Quem é você? — perguntou o espelho.

Temos passado por um processo largo de crise. Uma crise de identidade que se impõe a nós cotidianamente. Ela nos questiona o tempo todo, quer saber quem somos, para onde iremos e por que estamos onde estamos. Ela quer respostas ansiosas e apressadas. A crise não sabe esperar, está sempre com fome do agora, do hoje, deste exato minuto. Se apressado come cru, a crise morre de fome. Não há paciência no caos. Se reparar bem, os nossos processos de tranquilidade e calmaria só surgem depois de encontrada [a resposta], que não pode ser confundida com [a saída]. Questionar dói, dá trabalho, cria conflito e, além de tudo, não traz garantia de resposta, por esse motivo a saída não se confunde com a resposta. A saída põe fim; a resposta, novo caminho.

Chegou-se o momento de viver o não lugar. Vivo como se não existisse referência ou forma no Ser. Por isso, pareço me deslocar para o desconhecido. Lá, onde o coração procura o mais próximo que dele possa estar, mas parece perder-se no encontro. Lá, onde a janela aberta não aceita os ventos frios que assopram para o lado de dentro.

Daqui para frente, sinto que não há nada em que possa me abrigar. Abrigo é forma, Ser é não forma. Se não sei a que forma pertenço, não me conheço. De fato, já não sou capaz de me conhecer, nem mesmo quero, como antes queria. Quando penso que me conheço, conheço a forma que me tornei, e nessa forma já não me reconheço. Pareço ser o que resta do que uma vez achei que fosse, mas sobre isso já não tenho certeza. Por não ser forma, não sou definido e, portanto, não sou. Apenas sinto e, por sentir, pressinto já não ser o mesmo.

Abril, 2017.