da caserna 8. O seu corpo estava muito tenso e fatigado de tudo por que passou e o cérebro, muito cansado, não se acalmava nem um pouco. Talvez fechando os olhos…

Dormir não conseguiu, mas a sua memória foi-lhe mostrando o que tinha sido a sua vida até então. O que tinha passado de mais marcante…

Houve o Colégio Militar, onde começou desde os estudos básicos com 12 anos. Em casa tinha estudado com professores que o prepararam bem.

Em 1749, com 29 anos, já era capitão de Infantaria, Ajudante das ordens do Mestre de Campo General da Corte e Província da Estremadura…………

D. Frei Lourenço chegou à caserna 8, procurando D. Rodrigo para irem os dois para a mesa do comandante no refeitório, pois D. Manuel Soares avisou-o que estava lá, esperando por eles.

Na caserna 8, D. Frei Lourenço na verdade encontrou D. Rodrigo, mas dormitando.

- D. Rodrigo, ouve-me? D. Rodrigo! — chamava D. Frei Lourenço sem querer assustá-lo.

- D. Frei Lourenço, é você?! Desculpe, parece que dormitei um pouco. Que se passa? Há algum problema?

- D. Manuel Soares está à nossa espera no refeitório para almoçarmos.

- As mulheres e as crianças já estão avisadas?

- Já fui à caserna 7 para falar com elas. Responderam-me que não estão em condições de aparecer em nenhum lado e é verdade. As suas roupas ainda estão a secar. Assim decidiram que comem na caserna, utilizando as mesas e cadeiras de piquenique que trouxeram consigo.

- E quem lhes vai levar a comida? — pergunta D. Rodrigo.

- Falamos agora com o comandante e ele resolve. — responde-lhe D. Frei Lourenço.

- Está tudo muito bem. Tem sido de um enorme valor a sua ajuda, D. Frei Lourenço. Preciosa mesmo! Estou pronto. Vamos então para o refeitório!

No refeitório.

- Desculpa, Manuel, teres ficado à nossa espera. Dormitei um pouco…

- Sentem-se, por favor! — disse o comandante.

- Manuel, peço-te que alguém vá levar às mulheres e crianças a sua refeição à caserna 7. Elas têm as mesas e cadeiras de piquenique que trouxeram.

- Com certeza. Ordenança, vá à cozinha avisar para que alguém leve tudo o que é preciso para as mulheres e crianças que chegaram, almoçarem na caserna 7, onde estão. Mesas e cadeiras já têm.

- Com certeza, meu comandante.

- Fica descansado que as mulheres e crianças também têm a sua refeição. Vamos nós iniciar a nossa! — afirmou D. Manuel Soares, o comandante.

- Está muito bom! Comem sempre assim?

- Não, acontece que hoje temos convidados especiais; portanto o almoço está mais refinado.

- Agradeço a atenção que tiveste para connosco. Depois de tudo o que passámos, sabe bem um mimo assim, não é D. Frei Lourenço?

- É mesmo!

- Então contem-me lá as vossas desventuras de hoje de manhã. Cá também andámos num alvoroço. Agora parece que não porque somos muitos e compomos tudo depressa. Em Beja, muitas casas ruíram e houve gente soterrada. No quartel, algumas casas ficaram arruinadas, mas ninguém ficou soterrado.

- Ainda bem porque nós vivemos um autêntico inferno. O apocalipse apanhou-nos no meio de um descampado e foi algo indescritível. Talvez D. Frei Lourenço te possa contar tudo com menos emoção, pois a minha ainda está muito à flor da pele, sendo o responsável por todos eles. D. Frei Lourenço, faça favor; se não se importa?

- Com certeza.

D. Frei Lourenço relata o pandemónio por que passaram naquela manhã e D. Manuel Soares, o comandante, fica impressionado.

- Bem, então os meus homens vão inspeccionar bem as caleches para que não tenham mais surpresas desagradáveis pelo caminho. Quando pensam partir?

- Nós ainda não temos as nossas roupas secas. Amanhã de manhã. Tomamos o pequeno-almoço convosco e partiremos para Vila Viçosa e chegaremos ao nosso destino — o Santuário de Nossa Senhora da Conceição.

