A política brasileira e as muletas metafísicas

“Deus está morto

A frase de Nietzsche, por mais famosa que seja, é obviamente improcedente. Está ali só pra cutucar. Se Deus existe, não pode morrer. Se Deus morre, não é Deus. O autor previa o fim de uma forma de pensar, hoje chamada por seus estudiosos de estrutura religiosa do pensamento. E uma única coisa caracteriza este tipo de pensamento: ele é binário.

Vou destrinchar sugerindo uma quase-fórmula: é religioso qualquer pensamento que exclua a possibilidade de nuances entre si e seu oposto. Não tem como ‘acreditar 52%’ em Deus > pensamento binário > estrutura religiosa.

Ora, nossa forma de pensar ainda está muito refém de binarismos. Muito do que acreditamos repousa em oposições. A oposição entre o real e o ideal, o aqui e o fora daqui, o bem e o mal. Uma das consequências lógicas do fim da estrutura religiosa do pensamento é o fim de qualquer utopia. Sim, Nietzsche estava olhando pra você também, Karl Marx. E pra qualquer teoria política.

Nietzsche e o nazismo

Cabe aqui um adendo: estou falando de política e citando alguém que, disseram os fascistas, escreveu a filosofia que foi base de sustentação para o fascismo. Bem, as teorias reversas têm a ver com a fase em que Nietzsche teve problemas mentais e ficou sob a custódia da irmã anti-semita e com o fato de que não se sabe, de fato, se houve a dita influência.

Eu prefiro ser mais simples: o fascismo também foi uma muleta metafísica para o povo italiano, e posteriormente o nazismo para o povo alemão. Guardemos isso, eu acho isso demais da conta. Estivesse Nietzsche lá, provavelmente criticaria as reações destes povos à estrutura que ali se organizava.

Eu

Escrevi o adendo porque concordo com Nietzsche que fechar os olhos para o aqui-e-agora, em busca de uma utopia, não me soa bem. Escrevi citando, e eventualmente concordando com, um autor anti-Marxista. Porque me considero de esquerda, e este texto não tem a menor intenção de ser um manual como-agir-bem-politicamente. Prefiro o exercício de me abrir ao controverso.

Brasil

Uma muleta atrás da outra, nenhuma tão forte quanto a corrupção. A luta contra a corrupção virou pra nós, hoje, o que a luta anti-terror virou para os Estados Unidos no governo Bush. Tudo gira em torno de acabar com a corrupção, e esta parece ser a única ânsia de nossa população. O país perfeito é o Brasil sem corrupção. Como acabar com ela, todavia, bem como suas causas e seus métodos, tudo isso virou secundário. Eu gosto sempre de lembrar ao incauto o que aconteceu da última vez.

Talvez por isso o maior partido de centro do país seja o mais poderoso. Está no governo desde a redemocratização, é o mais votado. É a democracia funcionando: a média das discordâncias e das concordâncias produzindo a maior massa de poder do país. O triste fica, é claro, por conta de pensar que vivemos num país que ainda pensa desse jeito. Adivinhe? Este partido também é, bem...

Uma confissão

Não tenho conclusões acerca dessas reflexões. O anti-petismo me parece tão nocivo quanto não apontar os inúmeros erros do atual governo, o PMDB me parece bastante nocivo, não vejo lógica no mote central da política nacional ser o fim da corrupção, não acho que a corrupção pode ficar como está. A crise tá virando muleta metafísica também, resta pouco além de assistir e esperar.

Mas Nietzsche alegava que a estrutura binária do pensamento estava morrendo. Aqui no Brasil me parece que ainda demora.

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