INTERVALO

sobre a passagem do tempo e andanças na Braz de Aguiar

estou à beira de completar 27. a idade que guarda junto a si os 17 e um intervalo de 10 anos. aqueles 17 que ficaram em alguma esquina da Braz de Aguiar. esquina da Braz com a rua cuja placa está esmaecida pela lembrança. os 17 que se perderam nessa rua de nascimentos e mortes, abrigando meus trânsitos e minha origem. a memória afetiva da progenitora e seus primeiros anos de vida ainda residem ali.

caminhava por lá com um amigo da escola sempre que a rua interessava mais que as aulas. comíamos doces na padaria e pegávamos as chuvas pontuais paraenses. eu dizia orgulhosa de mim mesma que queria morrer aos 27. como Jim, Jimi, Janis e — apesar de não saber àquela altura — Amy J. do alto de sua sabedoria e descaso juvenil, ele me desprezava. sim, quanta tolice!

eis os 27. já morri algumas vezes nesse ínterim. não tenho mais tal desdém pela vida misturado à vontade de viver tudo em pouco tempo. não há saudade dos 17 ou dos 21, tampouco vontade de reviver os anos idos ou sequer de congelar a juventude. a proximidade da terceira década oferece pontes e travessias onde a adolescência só apresentava bóias frágeis e caiaques furados. apesar da ansiedade ao redor, aprendi a apreciar a passagem dos ciclos e a construir a maturidade com a melhor matéria-prima que pude encontrar: pausas e demoras.

se eu diria algo para a menina de 17 que matava aula na Braz de Aguiar? não, eu não diria nada. apenas acolho, levo comigo e sigo.