- Um objectivo muito nobre. Contem com a nossa ajuda para o que for preciso e na volta cá vos esperamos.

D. Rodrigo agradeceu sensibilizado; as lágrimas vieram-lhe aos olhos. Ainda estava muito sob stress.

Assim aconteceu. No dia seguinte, partiram a caminho do santuário.

Santuário de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa

Santuário de Nossa Senhora da Conceição em Vila Viçosa

O Santuário de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa é também conhecido por Solar da Padroeira, por nele se encontrar a imagem de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal. Localizado dentro das muralhas de Vila Viçosa, este santuário é uma obra do fim do séc. XVI e princípio do séc. XVII.

Nossa Senhora da Conceição foi proclamada pelo rei D. João IV, padroeira de Portugal, nas cortes de 1646. Segundo a tradição, a imagem da padroeira terá sido oferecida pelo Condestável do Reino, D. Nuno Álvares Pereira, que a terá adquirido em Inglaterra. A mesma imagem teve a honra de, por provisão régia de D. João IV, referendada em Cortes Gerais, ter sido proclamada Padroeira de Portugal, em 25 de Março de 1646. A partir de então não mais os reis portugueses da Dinastia de Bragança voltaram a colocar a coroa real na cabeça.

A igreja, que é simultaneamente Igreja Matriz de Vila Viçosa, fica situada dentro dos muros medievais do Castelo da vila, não se podendo, porém precisar a data exacta da sua fundação, sendo que a existência da matriz é já assinalada na época medieval. O edifício actual resulta da reforma levada a cabo em 1569, durante o reinado de D. Sebastião, sendo um amplo templo de três naves, onde o mármore regional predomina como material utilizado na construção. O edifício é flanqueado por torre sineira. Tem três naves e cinco tramos de arcadas redondas, assentes em colunas dóricas, altares com talha dourada e mármores barrocos. A capela do Santo Crucifixo está coberta de azulejos historiados de Policarpo de Oliveira Bernardes.

A notável imagem, em pedra de ançã, encontra-se no altar-mor da igreja, estando tradicionalmente coberta por ricas vestimentas (muitas delas oferecidas pelas Rainhas e demais damas da Casa Real).

Ainda em 06 de Fevereiro de 1818, o Rei D. João VI concedeu nova benesse ao Santuário, erigindo-o cabeça da nova Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, agradecendo à Padroeira a resistência nacional às invasões francesas.

Neste Santuário nacional estão sediadas as antigas Confrarias de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e dos Escravos de Nossa Senhora da Conceição.

O Papa João Paulo II visitou este Santuário durante a sua primeira visita a Portugal, em 14 de Maio de 1982.

Há uma grande peregrinação anual ao Santuário de Vila Viçosa que se celebra todos os anos a 8 de Dezembro, dia da solenidade da Imaculada Conceição, Padroeira Principal de Portugal. Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa foi também declarada padroeira da Arquidiocese de Évora.

Os nossos peregrinos chegaram ao santuário por volta das 11:00 horas; comeram qualquer coisa e foram para a igreja. Esta estava com poucas pessoas em recolhimento e oração; assim fizeram também os nossos peregrinos, ocupando os bancos disponíveis e o mais próximo possível uns dos outros. O bispo e os padres foram dar a conhecer ao santuário a presença desta peregrinação do Algarve — Lagos e Portimão e ofereceram-se para concelebrar com os padres do santuário. Na igreja, lágrimas corriam pelas faces destes peregrinos, homens e mulheres em orações de agradecimento por estarem salvos e pelos que deixaram em suas casas. Foi um enorme desabafo à Mãe do Céu. Nunca se tinham sentido tão pequeninos e tão acolhidos por Ela!

A próxima missa era às doze horas. Todos decidiram ficar a aguardar a hora da missa nos lugares onde estavam. A D. Maria Antónia estava satisfeita: missão cumprida; com muitas adversidades pelo meio, mas também sempre apoiados pela Mão Divina e ali estavam sãos e salvos, cumprindo a sua promessa e sentindo-se recompensados por todo o apoio que tinham tido no quartel… e as lágrimas não paravam de correr. O seu marido, D. Rodrigo, era um grande Homem e ela estava muito orgulhosa dele. Não lhe dizia para ele não ficar vaidoso, mas que estava muito orgulhosa dele, estava! Agradeceu muito a Nossa Senhora. Era bom sentir-se assim pequenina e acolhida em Maria.

