A imagem: uma ferramenta de propagação da violência

Dora Maar por Izis, 1946.

Desde os meus primeiros contatos com a fotografia, vi a imagem como uma maneira de contar histórias e expor realidades. Para além da questão técnica - enquadramento, luz e todos esses pormenores necessários para uma boa foto -, eu enxergava sempre a escrita que me apontava para um universo que passava ali, pelas lentes da câmera. Fosse o retrato de alguém querido, fossem os registros fotográficos de acontecimentos importantes estampados nas páginas de uma revista.

Quando entrei para a faculdade de Comunicação, esse pensamento se expandiu e passou a fazer mais sentido para mim. E foi então que abri os olhos para algo que é histórico, mas ainda assim atual: um jornalismo muitas vezes mentiroso, excludente, onde se vê pouquíssima humanidade. Considerando que existem "jornalismos", no plural, importante ressaltar.

A fotografia (ou a imagem em seus diversos aspectos) também se enquadra nessa perspectiva violenta. No texto "A imagem como violência", presente no livro Lendo Imagens, o autor Albert Mangel elucida a história contida na obra Mulher Chorando (1937), de Pablo Picasso. A personagem do quadro seria uma representação de Dora Maar, fotógrafa e amante do pintor espanhol. Mangel revela, no texto, o Pablo misógino, que humilhava e abusava emocionalmente e psicologicamente de Maar para retratá-la chorando em seus quadros.

“Mulher Chorando”, Pablo Picasso, 1937.

Albert Mangel também cita a tão aclamada obra Guernica, pintada por Pablo Picasso nos anos trinta e que representa o bombardeio sofrido pela cidade espanhola que dá nome à pintura. Nela, há uma mulher chorando ao segurar o filho morto, talvez um dos elementos que mais se destacam em Guernica. No entanto, segundo Mangel, essa personagem nada mais é do que uma representação de Dora Maar.

Logo após o primeiro contato com esse texto e com a angústia que ele me causou, me lembrei de uma palestra que assisti recentemente, sobre comunicação visual. Nela, o professor Celso Guimarães, que estuda um método de análise de imagem chamado Gestalt,descreveu métodos um tanto pragmáticos para se fazer e observar uma fotografia. São aspectos estéticos, convertidos em formas geométricas que buscam dar harmonia à imagem, além de destacar perspectivas que influenciam na apreciação da mesma. Muito boa, por sinal. Porém, me incomodou tamanho tecnicismo.

Vejo como algo de suma importância conhecer o contexto que se encontra em uma obra e acho perigoso separar a estética e o social/político ou simplesmente o porquê daquele clique ter sido feito. É por conta dessa dissociação que ignoramos casos como o de Pablo Picasso e que fechamos os olhos para vítimas como Dora Maar. Sem esse questionamento, uma imagem é apenas uma imagem, que nada diz além da beleza de suas formas.

“As explosões nervosas da presidente”, Revista IstoÉ, 2015.

Entretanto, é possível analisar, através do Gestalt, diversas imagens que muito dizem sobre a distorção da realidade. O enquadramento de uma fotografia que retrata autoridades políticas, por exemplo, é capaz de representar essas pessoas de diversas maneiras. Como estamos falando também sobre misoginia, podemos citar o caso do impeachment da Dilma Rousseff. Durante todo o processo, o que víamos expostos nas revistas e sites jornalísticos eram retratos que buscavam mostrar uma mulher incapaz de presidir o país. E, convenhamos, o jornalismo conseguiu muito bem, através da fotografia, construir essa "realidade".

Portanto, já que a imagem é uma representação do real, se faz necessário esse entedimento e a compreensão do poder que ela possui. Não só como um método questionador, mas também preventivo. Até porque, seja Pablo Picasso, seja a revista IstoÉ ou o mau jornalismo que ainda circula: quem nos garante que não seremos nós os propagadores de violências?