DE QUE(M) VOCÊ ESTÁ SE ESCONDENDO?

Igor Alcântara
Jul 25, 2017 · 2 min read

Vivemos em fuga, já reparou? Tenho me dado conta disso e, por essa razão, me questiono por que me mantenho nesse desejo horroroso e cansativo de ser invisível. Talvez eu tenha vergonha de ser humano, de me apresentar imperfeito, o que por si só nasce incoerente, já que, como sabemos, a condição básica do Ser é a imperfeição. Somos tímidos quando precisamos nos apresentar vulneráveis ao mundo. Eu não sei bem quando vulnerabilidade se tornou sinônimo de fraqueza (e até discordo dessa ideia). Deixamos de lado nossa humanidade para mascarar nossa essência, de repente isso aconteça pela busca incansável (e injusta) de sermos perfeitos. O que é perfeito?

De vez em quando, a gente ouve por aí que o mundo está ficando chato demais, mas, se pensarmos bem, chato (para não dizer insuportável) é tentar alcançar um padrão criado para seguirmos e que não faz sentido, já que somos feitos de instantes. Nesses instantes cabem, inclusive, sentimentos negativos. Não há escapatória, a dor vai chegar, a inveja vai aparecer para dar oi, aquela ansiedade carregada de falta de ar vai entrar sem pedir licença, aquela desordem de isolamento e de solidão também vai vir com tudo. Temos que lidar com esses sentimentos.

Compreendo que alimentar o que nos faz mal pareça insensato, talvez porque eu tenha em mente que não posso contribuir para nada que me torne improdutivo. E, claro, em uma sociedade na qual a minha obrigação é ser produtivo, o que se aproxima com voz improdutiva, eu rapidamente tenda a afastar. Isso acontece também com você, né?

Estamos inseridos no contexto de que chorar pelo leite derramado é tolice, afinal, isso indicaria que estamos perdendo tempo com algo que não nos conduz a lugar algum. Será mesmo que “chorar” não me leva a caminhar? Se assim o fosse, nós não diríamos que ter vivido “isso ou aquilo” nos trouxe aprendizado (a gente tende a responsabilizar o tempo por um trabalho que foi feito por nossas mãos).

Quando escondemos nossos sentimentos negativos, eles realmente se tornam negativos, porque se tornam inúteis. É isso que a fuga faz, ela tem o poder de tornar tudo inútil.

A ideia de que “estamos” em vez de que “somos” me atinge de maneira mais realística. Faço esse exercício (difícil) de desconstruir-me todo dia. Estou cansado de me esconder e de fugir o tempo todo da minha presença. Quer me acompanhar?

Foto retirada do blog Face Poética (2013)

Igor Alcântara

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Um processo inconstante de reconciliação entre mim e o mundo.

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