UMA HISTÓRIA SOBRE O DIU DE COBRE

eu estava deprimida, sentindo minha força contida, sem fluir. até que uma feiticeira contemporânea perguntou-me se eu tomava anticoncepcional. sim, eu tomava, respondi. tudo então fez sentido: a pílula inibe a ovulação, os óvulos, aquelas células de potência criadora ficam lá retidas no ovário. o meu sintoma emocional tinha exatamente a característica de retenção. a pílula reproduz quimicamente o que a sociedade tem feito à mulheres desde o advento do patriarcado: reter a capacidade criadora.

sim, houve um período, logo do advento da pílula, em que o medicamento representava a liberdade das mulheres em poder escolher não criar crianças. claro, uma grande vitória. no entanto, há tantas outras maneiras de evitar a criação de crianças sem reter as células criadoras que simplesmente não estão em evidência como opções.

decidi parar de ingerir aquele medicamento tão logo soube de suas capacidade retentivas, sem esperar a cartela terminar. iniciou-se uma jornada em busca do contraceptivo ideal para mim. eu já era simpatizante do DIU de cobre, mas a voz de uma amiga ressoava na minha cabeça sempre que pensava nessa hipótese: “DIU é só para mulheres casadas e acima de 30 anos”… será?

outras perguntas surgiram: por que essa jornada tinha que ser solitária? por que a grande maioria dos métodos existentes são direcionados para corpos femininos? por que a mulher é a principal responsável pela prevenção e manutenção da gravidez, sem falar nos cuidados com o bebê?

incluí meu namorado como parceiro nessa jornada. embora a decisão de parar a pílula tenha sido tomada exclusivamente por mim porque afetava diretamente o meu corpo, achava muito importante que ele participasse do processo de escolha do próximo contraceptivo ao meu lado. já compartilhava com ele a responsabilidade em relação à pílula, nós comprávamos juntos e lembrávamos juntos o horário de eu tomar. caso eu esquecesse, a responsabilidade também era dele por não ter me lembrado. começamos então a pesquisar sobre as possibilidades contraceptivas. era essencial que fosse uma opção sem hormônios. a combinação hormonal da pílula age de forma sistêmica no organismo gerando uma série de efeitos colaterais, os quais queria me livrar.

durante todo o tempo de pesquisa, fui entrando em um contato mais íntimo com o meu corpo, entendendo como funciona o meu ciclo menstrual, processo essencial para o meu fortalecimento, como mulher e ser humano. nesse período, eu descobri o coletor menstrual e os métodos de percepção da fertilidade — que consistem basicamente em observar, a partir de técnicas, o período fértil de maneira mais acurada e precisa, valendo-se de métodos de barreira ou evitando relações apenas neste período. inaugurou-se portanto uma nova fase de relacionamento com a minha própria menstruação e consequentemente meu corpo. tudo isso levou a muitas reflexões críticas a respeito de como o poder e a auto-estima da mulher são retirados dela quando fomenta-se a desconexão com o próprio corpo.

então, um filme preto e branco, ruidoso e com arranhões de patriarcado passou pela minha cabeça. tudo começou em casa. desde a pré-adolescência minha mãe transferiu para mim o medo que ela tinha de uma gravidez precoce. eu deveria dizer a ela quando perdesse a virgindade para que imediatamente começasse a tomar anticoncepcional. levei meu tempo para contar, ora, um momento tão íntimo não seria verbalizado sob pressão. tão logo contei, fui levada à ginecologista. as lembranças das visitas a consultórios médicos pipocaram e o padrão de controle que eu enxergava nelas continuava a ser realidade.

primeiramente, na adolescência quando fui impedida de tomar pílula pela ginecologista, mesmo que a decisão já tivesse sido tomada junto com a minha mãe que temia eu tivesse uma gravidez não planejada. o argumento médico era construído com base em pressão psicológica: se eu tomasse pílula, não usaria preservativo e pegaria uma DST. realmente, não usava preservativo, não usava pílula. resultado: um pavor paranoico de engravidar (por deus não aconteceu!) e um HPV aos 18 anos.

