A F1 que dá saudades

Primeira parte do que a F1 causa no coração deste jovem

Desde que me entendo por gente, sou maluco por Fórmula 1. Devo ao meu pai o legado dessa paixão pelo automobilismo. Pelo que minha memória permite refrescar, a temporada 2002 é a primeira que rega minhas lembranças, embora em minha cabeça tenha alguns relances de imagens da temporada 2001 — em especial, o grave acidente que encerrou a carreira de Luciano Burti na F1.

Dos pilotos brasileiros daquela época, além de Burti (confesso que me recordo apenas de sua passagem na Prost em 2001, tenho poucas memórias de vê-lo Jaguar), lembro bem de Tarso Marques, na Minardi, de Enrique Bernoldi, na Arrows (que tinha um maravilhoso patrocínio da Orange), e não poderia faltar Rubens Barrichello, então escudeiro de Michael Schumacher na Ferrari.

(Um adendo! Por mais que não me lembrasse, seria injusto não citar Ricardo Zonta, piloto da Jordan em 2001.)

Barrichello foi meu primeiro ídolo no automobilismo e é meu maior ídolo no esporte a motor até hoje. Mesmo tendo lido em livros e jornais, assistido na tevê, e ouvido de pessoas próximas a respeito da história de Ayrton Senna, não posso considerar o tricampeão mundial um ídolo de facto. Aí vem a pergunta: por quê? Pelo simples motivo de jamais tê-lo visto em vida. Posso considerá-lo hors concours, por tudo que realizou e simbolizou para o automobilismo brasileiro, mas jamais fará frente ao que a figura de Rubens Barrichello simbolizou para mim na F1.

Rubinho em sua primeira vitória na F1, no GP da Alemanha de 2000 — Hockenheim

Nos primeiros anos de aficionado, ainda era uma criança de cinco para seis anos. Só tinha um meio para assistir a Fórmula 1, a TV Globo. Fui educado pelas transmissões a torcer pelos brasileiros e a vilanizar e desmerecer indiscriminadamente Michael Schumacher, o então companheiro (e antagonista) de Rubens Barrichello na Ferrari. Com o tempo, deixei os exageros dessa bobagem pra trás e passei a compreender o tamanho do alemão para a categoria. Aquela Ferrari dos anos 2000 dominou de forma absoluta a Fórmula 1 e era um carro espetacular. E, ah, como era lindo ouvir o som dos motores V10!

Inevitavelmente, uma polêmica ficou marcada na minha memória de início de acompanhamento da F1. O vergonhoso “hoje não, hoje sim” é algo que jamais sairá da cabeça de qualquer fã de Fórmula 1. Não tenho estômago pra rever aquela cena por vontade própria. Rubinho vinha para uma vitória certa, pilotando muito bem no A1 Ring. O medo de que a Ferrari o obrigasse a ceder o posto a Schumacher só aumentava e isso aconteceu na reta de chegada. Terrível!

Dentro de todas as críticas que se pode fazer a Rubens Barrichello, apenas uma me incomoda: a de que ele é um fracassado. É a maior maldade e injustiça do mundo contra Barrichello. Chegar na F1 é um processo cada vez mais difícil. Vencer um Grande Prêmio de Fórmula 1 é um feito para poucos, sem falar que muitos pilotos fariam loucuras para guiar pela Ferrari. E o que dizer de ter sido duas vezes vice-campeão da categoria mais importante do automobilismo mundial? É expressivo, sim!

A mania do fã médio brasileiro de desmerecer os quases, como se isso anulasse qualquer qualidade, é que mostra a injustiça de chamar Barrichello de fracassado. Isso se estende a Felipe Massa, também. Dois brasileiros unidos pela coincidência de terem 11 vitórias na Fórmula 1, terem sido escudeiros de gênios do esporte (Schummy e Alonso) e terem sido vice-campeões.

Turma da pesada

Massa foi um piloto muito arrojado e com espírito de campeão, mas que, após seu acidente em Hungaroring, em 2009, demorou para se recuperar do baque — o que é compreensível. Após o caso “Fernando is faster than you”, Massa perdeu muito desse espírito e vive de lampejos.

Em 2006, pude sentir em Felipe Massa um bom futuro para o automobilismo brasileiro, quando o paulista chegou à Ferrari. Sob o guarda-chuva de Schumacher, cresceu e mostrou talento. Venceu o GP do Brasil naquele ano, vestindo um macacão verde-e-amarelo (coisa que a Ferrari permitiu), e sendo o primeiro brasileiro a vencer em casa na F1 desde Senna, 13 anos antes.

Amanhã, trago a segunda de quatro partes das memórias boas (e ruins) que a F1 traz desde que me entendo por gente.

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Maurício Colares Simões

Written by

Escriba, locutor, jornalista e adorador de futebol, automobilismo, MMA e futebol americano.

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