Dia Mundial da Poesia 2017

Lagos, 21 de Março de 2017

Sobre Dia Mundial da Poesia 2017

Neste Dia Mundial da Poesia deste ano — 2017 — escolhi continuar com a Lírica de Luís Vaz de Camões (1524–1580). Comemorando este dia, escolhi as redondilhas. Das que mais gostei, saliento estas que venho partilhar convosco:

1.ª redondilha — A Dona Francisca de Aragão

Que lhe mandou glosar este verso: “Mas, porém, a que cuidados?”

Tanto maiores tormentos

foram sempre os que sofri

daquilo que cabe em mi

que não sei que pensamentos

são os para que nasci.

Quando vejo este meu peito

A perigos arriscados

Inclinado, bem suspeito

Que a cuidados sou sujeito.

Mas, porém, a que cuidados?

Que vindes em mim buscar,

Cuidados, que sou cativo?

Eu não tenho que vos dar;

Se vindes a me matar

Já há muito que não vivo.

Se vindes porque me dais

Tormentos desesperados

Eu, que sempre sofri mais

Não digo que não venhais.

Mas, porém, a quê, cuidados?

Se as penas que Amor me deu

Vêm por tão suaves meios

Não há que temer receios

Que vale um cuidado meu

Por mil descansos alheios.

Ter nuns olhos tão fermosos

Os sentidos enlevados

Bem sei que em baixos estados

São cuidados perigosos,

Mas, porém, ah! Que cuidados!=

2.ª redondilha: voltas a mote alheio

Menina fermosa

Dizei de que vem

Serdes rigorosa

A quem vos quer bem?

Não sei quem assela

Vossa fermosura

Que quem é tão dura

Não pode ser bela.

Vós sereis fermosa,

Mas a razão tem

Que quem é irosa

não parece bem.

A mostra é de bela

As obras são cruas;

Pois qual destas duas

Ficará na sela?

Se ficar irosa

Não vos está bem;

Fique antes fermosa

que mais força tem.

O Amor fermoso

Se pinta e se chama.

Se é Amor, ama;

Se ama, é piedoso.

Diz agora a glosa

Que este texto tem

Que quem é fermosa

Há-de querer bem.

Havei dó, menina,

Dessa fermosura;

Que, se a terra é dura,

Seca-se a bonina.

Sede piedosa,

Não veja ninguém

Que por rigorosa

Percais tanto bem.=

3.ª redondilha: voltas a mote alheio

Pequenos contentamentos

I buscar quem contenteis

Que a mim não me conheceis.

Os gostos que tantas dores

Fizeram já valer menos

Nãos os aceita pequenos

Quem nunca teve maiores;

Bem parecem vãos favores,

Pois tão tarde me quereis

Que inda me não conheceis.

Ofereceis-me alegria

Tendo-me já cego e mouco;

É baixeza aceitar pouco

Quem tanto vos merecia.

Ide-vos por outra via,

Pois o bem que me deveis

Nunca mo satisfareis.=

4.ª redondilha: Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar

No mundo graves tormentos

E para mais me espantar

Os maus vi sempre nadar

Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim

O bem tão mal ordenado

Fui mau, mas fui castigado.

Assim que, só para mim,

Anda o mundo concertado.=

5.ª redondilha: voltas a cantiga alheia

Lá na fonte está Leonor

Lavando a talha e chorando

Às amigas perguntando:

- Vistes lá o meu amor?

Posto o pensamento nele

Porque a tudo Amor obriga

Cantava, mas a cantiga

Eram suspiros por ele.

Nisto estava Leonor

O seu desejo enganando

Às amigas perguntando:

- Vistes lá o meu amor?

O rosto sobre uma mão

Os olhos no chão pregados

Que de chorar já cansados

Algum descanso lhe dão.

Desta sorte Leonor

Suspende de quando em quando

Sua dor e a si tornando

Mais pesada sente a dor.

Não deita dos olhos água

Que não quer que a dor se abrande

Amor porque em mágoa grande

Seca as lágrimas a mágoa.

Depois que de seu amor

Soube novas perguntando

De improviso a vi chorando.

Olhai que extremos de dor!=

6.ª redondilha: voltas a mote

Que vistes, meus olhos?

Meus olhos, que vistes

Que vos vejo tristes?

Vejo-vos chorosos

De Amor agravados

Tanto enamorados

Quanto mais queixosos.

Ora, meus mimosos,

Dizei-me: que vistes

Que vos vejo tristes?

Dizei-me, meus olhos,

Quem vos agravou?

Quem vos trespassou

Com duros abrolhos?

Por certo que em molhos

Nunca vi, se aí vistes

Lágrimas tão tristes.

Se chorais de Amor

Suas esperanças

Ditosas lembranças

Mais ditosa dor!

Mas se é desfavor

Dizei-me o que vistes

E não sereis tristes.

Porém, se em enganos

Viveis enganados

Não queirais cuidados

De quem vêm tais danos.

Deixai passar anos

Com o bem que vistes

E não sereis tristes.=

Dia Mundial da Poesia 2017

postal Natal 2017