Eu topo calar a boca se você calar também.

Para introduzir, uso definições de um dicionário simples, online. Começarei pela definição de burrice e adicionarei adiante sempre a definição da palavra chave.

burrice (substantivo feminino)

  1. qualidade, caráter ou condição de burro (‘falto de inteligência’).

inteligência (substantivo feminino)

  1. faculdade de conhecer, compreender e aprender.
  2. conjunto de funções psíquicas e psicofisiológicas que contribuem para o conhecimento, para a compreensão da natureza das coisas e do significado dos fatos.
  3. harmonia, entendimento recíproco.

conhecer (verbo transitivo direto)

  1. perceber e incorporar à memória (algo); ficar sabendo.
  2. tomar ou ter consciência de.

A burrice é, de acordo com esta referência (tão simplória, peço desculpas. Isso aqui é só um site onde escrevo textão, eu não sou acadêmico), a ausência do perceber/ saber/ tomar consciência. Em alguma medida, pode ser que consigamos dividir as pessoas em grupos:

  • pessoas capazes de conhecer;
  • pessoas incapazes de conhecer.

No grupo das pessoas capazes de conhecer, temos uma subdivisão interessantíssima:

  • a pessoa capaz de conhecer que acessou o conhecimento;
  • a pessoa capaz de conhecer que não acessou o conhecimento.

E ainda mais uma:

  • a pessoa capaz de conhecer que não pôde acessar o conhecimento;
  • a pessoa capaz de conhecer que não quis acessar o conhecimento.

Não só não é feio ser burro, como ser inteligente é difícil.

Sério mesmo! Não estou sendo irônico aqui. Todos nós, absolutamente, em algum ramo do conhecimento ou em algum pedaço da vida, tomamos bomba ao ser inteligentes em algum ramo. Não dá pra dominar tudo, não dá pra apreender todo o conhecimento. Nem tudo é do seu interesse, nem tudo te acrescenta. Ninguém é obrigado a nada a priori. Este é um mundo livre (tá, nós sabemos que este trecho é mais poesia que verdade). Não é feio falar que não sabe, não é feio falar que não domina um tema, não é feio não ter uma opinião. O silêncio não é feio.

Mas, se você escolhe tentar dominar um tema - ou mesmo abrir a boca pra opinar sobre ele, há um grupo específico dentro do qual você deveria estar. O das pessoas capazes de conhecer que acessaram o conhecimento.

Cabe dizer aqui: acessar o conhecimento não é só ler. Experimente as primeiras páginas da Fundamentação da Metafísica dos Costumes, por Kant: é normal que você leia e não entenda absolutamente porra nenhuma. Acessar o conhecimento não é só deixar o interlocutor falar: é entender o que ele está falando. E voltar atrás cada vez que não entender. E matar suas dúvidas. E trocar experiências com quem também tenta acessar aquele conhecimento.

Sabe qual é o problema de fingir que acessou um conhecimento? É que a gente adora tomar um lado. Sério mesmo: antes de entender a gente já quer concordar ou discordar. E isso compromete a compreensão. Perceba: ser inteligente não demanda que você tenha uma postura. Demanda que você domine o tema. E se alguém alega mais domínio sobre um tema que você, é importante que você tenha a disposição de recuar. De ver outras referências, de se perguntar: “eu entendi mesmo?”.

O feio é você querer ser burro

O que irrita este que vos escreve vai daqui pra baixo: é que é difícil ser inteligente sobre tudo, e eu consigo viver com o fato de que sou burro, por exemplo, sobre biologia molecular. Mas entender uma coisa depois que você se dispõe a entender é realmente muito fácil. As pessoas que fizeram o mundo ser como é foram idiotas como eu e você.

Pense na forma de Bháskara. Este desgraçado morreu em 1185. Pelo menos oitocentos e trinta e um anos se passaram desde que ele descobriu a maneira de se resolver equações de segundo grau. Ele descobriu, nós só precisamos aplicar. E nós erramos! É degradante, nós deveríamos comer alfafa!

Claro que você pode não ter interesse algum em solucionar equações. Mas este tipo de coisa treina o seu pensamento. Você melhora sua maneira de pensar e aplica isso onde quiser. Einstein dizia que tinha dificuldades em matemática, você tem noção? É disso que se trata! Assim é o músico estudando escalas: se o Steve Vai subir ao palco subindo e descendo escala vai ser ridículo. Mas sem ter subido e descido escala a vida inteira ele não teria nunca sido o Steve Vai.

Ou então

Escolha não acessar o conhecimento, se não for pra dominá-lo. Sério, ninguém aguenta mais essa gritaria, essa balbúrdia.

Ninguém aguenta mais este vídeo zuando o Chimbinha pra dizer que “música boa é o rock”. Ninguém aguenta mais este papo de que música boa é a que você gosta e cultura boa é a que te serve. Ninguém aguenta mais você falando que o futebol tá chato porque “muita tática”.

Ninguém aguenta mais você achando que entendeu política porque passou a lembrar em quem votou nas últimas eleições. Admita que não entendeu, talvez (eu particularmente uso muito esse recurso, tenho consciência de que não entendi. Mudo de ideia todo dia, vou tentando. Quem sabe um dia eu consiga. Não que eu seja referência pra nada, eu sou só um imbecil).

Ninguém aguenta mais você achando que entendeu o feminismo enquanto continua achando que “é o contrário de machismo”, ninguém aguenta mais você falando que os movimentos sociais são vitimistas ou que a Dilma faz um bom governo. Você não sabe do que está falando e eu também não. Calemos a porra da boca.

Se você quer encher o saco de alguém ou abalar alguma estrutura, faça isso direito. Pare o país, toque fogo em alguma coisa. Vá aos shows das bandas autorais da sua região. Mas não venha tentar me convencer de que sua dancinha do impicho vai resolver alguma coisa. Porque ela prova que você não entendeu. Nós somos todos idiotas mesmo, eu sou burro. Você é.

Não faça o papel ridículo de fingir que não. Por favor.

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