Brilha, brilha Diamandis

Tem coisas nessa vida que a gente precisa de um certo distanciamento pra ver melhor. Tem outras que quanto mais perto, quanto mais imerso, mais claramente enxergamos, como se pudéssemos ver com o coração. Pra falar do que foi o show de Marina and the Diamonds no festival Lollapalooza que aconteceu dia 12 de março em São Paulo, é preciso os dois. Por isso, levei algum tempo até pensar em como descrevê-lo.

“Better to be hated than loved for what you’re not”

Sendo fã ou não, foi inegável a decepção com a cantora em 2015, quando ela cancelou em cima da hora sua apresentação no mesmo festival. Era triste ver pessoas que vieram de outros países da América Latina, de outros estados do Brasil, apenas pra vê-la de perto e não teriam sua recompensa por um ingresso tão caro. Marina foi hostilizada por alguns, virou piada pra outros, mas se desculpou e seguimos em frente esperando a próxima oportunidade de vê-la em ação.

Apesar de tudo, a verdade é que ela tinha acabado de lançar seu terceiro álbum – “Froot”– e as músicas ainda não estavam maduras o suficiente pra renderem uma boa apresentação. Ela já havia feito algumas apresentações com a turnê, mas os fãs ainda estavam se habituando às novas letras, presos às antigas.

Quando Marina foi anunciada como atração para 2016, muita gente comprou seu ingresso com certo receio de que novamente iria levar um cano. Eu fui uma delas, a ponto de jurar pra mim mesma que nunca mais ouviria nenhuma música dela caso ela repetisse o feito, seria muita falta de consideração com o público que ansiava para ver e ouvir músicas que são tão significativas pra quem acompanha o trabalho da cantora. A coisa era tão desesperadora que, quando ela chegou no aeroporto, haviam pessoas esperando por ela e, pra alívio geral, postaram selfies com legendas ao estilo “Ela veio”.

Veio. E quando ela surgiu no palco aquela noite, foi emocionante.

“Would you do anything for me?”

“I am finally here”, ela disse. Quando sorria, Marina transparecia muita emoção, uma felicidade genuína por estar ali, encontrando seu público no Brasil. Delirando, desde a primeira música, as pessoas pulavam, gritava, sorriam, dançavam e o clima era de festa. A cantora sabia o quanto era esperada mas a recepção calorosa parece tê-la surpreendido. Ela teve, durante todo o show, o público em suas mãos.

Trazendo o repertório, os efeitos e os três atos da Neon Nature Tour, ela começou por canções mais antigas, presentes em “The Family Jewls”, seu álbum de estréia de 2010. Infelizmente, ela não cantou um de seus maiores sucessos, “Obsessions”, mas quem ousaria reclamar quando, após uma troca rápida de figurino, ela surgiu de pompons em mãos para trazer “Bubblegum Bitch” e as músicas de seu segundo – e mais emblemático – álbum, “Electra Heart”, de 2012.

“I’ve been saving all my summers for you”

Depois de delirar com várias músicas, das mais dançantes à balada “Lies”, o ato final trouxe as músicas de “Froot”, com a faixa que dá nome ao álbum e outros novos hits, que agora são tão familiares aos fãs e eram cantados também a plenos pulmões. Ver adolescentes cantando “Savages”, uma música que nem é tão popular desse álbum, me fez ter a certeza de que Marina ainda terá fôlego pra muitos anos de carreira.

Com um pouco mais de uma hora de apresentação, “Blue” encerrou o show e o primeiro dia de festival. “Unfortunately, that’s our last song, but I want to say ‘Thank you’! This kick feels like what I’ve waited to do my whole carreer and I cannot thank you enough”.

“Gimme love, gimme dreams”

O riso se misturava às lágrimas. A sensação de ter realmente feito parte de uma noite inesquecível era a melhor possível. Todos ali compartilhavam da imensa alegria de ter podido estar ali, naquele momento, após lavarmos a alma com Marina. Seu sorriso, sua energia, sua presença, seus olhos marejados depois de uma apresentação incrível. Valeu a pena esperar um ano inteiro por aquela verdadeira celebração entre uma artista e seus fãs.

Em uma entrevista feita antes do espetáculo e divulgada após o festival, a cantora disse que planeja uma pausa na carreira, que está cansada da indústria musical mas que, provavelmente, vai pensar em algo pra trazer no futuro. O que podemos dizer é que esperamos que não seja uma pausa longa e que logo possamos novamente nos encontrar com aquela que, mesmo se reinventando álbum após álbum, continua impactando seu público com canções que fazem dançar, pensar e sentir sobre nossas relações com os outros e com o mundo.

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