depois, quando iniciei minha saga em busca de alternativas à pílula. visitei médicas do plano de saúde pedindo por indicações. fui em três e todas elas ressoaram o mantra de que não se coloca DIU em mulheres que nunca engravidaram porque, caso haja alguma infecção, pode haver infertilização. uma delas me disse que diafragma era coisa do passado, que não se falava mais nisso e sugeriu que eu tomasse uma pílula cujo hormônio era idêntico ao natural, mas que inibia a menstruação. eu questionei se não era ruim ficar sem menstruar: “as mulheres vão TER QUE se acostumar a ficar SEM MENSTRUAR, porque as pílulas do MERCADO estão vindo todas sem pausa”. “como assim o meu corpo tem que se acostumar a uma imposição do mercado?” pensei. tenho náuseas até agora de lembrar disso, mas ela fez um adendo importante para me fazer querer ter ainda mais distância da pílula: “a menstruação da pílula é absolutamente artificial, na verdade, trata-se apenas de um sangramento por supressão hormonal. com a pílula não ovulamos, logo, não existe menstruação.” a última médica, por sorte ou azar, era a pessoa responsável pela colocação do DIU no plano. o mantra ressoado por ela tinha uma dissonância, ela era a favor da colocação do DIU hormonal, que eu colocaria com ela, mas “o fio de cobre do DIU de cobre funcionava como agente infeccioso atraindo bactérias e consequentemente, infertilizando”.

muito frustrada e decepcionada, o argumento das médicas não coincidia com as minhas pesquisas individuais e a minha intuição dizia-me que havia algo errado ali. sim, sou dessas que tenta ouvir a intuição mesmo que ela tente ser silenciada por profissionais formados e dotados de conhecimento científico.

por incentivo do meu namorado, eu procurei o SUS. demora, espera, contratempos, paciência. mas depois de tanto frequentar consultórios particulares, no posto de saúde eu tive minha autonomia devolvida. o ginecologista não viu impedimento algum para a colocação do DIU em mim. eu só precisava passar por reuniões de planejamento familiar e pelo exame preventivo. nas reuniões, eu tive acesso à informação e fui orientada sobre os prós e contras de cada método contraceptivo existente. o preventivo era importante para verificar se eu portava alguma infecção vaginal. nesse momento, o mantra que muito ouvi foi desmistificado: se estivesse com alguma DST, ela seria levada pelo DIU até o útero mais facilmente infeccionando-o e assim, infertilizando. o DIU por si só não causa infecção, o cobre não causa infecção (!). só é preciso estar atenta às DSTs, evitando contraí-las, usando preservativo, e fazendo exames regularmente. meu namorado e eu, quando decidimos não usar mais preservativo, fizemos todos os exames e seguimos fazendo acompanhamento.

nove meses (uma linda fase de autoconhecimento e fortalecimento) depois de ter parado a pílula, finalmente coloquei o DIU de cobre pelo SUS. a inserção foi dolorosa. mulheres que nunca engravidaram, como é o meu caso, têm o colo do útero mais estreito para a passagem do DIU, muito embora isso não configure impedimento para a colocação. tive sangramento, cólicas, meu fluxo menstrual aumentou. ainda estou em fase de adaptação observando meu corpo acolher o DIU. sinto-me vitoriosa e dona das minhas escolhas, do meu próprio corpo.

é preciso enxergarmos o corpo como nosso instrumento de ação no mundo, o veículo mais precioso. o poder de controle da religião sobre os corpos está sendo desmistificado, mas nós continuamos sendo seres de fé. a fé, antes direcionada à religião, agora vale-se ao sistema médico. nós não questionamos os médicos, cremos piamente em diagnósticos, pesquisas científicas e nos “benefícios” dos remédios. os dogmas médicos nos controlam. quando percebemos o corpo como um universo, uno e diverso, cujos sistemas internos estão absolutamente interligados, a manutenção da saúde é facilitada. o cuidado passa a ser integral.