É direito do adversário não querer jogar futebol — e é importante o Flamengo saber ganhar mesmo assim

Antes dessa partida se você tivesse que apostar em qual Lincoln ajudaria mais o Flamengo nessa temporada a primeira opção possivelmente seria o finado presidente americano

Por mais romântico, “raiz” e “contra o futebol moderno” que você seja, é preciso reconhecer que atuar de maneira defensiva não é crime, não viola nenhuma regra e pode muitas vezes ser um caminho viável rumo a um resultado positivo. Retrancas históricas já venceram Libertadores, ferrolhos bem armados já conquistaram Champions Leagues, equipes que não reconheceriam o futebol-arte se fossem cutucadas por ele com um graveto já levaram a Eurocopa.

Então não existe absolutamente nada de absurdo ou inesperado na postura do Botafogo diante do Flamengo nesta quinta-feira. Uma equipe ameaçada pelo rebaixamento, com um volume de investimento muito mais baixo e que viveu um momento tão desesperador que chegou a ver Diego Souza como grande contratação, a expectativa não era exatamente de que o time da estrela solitária fosse partir para cima, armar a equipe ofensivamente ou dizer “5 vira, 10 acaba, damos 3 gols de frente”.

Quando sua namorada está distante ela fica tão distante quanto nossos laterais reservas estão dos nossos laterais titulares?

Portanto o que se viu, com um Botafogo defensivo, abandonando a criação das jogadas, e que se buscava se manter na partida através de uma soma de violência, cera e a sorte de estar contando com um juiz absolutamente despreparado para arbitrar qualquer coisa que não um concurso de bolinhos de lama numa creche com crianças pouco competitivas, não apenas não deveria ser surpreendente para ninguém como, no atual ambiente do futebol brasileiro em que treinadores estão mais preocupados em postergar a demissão do que apresentar um bom futebol, é total e completamente compreensível.

E o plano quase deu certo. Abusando das faltas, se defendendo de maneira intensa e contando não apenas com a conivência do trio de arbitragem como também com uma noite ruim do nosso ataque, um momento cognitivo extremamente complicado de Renê e o projeto ousado porém cientificamente improvável de Vitinho de derrubar a Lua chutando bolas contra ela, o Botafogo ia conseguindo segurar as pontas até os 43 minutos do segundo tempo, quando Lincoln, que estava secretamente realizando uma greve de gols em nome da libertação do ex-presidente Lula, finalmente colocou o Flamengo em vantagem no placar.

O olhar confuso de Gérson ao perceber que o juiz havia permitido o porte de armas brancas em campo

Por isso, mais importante do que criticar o nosso rival carioca por entrar em campo sem a intenção de jogar muito futebol — se nosso melhor jogador fosse o Cícero talvez nós fizéssemos o mesmo — é refletir sobre o exercício que significou atuar contra uma equipe defensiva, sem dois jogadores-chave como Arrascaeta e Felipe Luís, e lidando com uma arbitragem que variava entre o confuso, o canalha e o incompreensível.

Afinal, seja pela provável barbárie que iremos enfrentar contra o River Plate pela Libertadores, seja pelos desafios que ainda temos pela frente num Brasileirão com arbitragens cada vez mais confusas, é importante um Flamengo capaz de, mesmo quando atua abaixo da média, manter a frieza e a coragem para buscar o resultado até o final, como vimos no Engenhão nesta quinta-feira. Isso porque os rivais tem todo o direito de bater, catimbar, empurrar, furar a bola e esconder debaixo da camisa. Mas é do Flamengo a obrigação de, mesmo diante disso tudo, jogar futebol o bastante para vencer.

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