Viagens Marítimas Portuguesas em 1503

PRIMEIRA PARTE DA CRÓNICA

sobre “Viagens Marítimas Portuguesas em 1503”

CHRONICA DE D. MANOEL escrita por Damião de Goes e encomendada por Dom Rodrigo António de Noronha e Menezes; 1749; PDF — pp. 99 –100.

Capítulo LXV

Da armada que mandou à Índia, capitães Afonso de Albuquerque e Francisco de Albuquerque e da ida de Gonçalo Coelho à terra de Santa Cruz.

No ano de 1503, o rei Dom Manuel mandou à Índia, por capitão de três naus, Afonso de Albuquerque e Francisco de Albuquerque, seu primo, por capitão de outras três naus.

Neste mesmo ano, o rei mandou Gonçalo Coelho com seis naus a terra de Santa Cruz e este partiu do porto de Lisboa no dia dez de Junho. Destas seis, por ter pouca informação sobre esta terra, perdeu quatro. As outras duas naus trouxe-as ao reino de Portugal carregadas com mercadorias da terra que na altura eram pau-vermelho, a que chamam Brasil, búzios e papagaios.

Capítulo LXVI

De como o rei mandou duas naus em busca dos Corte-Real que se perderam indo a descobrir para os lados do Norte.

Gaspar Corte-Real, filho de João Vaz Corte-Real, foi homem aventureiro, esforçado e desejoso de ganhar honra. Por isso propôs ao rei Dom Manuel ir descobrir terras para os lados do Norte porque para o sul, tinham outros já descoberto muitas e assim, do seu próprio dinheiro como de mercês que o rei lhe fez, tendo já sido seu criado como duque de Beja, armou uma nau muito bem equipada de gente e do que se estabelecia necessário e partiu do porto de Lisboa no início do verão de 1500.

Nesta viagem, descobriu uma terra que, por ser muito fresca e de grandes arvoredos como o são todas as que ficam para aqueles lados, lhe pôs o nome de Terra Verde. A gente desta terra é muito bárbara e agreste quase do modo dos da terra de Santa Cruz, só que são brancos e tão curtidos pelo frio que a alvura se lhes perde com a idade e ficam como que baços. São de estatura mediana, muitos ligeiros e grandes flecheiros. Servem-se de paus tostados em lugar de azagaias com que ferem de arremesso como se os paus fossem forrados de aço fino. Vestem-se de peles de alimárias (animal) que lá existem muitas. Vivem em cavernas de rochas e choupanas. Não têm lei, crêem muito em agouros. Guardam matrimónio e são muito ciosos das suas esposas. Nisto parecem-se com os Lapões (da Lapónia) que também vivem no Norte, de setenta a oitenta e cinco graus (paralelos), sujeitos aos reis da Noruega e Suécia, a quem pagam tributo, ficando sempre na gentilidade (gentios) por falta de doutrina religiosa.

Regressando a Gaspar Corte-Real, depois de ter descoberto esta terra e custeado uma boa parte dela, regressou ao reino de Portugal e logo no ano de 1501, desejoso de descobrir mais desta província e conhecer melhor o modo de vida e os relacionamentos nela, partiu de Lisboa no dia 15 de Maio, mas o que nesta viagem se passou não se sabe porque nunca mais apareceu nem se soube nada dele. Porque tardava muito a regressar e havia má suspeita de que esta viagem tinha corrido mal, Miguel Corte-Real, porteiro-mor do rei, sofria muito com a sua demora e, pelo grande afecto que tinha a seu irmão, decidiu ir buscá-lo. Partiu do porto de Lisboa no dia dez de Maio de 1502 com duas naus e também dele nada mais se soube.

