Os reis de Castela e o reino de Aragão

sobre “Os reis de Castela e o reino de Aragão”

CHRONICA DE D. MANOEL escrita por Damião de Goes; 1749; PDF — pp. 44–71

Capítulo XXX

De como os reis de Castela e Portugal partiram de Toledo para o reino de Aragão e chegaram a Saragoça.

Acabadas as cortes de Toledo, o rei Dom Fernando despediu os procuradores das cidades e vilas do reino de Castela e assim os mais senhores e pessoas principais e deu despacho aos requerimentos que andavam na corte. Nisto se passaram 18 dias, após os quais partiram os reis para Saragoça quase aforrados, tanto eles como alguns senhores que consigo levaram e por suas jornadas chegaram à vila de Chincõ que era do Marquês de Moy, tesoureiro-mor do rei, de quem assim os reis e rainhas, Dom Fernando e Dona Isabel, reis de Castela e os reis de Portugal, Dom Manuel e Dona Isabel, príncipes herdeiros de Castela e Leão, como os que com eles iam, foram tão festejados que a todos fez espanto a abundância das carnes e riqueza dos ornamentos e paramentos da sua Casa. Ali estiveram quatro dias, após os quais partiram para Alcalá de Henares, vila do arcebispo de Toledo. De Alcalá foram a Guadelajara, lugar onde o Duque do Infantado tem uns paços, nos quais estava doente em cama, de quem os reis e toda a corte foram muito festejados. Ali estiveram três dias e ficaram nas casas que foram do Cardeal Dom Pedro Gonçalvez de Mendonça, irmão do mesmo duque, que já era falecido. Os reis e rainhas foram visitar o duque a sua casa e jazendo na cama jurou os príncipes e lhes deu a sua menagem.

De Guadelajara foram a Calautad, primeira cidade do reino de Aragão, onde se lhes fez um sumptuoso recebimento e os vieram receber muitos dos senhores e nobres do reino. Dali chegaram a Saragoça ao primeiro dia de Junho do mesmo ano de 1498, onde o rei Dom Fernando com a rainha Dona Isabel, sua esposa, entraram antes de comer sem nenhuma festa, por trazerem ainda dor pelo príncipe Dom João, seu filho. O rei Dom Manuel e a rainha Dona Isabel, sua esposa, desceram nuns paços que os reis de Aragão têm fora da cidade, a que chamam Aljofraria e ali jantaram e no mesmo dia, a horas de vésperas, entraram na cidade, onde lhes foi feito um solene recebimento, com muitas cerimónias ao modo do reino de Aragão que nestes actos tem demasiadas.

Feita a entrada, quisera o rei Dom Fernando que, logo ao outro dia que era domingo, os príncipes, Dom Manuel e Dona Isabel, filha de Dom Fernando e de Dona Isabel, fossem jurados, mas os aragoneses não lho consentiram, sob o que houve muitas altercações, escusando-se ao rei e afirmando que não podiam fazer tal juramento sem estarem presentes os deputados de Valença e de Barcelona e Dom Fernando tornou a apertar com eles. Por fim, responderam-lhe que jurariam os príncipes se ele, Dom Fernando, lhes confirmasse de novo alguns privilégios que lhes tinha retirado. O rei desenganou-os, afirmando não lhes querer conceder o que pediam e consequentemente eles afirmaram não jurar os príncipes e nisto se passaram muitos desgostos e paixões durante três meses.

Destas diferenças, uma das principais foi dizerem que, no reino, não podia suceder mulher, mas só varão e que este havia de ser por eleição dos Estados-Gerais do reino, quando Deus ordenasse não deixar o rei filho-varão herdeiro. Para jurarem a princesa, eles não o podiam fazer sem os de Valença e Barcelona. Só por este respeito dilatavam a sua vinda, o que era sinal manifesto de não quererem consentir no tal juramento. Todas estas diferenças se averiguaram com a nascença do príncipe Dom Miguel e morte da rainha, sua mãe, como logo se escreverá.= ( p.45)

Capítulo XXXII

De como a rainha deu à luz um filho e morreu deste parto.

A rainha Dona Isabel, esposa de Dom Manuel, Princesa de Castela era maldisposta e a sua principal doença procedia de heteguidade porque sentindo o fim da sua gravidez com sinais de que se lhe podia recear a morte, fez o seu testamento em que deixou o rei, seu marido como testamenteiro.