A pouco e pouco os nervos de cada um foram-se acalmando e… a missa ia começar. Assistiram a esta missa com muita mais devoção e concentração do que era costume e com os nervos à flor da pele; ofereceram os nomes dos seus entes queridos já falecidos e os seus próprios e familiares e foram comungar, agradecendo imenso este momento, esta oportunidade e as lágrimas assomaram aos olhos pela emoção vivida. Fizeram o seu recolhimento habitual. Na altura da Acção de Graças, o Senhor Bispo do Algarve, D. Frei Lourenço, disse algumas palavras à assembleia em nome de toda a peregrinação. Ele e os dois padres foram concelebrantes nesta eucaristia.

Missa concluída, missão cumprida; agora tinham pela frente o regresso na paz do Senhor. Todos estavam felizes; sentiam-se abençoados.

Foram almoçar a um restaurante que ficava próximo e deram uma volta por Vila Viçosa. Era domingo, as lojas estavam fechadas, mas via-se a cidade e as montras. Às 17:00 horas partiram rumo a Beja, ao quartel. Lá jantariam e dormiriam e cedo partiriam rumo a Lagos e Portimão.

Como seria o regresso? Já tinham acontecido vários tremores de terra, mas de intensidade muito mais fraca. Estavam confiantes de que o pior já tinha passado. Contudo eles não sabiam o que tinha acontecido em Lagos e Portimão; já estavam bem longe quando aconteceu o terramoto de 01 de Novembro de 1755. Eles iriam fazer o mesmo percurso. Vejamos o que nos relatam os documentos da época.

A partir de Odeceixe, porque o percurso era já perto da costa, só encontraram a estrada sempre com entulho, as casas por terra e as igrejas também… Sem D. Rodrigo, um bom estratega militar e os seus homens que teria sido destes peregrinos? Como teriam chegado a casa?

D. Rodrigo, com o apoio do Bispo, D. Frei Lourenço, na orientação dos trabalhos foram limpando, com os homens da peregrinação, a estrada do entulho o suficiente para que as caleches passassem. Odeceixe, Aljezur, Alfambras, Bensafrim, Lagos, Portimão… só destruição, desolação, entulho, todas as casas e igrejas arrasadas… homens a limparem e a tentarem salvar alguém/ alguma coisa entre os escombros do que o mar levou, arrastou… as terras ficaram improdutivas porque alagadas com a água do mar… Era já segunda-feira de tarde, tardinha. Dia 03 de Novembro de 1755.

Os peregrinos de Portimão, no ramal, separaram-se dos de Lagos e seguiram sempre com a esperança de “a minha casa, a minha família sobreviveu…”

Os peregrinos de Lagos nem conseguiram entrar na cidade. D. Rodrigo e os seus homens, o Bispo e o padre da igreja de Nossa Senhora da Graça entraram por aquele mar de lama, lodo, entulho sem casas e muito pouca gente, à procura dos seus homens que ficaram na cidade e todos com as lágrimas nos olhos, o coração muito apertado e impelidos pela necessidade de fazer alguma coisa naquele imenso lodaçal indescritível… os civis da peregrinação partiram buscando as casas de familiares em locais afastados da costa como Silves e fazendo caminho para Lisboa. Acreditavam que Lisboa não tinha sido abrangida por esta calamidade. Repartiram a comida que havia com os homens que ficaram, pois não havia nada para comer. D. Maria Antónia partiu a caminho de Lisboa com os seus dois filhos, dois militares e um dos serviçais; o outro acompanhou D. Rodrigo. Havia em D. Rodrigo e na sua esposa a esperança de encontrar o seu filho mais novo. Ele era inteligente e desenrascado; certamente encontrou uma saída…

A viagem para Lisboa foi, podemos dizer, normal porque longe da costa. Aproximaram-se de Montijo, era a terra do serviçal. Lá foram acolhidos, alimentados e repousaram.

