Quando eu acreditava em agências de publicidade.

Há muito tempo eu acreditava no conceito de agência de publicidade. O lugar onde sua criatividade poderia se desenvolver dentro das necessidades de um cliente, e que mesmo trabalhando por resultado dava pra ser criativo, ficando feliz e deixando o cliente com sorriso de orelha a orelha. Mas aí vieram os briefings sem prazo.

A gente continuava mesmo com o tempo vencido, tendo boas ideias. Existia a vontade de por as coisas na rua, com muito suor e trabalho. Fazia tudo com amor, chamava o dupla e ficava além do horário para terminar as coisas em dia. Foi quando começaram as pizzas.

Sem prazo e mas com a barriga cheia, ainda orgulhoso, estufando o peito e enchendo a boca para dizer para quem quisesse ouvir "Vou ficar até tarde na agência hoje". Como se o briefing que chegou para entregar ontem, fosse de uma urgência tão grande, que alguém iria morrer se ele não ficasse além do horário para fazer. E há quem se convence disso. É quando você percebe que as horas extras são transformadas em banco de horas, que você nunca vai conseguir aproveitar de verdade.

Você já não fica tão estimulado sem hora extra, sem prazos, e todo dia jantando na agência. Mas ainda teria a chance de mostrar trabalho, tem muita premiação por aí. Junto com o dupla tá lá se matando, fazendo algo bem legal, que chame atenção, que ganhe prêmio. Mas adivinha, seu nome não foi na peça. Agora só te tiram o reconhecimento.

Mas tudo bem, chegou a hora do aumento, vão lhe pagar mais, você só vai ter de abdicar da CLT em prol de ser transformado em prestador de serviço PJ ou vão te pagar o adicional por fora.

A agência só está te exigindo o máximo de criatividade, sem pagar horas extras, te alimentando com pizza, pegando as leis de trabalho e jogando no lixo, não reconhecendo seu nome em premiações, em um espaço de tempo já expirado. Bom, eu não vou julgar quem se julgue desistimulado com isso.

Mas claro, nem toda agência é assim. Só que pela maioria eu parei de acreditar no modelo de agência quando o dono foi aproveitar Cannes e eu fiquei a madrugada comendo pizza fria esperando o cliente aprovar algo, que sequer iria conseguir veicular naquele final de semana.