Ainda há tempo, dez anos depois
Ainda há tempo (2016), Criolo. O músico Criolo lançou seu quarto álbum, Ainda há tempo — uma releitura homônima de seu primeiro trabalho, de 2006. Uma viagem sonora pelo tempo.
Criolo é um artista à beira do mundo. Filho de nordestinos — pai operário e mãe filósofa/poeta/professora/agitadora cultural. Paulistano da Zona Sul, Grajaú. 40 anos. Homenzarrão bonito de quase 2 metros de altura, voz suave e impecável. Um gentleman. Pessoa de linguagem metafórica, nada fácil. Letrista e cantor de rap.
Críticos dizem que ele encarna uma espécie de “pós-MC”. Com ele o rap entrou definitivamente no grande panorama da música brasileira, as novidades estéticas do seu trabalho se alinharam muito rapidamente com o Monte Olimpo da MPB: Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Ney Matogrosso. Um dos ritmos com os quais ele fez o trânsito (e o transe) do rap-além-rap foi o afrobeat, com predileção escancarada pelos trompetes e percussões dos gênios africanos Fela Kuti, na música Bogotá, por exemplo, e Mulatu Astatke, em Mariô — ambas do premiadíssimo álbum Nó na Orelha (2014). Também faz parte deste álbum Não existe amor em SP, que para muita gente se tornou um hino do direito ao acesso a espaços da cidade de São Paulo nas manifestações pós-2013.

Em 2015, lançou o álbum Convoque seu Buda. Antropofágico. As letras trouxeram referências como Shiva, Buda, Drummond, Foucault e Maquiavel — num cruzamento entre erudição e rua, entre centro da cultura e periferia do conhecimento. Fermento pra massa, por exemplo, é uma ode ao mesmo tempo ao samba de Noel Rosa e de Adoniram Barbosa e às manifestações de rua de 2014. Fio de prumo é um experimento com participação de Jussara Marçal que traz texto pautado em dialetos africanos e som entre tambores e qualquer coisa, nas cordas e sopros, que lembram música hindu. Convoque seu Buda foi muito bem recebido no mercado e pela crítica. E reiterou o posicionamento do rap de modo geral, e de Criolo em particular, entre a estética e a política.
Ontem (05/05/16), Criolo lançou em seu site o álbum Ainda há tempo, regravação de algumas músicas de seu primeiro álbum homônimo, de 2006. É uma volta às origens, de frente para trás, levando consigo todo o escopo técnico, estético e existencial de Convoque seu Buda e Nó na Orelha. E também um resgate, pois muita gente não conhece este seminal trabalho de Criolo. Um ciclo de 10 anos, uma viagem sonora pelo tempo.
O álbum nesta nova versão tem participações de gente de peso do rap, como o projeto Nave, Sala 70 e Grou, entre outros. A faixa Tô pra ver, com participação do talentoso Rael, é dedicada às ocupações das escolas estaduais, movimento iniciado por jovens paulistas. O refrão na voz de Rael diz “tô pra ver um daqui sucumbir”. Dez anos atrás Criolo falava da condição do artista cantor de rap e do rap como resistência à subserviência de classe. Hoje o texto ainda está vivo, alarga-se e ganha simbolismo diante dos conflitos de domínio do espaço público, como no caso das ocupações das escolas de ensino médio Brasil afora.

Ainda há tempo (2016) dialoga com dois tempos históricos diferentes e em ambos revela a mesma coisa, a partícula indivisível do rap: luta e conflito. E outro mérito ainda: o texto mais clichê-cafona sobre amor e bondade se transforma em brado utópico no discurso de Criolo. Em Ainda há tempo, a faixa que fecha e empresta nome ao álbum, ele diz: “As pessoas não são más, elas só estão perdidas. Ainda há tempo. Que minha música possa te levar amor”. Não é qualquer artista que consegue isso (sem ser piegas e desnecessário). Parabéns ao envolvidos, em especial Dj DanDan e Daniel Ganjaman.