O rei sentiu muito a perda destes dois irmãos, por terem sido criados perto dele e movido pela sua verdadeira piedade, no ano seguinte, 1503, mandou duas naus, armadas à sua custa, para ir buscá-los, mas nem de um irmão nem do outro se pôde nunca saber onde nem como se perderam pelo que se pôs àquela província da Terra Verde, onde se acredita que estes dois irmãos se perderam, a terra dos Corte-Real. Tinham estes dois irmãos, Gaspar e Miguel Corte-Real, outro irmão mais velho do que eles a que chamavam Vasco Anes Corte-Real que era vedor da Casa do rei, do seu Conselho, capitão e Governador das ilhas de São Jorge e Terceira e alcaide-mor da cidade de Tavira. Muito bom cavalheiro, bom cristão, homem de singular exemplo de vida e de muitas esmolas, públicas e secretas, cujo filho herdeiro é Manuel Corte-Real, também do Conselho do rei e capitão das mesmas ilhas que ainda vive actualmente. Este Vasco Anes Corte-Real, não se podendo conformar e aceitar que os seus dois irmãos estavam mortos, neste ano de 1503, decidiu ir buscá-los com naus à sua própria custa, mas tendo o rei como escusada a sua ida, não lho consentiu nem se procedeu mais neste empreendimento por se ter por desnecessária toda a despesa que nisto se fizesse.= p. 100

Capítulo LXVII

De como o rei Dom Manuel fez cortes em Lisboa e do serviço que os povos lhe fizeram para ajuda das repartições dos lugares de África e outras despesas necessárias.

No verão de 1503, após a partida das naus para a Índia, o rei mandou vir os procuradores das cidades e vilas a Lisboa e também todos os prelados e senhores que se reuniram nos paços da Alcáçova. Os Estados presentes neste Conselho propuseram os artigos que lhes pareceram ser necessários para o bem do reino de Portugal, aos quais o rei respondeu a cada um segundo o que deles requeria.

Nestas cortes, os procuradores das cidades e vilas concederam ao rei, para ajuda dos gastos e despesas que fazia nos lugares de África, cinquenta mil cruzados (moeda portuguesa da altura), escusando-se por não poderem mais devido às fomes passadas e carestia (preços elevados) de todas as coisas. O reino estava tão pobre e necessitado que não se atreviam a fazer-lhe o serviço que desejavam e para recolherem o dinheiro estabelecido, o rei deu-lhes termos largos e suficientes para o fazerem sem extorquirem aqueles a que a obrigação deste serviço tocava.= p. 100

Capítulo LXXXI

Da viagem que António de Saldanha fez à Índia e do que se passou até lá chegar.= p. 118

Depois da partida de Afonso de Albuquerque e de Francisco de Albuquerque, o rei mandou três naus à Índia que antes que eles partissem se aprontavam e deu a capitania a António de Saldanha. Os outros capitães que levava debaixo da sua bandeira eram Rui Lourenço Ravasco e Diogo Fernandes Pereira de Setúbal. O rei ordenou que esta armada se destinava a vigiar desde o cabo de Guardafum até às portas do estreito do mar da Arábia.

As três naus, depois que partiram do porto de Belém, Lisboa, em 1503, passaram por Cabo Verde, com temporal e a nau de Diogo Fernandes Pereira perdeu-se da companhia sem mais a verem e esta foi ter à costa de Melinde, onde fez algumas presas e dali se foi a invernar na ilha de Sacotora onde nenhuma das nossas naus tinha ido lá antes. Depois de ter passado lá o inverno, foi ter à Índia quando Lopo Soares de Alvarenga estava prestes a partir para o reino de Portugal.

António de Saldanha, seguindo a sua viagem, por má navegação e negligência do piloto, foi ter à ilha de São Tomé, donde depois que partiu se apartou dele, com temporal, Rui Lourenço Ravasco que ele depois encontrou em Melinde, fazendo guerra ao rei de Mombaça a favor do rei de Melinde.

Navegando António de Saldanha em busca do cabo da Boa Esperança, o piloto levou-o aquém deste, a uma enseada, dando-lhe a entender que o tinha passado. Nesta enseada abasteceu-se de água e deu-lhe o nome de Saldanha. Partindo dali, dobrou o cabo, seguindo a sua viagem.