A 24 de Agosto do ano do Senhor de 1498, dia de São Bartolomeu, andando Dona Isabel, esposa do rei Dom Manuel, nestes temores, deu à luz com muitos trabalhos um filho, a que chamaram Dom Miguel, príncipe herdeiro dos reinos de Portugal, Castela, Leão, Sicília e Aragão. Na altura em que a princesa deu à luz estavam presentes o rei Dom Fernando, a rainha Dona Isabel, o rei Dom Manuel e teve-a nos braços Dom Francisco de Almeida. Foi tanto o prazer e alvoroço deles que o rei Dom Fernando saiu do quarto e disse a alta voz com muita alegria a todos os senhores e cavaleiros que estavam na outra casa de fora “Dêem Graças a Deus que temos filho-varão.” Com esta nova, sabida pela cidade, começaram a repicar sinos e fazer cada um a festa que tal nova requeria, mas tudo se converteu logo em muita tristeza porque o rei Dom Fernando, tornando à câmara onde estava a rainha, sua filha, a achou morrendo devido ao sangue que se lhe soltara sem lho poderem estancar e já destituída dos sinais vitais, a tomou nos braços, lembrando-lhe o que convinha à sua alma até que expirou.

Esteve a rainha vestida nos mesmos vestidos que tinha quando deu à luz até à meia-noite quando a levaram a enterrar a um Mosteiro da Ordem de São Jerónimo que está fora da cidade. Morta a rainha-princesa, o rei Dom Manuel começou logo a tratar do que cumpria aos legados que deixara em seu testamento, o que tudo acabou na mesma cidade de Saragoça, donde despedindo-se com muito amor dos reis Dom Fernando e Dona Isabel, partiu a oito de Setembro, acompanhado de alguns senhores castelhanos e em especial do Patriarca de Alexandria e em Aranda do Douro encontrou o Condestável e o duque de Alba que ficaram por regentes do reino de Castela. O duque e o patriarca com outras pessoas principais acompanharam Dom Manuel até Almeida, primeira vila de Portugal. Dali veio o rei a Coimbra e de Coimbra a Lisboa, onde chegou a 09 de Outubro e foi recebido com grande contentamento pela Infanta Dona Beatriz, sua mãe, e pela rainha Dona Leonor, sua irmã e por todos os que ali estavam presentes e o mesmo contentamento aconteceu por todo o reino pela nova do seu regresso. = (p. 46)

Capítulo XXXIV

De como o príncipe Dom Miguel foi jurado e dos privilégios que em seu nome o rei outorgou ao reino.

Capítulo XXXIV

De como o príncipe Dom Miguel foi jurado e dos privilégios que em seu nome o rei outorgou ao reino.

Depois que Dom Manuel esteve em Lisboa, foi alguns dias a Sintra e dali mandou aos prelados, senhores e procuradores do reino que se juntassem em Lisboa, no mês de Fevereiro do ano seguinte de 1499, para jurarem o príncipe Dom Miguel, seu filho, por herdeiro dos reinos de Portugal porque o mesmo já tinha sido feito em Castela e Aragão e assim o tinha sabido por cartas dos reis de Castela que sobre isso lhe escreveram, pedindo-lhe que, para sossego dos reinos, quisesse logo fazer o mesmo. O rei esteve em Sintra até ao fim do mês de Janeiro e dali veio para a cidade, onde já se começavam a juntar os Estado-Gerais do reino e a 07 de Março do mesmo ano, fizeram todos juramento ao príncipe Dom Miguel nas mãos do rei, seu pai, no alpendre do Mosteiro de São Domingos. Contudo antes de o fazerem, foi requerido ao rei pelos Estados Gerais que, se Deus houvesse por seu serviço que os reinos de Portugal e Castela por este juramento ficassem juntos, que ele lhes prometesse em nome do príncipe, seu filho, que nunca o regimento da justiça e fazenda dos reinos (ministérios da Justiça e da Administração Interna) e senhorios de Portugal em qualquer tempo e por qualquer caso que no futuro pudesse suceder, fosse dado nem concedido senão a portugueses e o mesmo das capitanias dos lugares de África, alcaides-mores de vilas e castelos; o que o rei lhes concedeu em nome do príncipe, seu filho, e disso lhes mandou passar privilégio assinado por sua mão com selo pendente em que há muitas outras cláusulas com declaração que tivessem para sempre força de lei como se contém no dito privilégio.= p.48

Capítulo XLV

Da morte do príncipe Dom Miguel.

No ano de 1500, estando o rei Dom Manuel em Sintra, recebeu um recado dos reis de Castela, informando-o de que o príncipe Dom Miguel, seu filho e da rainha-princesa Dona Isabel, sua esposa, falecera no dia 19 de Julho, na cidade de Granada com 22 meses. O rei mostrou pouco sentimento e o mesmo se fez em Castela porque nem lá nem cá se pôs por ele luto nem se fizeram por seu falecimento as costumadas cerimónias que se usam fazer por tais príncipes quando morrem.= p. 70

Capítulo XLVI

De como rei casou com a infanta Dona Maria.