Lisboa estava tão arrasada como Lagos… D. Maria Antónia perde o controlo de si e desata num pranto impossível de parar: os seus bens, da sua família e da família do marido, a sua família e a família do marido estavam todos concentrados em Lisboa. Que iria ser da sua família agora na miséria?

Era o pensamento que não parava de martelar na mente da D. Maria Antónia, não querendo que os seus filhos adivinhassem a angústia por que estava a passar.

Identificação dos proprietários
Medição das propriedades

72) Casas de Dom Rodrigo António de Noronha e Menezes, do lado direito da rua. Medição de 24 de Abril de 1756.[13]

D. Rodrigo António de Noronha e Menezes, Capitão-General, foi Governador do Algarve com sede em Lagos. Nomeado a 19 de Janeiro de 1754, [12] tomou posse no dia um de Abril de 1754 com uma recepção apoteótica organizada pela Câmara da cidade de Lagos como prova o texto abaixo.

texto sobre o acontecimento

Foi Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lagos de 1754 a 1761.

Em 1754, D. Rodrigo de Noronha, Governador do Algarve, foi fazer uma inspecção formal ao forte de Ferragudo, após reparação deste devido a ter estado muito danificado. A fortificação foi considerada em perfeito estado de conservação. Nesta altura, apresentava duas baterias de artilharia:

a Bateria Baixa, artilhada com três peças;

a Bateria Alta, artilhada por quatro. (in Wikipédia)

Relativamente à Fortaleza de Sagres remonta igualmente ao século XVIII o levantamento da derruída muralha exterior que ficou estruturada segundo o sistema de Pagan. Contudo julgamos que não ficou concluída e já no século seguinte se entendia que o sistema de fortificação deveria ser alterado, o que se atesta numa carta de D. Rodrigo António de Noronha e Menezes, dirigida ao Marquês de Pombal, datada de 22–6–1754: «Fica esta praça em uma ponta de rocha firme, pela parte do mar é forte por natureza; pela da terra tem boa muralha, porém no exterior, está em partes por acabar; o que se não precisa por se não dever seguir o método com que está principiada porque, quando sua Majestade a quisesse mandar acabar, se devia seguir outro sistema».[28] (SAGRES E OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES José Carlos Vilhena Mesquita p.12 — in Jordão de Freitas, A Vila e a Fortaleza de Sagres nos séculos XV a XVIII, Coimbra, edição do Instituto de Alta Cultura, 1938. p.116)

sobre a Fortaleza de Albufeira, Algarve in Dossier de Apoio de Professores, 2010, PDF, p. 16

D. Rodrigo, Dom Frei Lourenço, o padre de Nossa Senhora da Graça, os quatro militares e o serviçal, segurando os cestos da comida começaram a avançar por aquele lodaçal.

Dirigiram-se como puderam para o lugar do Palácio do Governador, a sua casa. Naquela altura, já alguma coisa tinha sido removida e D. Rodrigo ia gritando de vez em quando pelos seus homens; tinha esperança que algum lhe responderia “Não morreram todos; não, não pode ser!” — cogitava D. Rodrigo. A desolação era total.

“Alerta!” — ouviu e respondeu. A pouco e pouco, pelo som, foram-se aproximando. D. Rodrigo estava num vale de lágrimas; os outros que o acompanhavam, caminhavam no mais completo silêncio, escutando o seu soluçar, mas “que lhe dizer…” a sua presença e apoio no desbravar da cidade eram mais importantes do que qualquer palavra.

Quando finalmente ficou frente a frente com os seus homens que tinham ficado em Lagos abraçou cada um deles com a sofreguidão de um pai que não sabia se os tinha perdido para sempre. Era noite, não podia ver a cara de cada um deles como gostaria, mas estavam ali, vivos e isso era tudo. Agora faltava encontrar o seu filho. A sua esperança redobrou!

Todos se dirigiram para umas casas que os militares tinham encontrado inteiras, longe da costa. O Palácio do Governador ficaria para o dia seguinte.

- Como conseguiram? — perguntou-lhes D. Rodrigo continuando-os a abraçar.

