O fantasma dos Flamengos passados

Momentos logo antes da desgraça acontecer

Existe um termo pejorativo criado pelos rivais especificamente para isso: “flamengada”. Ele descreve situações em que o Flamengo, mesmo diante de cenário extremamente favorável, de um contexto extremamente positivo, consegue buscar um resultado ruim de maneira inesperada, impressionante ou até mesmo vagamente sobrenatural. São as desclassificações dentro de casa com o Maracanã lotado e a vantagem do empate, são as derrotas contra equipes já rebaixadas, são os momentos em que o Flamengo, tendo a faca e o queijo na mão, consegue não apenas se esfaquear como deixar o queijo cair dentro do vaso sanitário. E por mais desagradável que seja usar uma expressão criada por quem quer o mal do nosso clube, é inegável que na noite desta quarta-feira o Flamengo “flamengou” no pior sentido possível do verbo.

Primeiro porque é inaceitável que um time que se posiciona como favorito para o título brasileiro e espera vencer uma Libertadores diante do River Plate ceda um empate de 2x2 após estar vencendo por 2x0, seja contra quem for. Ainda mais contra o Goiás, uma dessas equipes tão firmemente plantadas no meio da tabela que praticamente servem como referência geométrica — “Libertadores? O senhor chega ali onde tá o Goiás, avança mais umas cinco posições, já tá lá”.

Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre…

Somando a isso detalhes constrangedores como a bisonha expulsão de César — um cartão amarelo por cera seguido de um cartão vermelho por sair imbecilmente do gol e depois chutar um jogador do Goiás — e o fato de que Rafael Moura segue sendo o principal carrasco do Flamengo neste século, o que, pela lógica de que “você é do tamanho dos seus inimigos”, diria coisas horríveis sobre nosso clube, e você tem um resultado que, apesar de não ser desastroso dentro da competição, é no mínimo patético se analisado no contexto do que houve em campo nesta quarta-feira — e nem vamos começar a falar do Rodinei porque ele sozinho explica porque Jesus prefere deixar jogadores sem dormir a realizar rodízio na equipe.

Então ainda que a situação do Flamengo siga confortável no Brasileirão — ainda temos 8 pontos de vantagem para o Palmeiras — é preciso que essas duas más atuações seguidas, tanto na vitória magra contra o CSA quanto nesse empate constrangedor contra o Goiás, sirvam de alerta e lembrete de que, mesmo com pontos de frente, mesmo com um grande time, mesmo apresentando durante a maior parte do tempo o melhor futebol do Brasil neste ano, nada, absolutamente nada está garantido. Vantagens desaparecem se não cultivadas, nada é vencido na véspera e grandes partidas como a goleada no Grêmio credenciam uma equipe mas não são uma carteirinha de estudante que te permita levar troféus fazendo apenas metade dos pontos.

César usou a chance dele no time titular tão bem quanto ex-namoradas/os costuma usar segundas chances

O Flamengo chegou onde está exatamente porque foi capaz de exorcizar os fantasmas do passado, deixar para trás a complacência e as baixas expectativas, e redescobrir que a essência verdadeira desse clube é exatamente não se contentar com menos do que tudo aquilo que podemos ter. E para sermos campeões, seja do Brasileirão ou da Libertadores, precisamos nos lembrar que “flamengar” é aquilo que fizemos contra o Grêmio, o Palmeiras, o Santos, e não isso que deixamos acontecer nessa noite lamentável em Goiânia.

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