Morto o príncipe Dom Miguel e passados já um ano e dez meses que o rei Dom Manuel era viúvo, os reis de Castela, desejosos da sua aliança, mandaram sondar secretamente por pessoas religiosas um casamento seu com a Infanta Dona Maria, sua filha, porque a Infanta Dona Joana, mais velha, era já casada com Dom Filipe, arquiduque da Áustria, senhor dos Estados da Flandres. Os reis de Castela tinham ainda duas filhas solteiras: Dona Maria e Dona Catarina (que depois veio a casar com o rei Henrique Oitavo de Inglaterra) que desejavam casar com Dom Manuel, mas Dona Maria era a mais velha das duas, mas o rei Dom Manuel escusou-se por algumas vezes.

Depois da morte do príncipe Dom Miguel, vendo quão necessário era voltar a casar-se e que em nenhuma parte podia ter melhor candidata nem que fosse mais útil a ele e a seus reinos do que Castela, aceitou estes recados e sobre eles mandou Dom João Manuel, seu camareiro-mor, por embaixador aos reis de Castela, o qual sem ter acabado esta sua tarefa, faleceu em Castela de doença, o que deixou o rei Dom Manuel muito triste e sentindo muito a sua morte pelo seu voluntarismo e por ter sido criado na sua Casa. Para as exéquias, o rei Dom Manuel encarregou Rui de Sande, homem fidalgo e bom cavalheiro, pessoa muito bem aceite na corte de Castela pelos bons serviços que lhes fizera nas guerras de Granada. Relativamente ao contrato de casamento, houve pouca dificuldade porque os reis de Castela estavam desejosos de fazer este casamento; tiveram sobre ele poucos conselhos que depois de aceites e obtida a dispensa em Roma por causa do parentesco que entre eles havia, a Infanta Dona Maria fez seu único procurador Dom Álvaro, irmão do duque Dom Fernando de Bragança que nesta altura estava em Portugal, para em seu nome, receber o rei por seu marido por palavras de presente como se fez em Lisboa, uma segunda-feira, Dia de São Bartolomeu, dia vinte e quatro de Agosto deste ano de 1500, no qual se cumpriam dois anos que a rainha-princesa falecera em Saragoça.

Os reis de Castela deram como dote à sua filha duzentas mil dobras de ouro, cerca de trezentos e sessenta e cinco maravedis cada dobra, pagas nos três anos seguintes, depois do matrimónio consumado e para sustento do seu estado deram-lhe, cada ano, quatro mil e quinhentos maravedis das rendas de Sevilha e assim que souberam de o rei Dom Manuel a ter recebido pelo seu procurador, lhe ordenaram que fosse para a sua casa (a do seu marido). O que feito, a Infanta Dona Maria partiu da cidade de Granada no fim do mês de Outubro deste ano de 1500 e fez a sua entrada neste reino de Portugal pela vila de Moura. A pessoa principal que a acompanhou até à raia (= fronteira) de Portugal foi Dom Diogo Furtado de Mendonça, arcebispo de Sevilha e patriarca de Alexandria. Aqueles que o rei Dom Manuel mandou para a irem receber foram Dom Jaime, duque de Bragança, a quem o patriarca a entregou por para isso levar a procuração e os outros foram Dom Álvaro e Dom Afonso, bispo de Évora, seus tios e Dom Rodrigo de Melo que depois foi Conde de Tentúgal e marquês de Ferreira, filho mais velho do dito Dom Álvaro, sendo ainda rapazinho de pouca idade e Dom Francisco Coutinho, conde de Marialva e de Loulé com muitos outros fidalgos e cavalheiros. De Moura, veio a rainha-mãe a Alcácer do Sal, onde o rei Dom Manuel a estava esperando e nesse mesmo dia, dia 30 de Outubro, o mesmo bispo de Évora os casou.

Acabadas as festas que em Alcácer do Sal se fizeram a tão real e bem-aventurado casamento, o rei Dom Manuel e a rainha Dona Maria partiram para Lisboa onde se renovaram as festas e foram levados da Ribeira com muitos triunfos até à e daí aos paços de Alcáçova que, até àquela altura, foram o verdadeiro e próprio aposento dos reis de Portugal.

Depois do rei ter casado fez mercê a Rui de Sande pelos serviços que lhe fizera neste casamento do título de “Dom” para ele e todos os seus descendentes e o cargo de vedor (= administrador) da Casa da Rainha (Dona Maria), além de muitas outras mercês, tenças, dinheiro e ordenados. Os reis de Castela também o quiseram recompensar dando a Rui de Sande o hábito (= vestimenta) de Santiago com uma comenda.

Neste mesmo ano, depois do rei Dom Manuel ter casado, acrescentou-se ao título que tinha de rei de Portugal e do Algarve, de aquém e além-mar em África, senhor da Guiné, o titulo da conquista, navegação e comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e da Índia, título tão honroso quanto o é a mesma conquista. = p. 71

Transcrita para o português actual por Maria Carmelita de Portugal

Lagos, 25 de Janeiro de 2017

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