Quando Rui Lourenço Ravasco se apartou dele foi ter a Moçambique e dali a Quíloa, onde esperou vinte dias por António de Saldanha. Vendo que este não vinha, foi à ilha de Zanzibar que fica aquém de Mombaça vinte léguas. Entre a ilha de Zanzibar e terra firme há tão pouca distância que não pode passar nenhuma nau sem se ver de ambas as partes.

Deixou-se andar por ali dois meses em que tomou mais de vinte zambucos que iam carregados de mantimentos para Zanzibar. A maior parte destes zambucos resgatou a dinheiro, mas com que acção podia ele fazer isto, defendam o mau direito da guerra e a sua tirania porque o senhor de Zanzibar está em paz com os portugueses e nunca dele recebêramos dano. Feitos estes danos com os quais este capitão assim como outros portugueses deram mais azo a sermos malquistos em toda a costa da Etiópia, Arábia, Pérsia, Índia até China que bem-queridos ou amados, Rui Lourenço Ravasco chegou à ilha e foi ancorar diante da cidade de Zanzibar e o senhor dela logo mandou perguntar se era ele o capitão português que lhe fazia guerra, sendo ele amigo do rei de Portugal e lhe tomava os navios que vinham em paz para aquela sua cidade carregados de mantimentos. Contudo pedia-lhe que do passado não fizesse caso, mas que lhe devolvesse a artilharia que tomou dos zambucos.

A este recado respondeu Rui Lourenço Ravasco mais asperamente do que convinha, não tendo em conta tão justa e honesta petição. Seguiu-se o senhor de Zanzibar mandar sobre ele alguns paraus armados e equipados de gente, dos quais Gomes Carrasco, escrivão da nau e Lourenço Feio tomaram com o batel da nau quatro que trouxeram à nau e os outros desbaratados regressaram a terra e os nossos ainda lhe mataram alguns às bombardas entre os quais foi um filho do mesmo senhor de Zanzibar que, temendo que lhe fizessem mais dano, lhe mandou pedir paz.

Rui Lourenço Ravasco tomou o recado na sua nau, cuja substância foi que queria ter paz com o rei de Portugal, apesar da perda que tinha recebido e da morte do seu filho e dos que com ele morreram. Rui Lourenço concedeu-lha, ficando ele tributário cada ano em cem meticais de ouro, pagando logo os daquele ano.

Feitas estas pazes, Rui Lourenço se foi para Melinde em busca de António de Saldanha. Lá encontrou o rei, nosso amigo, de guerra com o rei de Mombaça por causa da amizade que tinha com os portugueses. Por parecer bem ao rei de Melinde, Rui Lourenço Ravasco se foi lançar diante da cidade de Mombaça onde tomou duas naus e três zambucos em que vinham doze mouros, pessoas principais da cidade de Brava situada abaixo de Melinde cem léguas. Atrás daquela armada, seguia uma nau desses mouros carregada de mercadorias. Com medo que Rui Lourenço lha tomasse também, além de pagarem o resgate das suas pessoas obrigaram-se a fazer a cidade de Brava tributária ao rei Dom Manuel em quinhentos meticais de ouro cada ano, pedindo logo a Rui Lourenço uma bandeira das armas do reino para dali por diante poderem navegar seguros das nossas armadas, que lhe foi dada. Estando nestes acordos, chegou a mesma nau ao porto e Rui Lourenço entregou-a livremente sem dela querer tomar coisa nenhuma, pelo que se apartaram dele muito contentes.

Andando assim ocupado Rui Lourenço, chegou António de Saldanha a Mombaça com três naus que tomara depois que partira de Quíloa. O rei de Mombaça, temendo maiores danos pelo mar do que os que já tinha recebido, fez pazes com o rei de Melinde. Depois destas estabelecidas e juradas, António de Saldanha e Rui Lourenço partiram para a Índia, onde chegaram com algumas presas que fizeram desde a cidade de Mete que fica além do cabo de Guardafum até às ilha Canacania e de Anchediva.= p. 119

Transcrita para o português actual por Maria Carmelita de Portugal

Lagos, 01 de Maio de 2017

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