- Nós estávamos em exercício, o que costumamos fazer todas as manhãs, quando o mar se alvoroçou, nós corremos quanto pudemos para longe da costa e aí nos ficámos. Muitas casas vieram abaixo com os tremores de terra que foram vários e intensos, mas conseguimos entrar nestas que passaram a ser o nosso quartel-general e já passaram três dias… há comida e água…

- Então vamos todos descansar um pouco, incluindo o Senhor Bispo e amanhã voltamos a arregaçar as mangas.

Como estava difícil adormecer!

Nunca se imaginou que passaria por tudo o que tinha passado nestes últimos dias. A cidade desapareceu! Como é possível?

Coragem! Coragem! — gritava a si próprio — Sou descendente de Governadores, quadros superiores do exército; antepassados que também sofreram muito, passaram por muito e sempre conseguimos manter a dignidade. Tenho fé; muita fé!

E adormeceu.

No final do século XVIII, encontramos apenas uma fonte, relativa ao ofício de Provedor e Feitor-mor da Alfândega de Lisboa, pertencente a D. Rodrigo António de Noronha e Meneses, de 1757.(73), título que recebeu do seu sogro. A excepcionalidade desse tipo de contrato que também envolveu uma soma de dinheiro, não pode ser explicada apenas porque o ofício foi extinto. Durante todo o Antigo Regime, os titulares e também os oficiais providos temporalmente deveriam ser compensados pelo monarca quando afastados de seus ofícios sem causa justa, quando seus rendimentos sofriam um decréscimo e, tal como no caso anterior, quando o cargo era extinto.(74) O que justifica a raridade do contrato de desapropriação que envolveu Noronha e Meneses é a importância social do protagonista, mas sobretudo o facto de a propriedade deste ofício de elevado status ter sido comprada ainda no século XVII. (73ANTT/Casa Real, Núcleo Antigo 323. Escrituras de venda, quitação e obrigação do ofício de provedor e feitor-mor da Alfândega de Lisboa, comprado pelo rei D. José I a D. Rodrigo António de Noronha e Meneses.

74Sobre o tema: HESPANHA, António Manuel. História das instituições. op. cit., p. 327–328.)

Consultando o Arquivo do Exército soube dos seguintes eventos relacionados com D. Rodrigo António de Noronha e Menezes: [10]

No segundo semestre de 1758, vários naufrágios ocorrem na costa algarvia com cargas e corpos dados às praias. D. José Vasques da Cunha, Governador e capitão de Mazagão, escreve a D. Rodrigo António de Noronha e Menezes sobre a falta de trigo para sustento das suas guarnições, incluindo pedido de reforço monetário. D. Rodrigo de Noronha e Menezes escreve ao Corregedor da Comarca de Lagos, a pedir a relação dos valores gastos com cereais. Vicente da Silva da Fonseca, Governador das Armas do Algarve, escreve a D. Luís da Cunha Manuel, Secretário de Estado dos Negócios de Guerra a relatar toda esta situação. (PT/AHM/DIV/1/06/03/07) [09]

A 06 de Abril de 1760, D. Rodrigo de Noronha e Menezes ainda tem residência em Lagos e é Governador do Algarve conforme atesta carta do Arquivo do Exército. (PT/AHM/DIV/1/06/45/72)

De 28 de Julho de 1762 a 25 de Agosto, carta de D. Rodrigo de Noronha e Menezes ao conde de Lippe sobre a falta de mantimentos, o estado das tropas sob o seu comando e providências a tomar. (PT/AHM/DIV/4/1/20/13)

A 15 de Outubro de 1762, Lisboa, o Marquês de Pombal escreve ao Conde de Lippe a pedir a comparência de D. Rodrigo de Noronha e Menezes na Corte para que este reforce a actividade do tenente-general D. João de Lencastre no Governo da Infantaria.

A 15 de Outubro de 1762, é enviado um ofício de D. Luís da Cunha Manuel, Secretário de Estado dos Negócios de Guerra, para o conde de Lippe sobre a nomeação do tenente-general D. João de Lencastre para governar a Infantaria na ausência de D. Rodrigo de Noronha e Menezes [11]

Em Lisboa, entre as actuais ruas da Imprensa Nacional, Escola Politécnica, Largo do Rato e rua de S. Bento eram os terrenos pertencentes a D. Rodrigo António de Noronha e Menezes, entroncado por casamento na família dos Soares, senhores desde 1669 do Morgado da Cotovia que passou a quinta de D. Rodrigo de Noronha. Foi neste casarão que em 1768, por arrendamento se instalou a Imprensa Régia. Edifício quinhentista conhecido por Solar à Cotovia, dele nada resta actualmente.

