Uma perspectiva necessária a respeito da maternidade lésbica

Não importa como. Porque sinceramente, é muito cansativo retomar a história de toda uma vida como se existisse a necessidade de justificar o fato de termos nos relacionado com homens. Até porque uma argumentação embasada somente na primeira pessoa do singular seria puramente política identitária.

Primeiramente, nós, mulheres que já nos relacionamos com homens, não devemos desculpas.

Mas importa o porquê. A educação sexual para jovens mulheres é falha, falocêntrica e heterocentrada e o cunho sexual e afetivo de relações sexuais é socialmente validado pela existência do falo. A penetração peniana é compulsória, é o demarcador social que determina se as mulheres são sexualmente ativas. E não apenas isso: a autoestima feminina é sustentada pela atração sexual masculina.

Mulheres se condicionam a se relacionar com homens todos os dias por serem reduzidas a menos do que nada se não conseguirem se adaptar a isso. O que não é um privilégio, especialmente se considerarmos que os homens são os agentes de perpetuação da estrutura patriarcal da qual se beneficiam, e é através de um comportamento sexual predatório e do mecanismo de dominação doméstica e por meio da maternidade que esta estrutura é preservada, o que é estatisticamente comprovado através dos índices de violência doméstica, estupro, estupro conjugal, pedofilia, e feminicídio.

A subjugação feminina é consolidada com a maternidade porque anatomicamente os homens individualmente não detém controle algum sobre o processo de continuação da nossa espécie. Mecanismos patriarcais como os conceitos de monogamia, heterossexualidade e família se alicerçam na dominação e no encarceramento feminino no ambiente doméstico.

E isso significa que um número expressivo de mulheres lésbicas já se relacionaram com homens de alguma maneira. Mas algumas carregam a evidência literalmente debaixo dos braços.

Considerando o falocentrismo e a heteronormatividade das relações afetivas em um sistema patriarcal, a lesbianidade feminina é constantemente deslegitimada. Relações sexuais sem penetração peniana não têm o seu teor sexual respeitado. Mulheres lésbicas são indagadas a respeito de bissexualidade com o intuito de deslegitimar a validade das relações lésbicas, enfatizando que em casos em que estas mulheres já se relacionaram assumidamente com homens a sua lesbianidade é ostensivamente negada socialmente.

É necessário que se ataque com fúria a estrutura patriarcal que rejeita o valor das relações lésbicas. Em contrapartida, é nocivo que ataquemos mulheres heterossexuais e bissexuais que se relacionam com homens, especialmente quando tantas de nós já fomos lidas socialmente desta maneira, exclusivamente em razão de estas mulheres se relacionarem com homens. 
A única coisa que existe entre nós e o nosso alvo se chama rivalidade feminina.

Não existe um denominador comum capaz de determinar se uma mulher ama outras mulheres. Afirmar o contrário é identitarismo.