Após o terramoto e depois deste Governador ter perdido o seu filho mais novo, Francisco, no maremoto e a sua esposa com os seus outros dois filhos terem ido viver para Lisboa, para a casa da família, D. Rodrigo António de Noronha e Menezes passa a viver sozinho em Lagos, no quartel, governando o Algarve até 1762, reconstruindo a defesa da costa algarvia e lutando contra a adversidade da falta de meios, pois principalmente o barlavento algarvio e Lisboa tinham ficado completamente destruídos e, por conseguinte, a Coroa sem fundos monetários para fazer face a tanta necessidade. Em 1762, abandonou este cargo de Governador do Algarve por resistência da esposa em juntar a família em Lagos e regressou a Lisboa porque havia muitas decisões a tomar e continuou no exército com o mesmo posto de capitão-general. Os militares sob o seu comando foram para Tavira; era o seu quartel-general no Alto de Santana. Lagos e Tavira eram as únicas cidades da Coroa. Faro era cidade da Rainha. É então nomeado o 41.º Governador (interino) do Algarve, D. Fernando Lourenço de Sant’Ana, também Bispo do Algarve com residência na sede de Bispado, em Faro e o rei, D. José, extingue este cargo de Governador do Algarve.

Este terramoto arrasou completamente a cidade de Lagos que perdeu o título de capital do Algarve e o Palácio dos Governadores não voltou a ser reconstruído.

O local e a data do seu falecimento são desconhecidos até ao momento. (25–04–2016)

BIBLIOGRAFIA

[01] https://www.geni.com/people/Rodrigo-António-de-Noronha-e-Menezes/6000000017150386292

[02]https://www.geni.com/people/Joaquina-Mariana-de-Noronha/6000000017149846353

[03]https://www.geni.com/people/Fernando-Ant%C3%B3nio-Soares-de-Noronha/6000000026620459053

[04] https://www.geni.com/people/francisco/6000000026620176347

[05] https://www.geni.com/people/Diogo-de-Noronha/6000000014786639891

[06] Carta do médico de Lagos, Dr António Maurício Sequeira, de 02 de Abril de 1757 a um amigo.

[07] livro LAGOS, evolução urbana e património de Rui M. Paula,

edição da Câmara Municipal de Lagos, de Outubro de 1992.

[08] Santuário de Nossa Senhora da Conceição, Vila Viçosa https://pt.wikipedia.org/wiki/Santu%C3%A1rio_de_Nossa_Senhora_da_Concei%C3%A7%C3%A3o_de_Vila_Vi%C3%A7osa

[09] https://arqhist.exercito.pt/report/?p=%2fArcheevo4_AHM%2fFrontOffice%2fPublic%2fMiscellaneous%2fDescriptionItemPublicReport&f=3&ID=99806&Locale=pt

[10]Archeevo4_AHM-FrontOffice-Public-Miscellaneous-DescriptionItemPublicReport (1)

https://arqhist.exercito.pt/results?p0=*&o0=1&v0=D.+Rodrigo+de+Noronha+e+Menezes&m0=False

[11]-Archeevo4_AHM-FrontOffice-Public-Miscellaneous-DescriptionItemPublicReport (2)

https://arqhist.exercito.pt/report/?p=%2fArcheevo4_AHM%2fFrontOffice%2fPublic%2fMiscellaneous%2fDescriptionItemPublicReport&f=3&ID=66787&Locale=pt

[12] Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais

https://archive.org/stream/revistadoinstit26brasgoog/revistadoinstit26brasgoog_djvu.txt

[13] PDF completo — Arquivo Municipal de Lisboa — Câmara Municipal de …

arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/fotos/editor2/Cadernos/2serie/cad5/cad05_site.pdf

OLIVAL, Fernanda. As ordens militares e o Estado moderno: Honra, mercê e venalidade (1641–1789). Lisboa: Estar, 2001. [ Links ] (continua)

Bolos D. Rodrigo

Biografia de Dom Rodrigo