Cidades Inteligentes, Cidades Vigiadas: uma oficina de mapeamento experimental


Esta oficina já foi realizada na FILE e no SESC SP. Se você tem interesse em participar de uma próxima oficina, mande um email pra gente em contato@medidasp.com com o assunto “Oficina: Cidades Inteligentes”.


Neste mês realizamos em parceria com Leila Santiago uma oficina como parte da FILE 2017, o Festival Internacional de Linguagem Eletrônica de São Paulo.

Intitulada "Cidades Inteligentes, Cidades Vigiadas", a oficina tinha o objetivo de discutir as implicações sociais e políticas dos possíveis conceitos de cidades inteligentes através de duas metodologias: design especulativo e cartografia.

"Cidades Inteligentes" merecem um enfoque crítico

O termo cidades inteligentes está atualmente por todos os lados: nas discussões sobre coleta de dados e "data-driven urbanism"; nos carros autônomos do Uber e nas iniciativas do Google Sidewalk Labs; e em iniciativas de crowdsourcing e ciência cidadã para resolver problemas urbanos.

O termo é muito popular e geralmente apresentado como algo benéfico, neutro, ou beirando o senso comum. Ele é cada vez mais apropriado e definido por uma série de empresas de tecnologia da informação e comunicação (TIC).

Um olhar crítico para as cidades inteligentes é urgente, e acreditamos que deverá passar pelos seguintes pontos, levantados por Rob Kitchin:

  • Complexidade: cidades não são sistemas que agem de forma racional, mecânica e linear, como são muitas vezes retratadas;
  • Poder: movimento smart cities é dominado por corporações com interesses próprios, influenciando governos;
  • Profundos impactos sociais, éticos e políticos: por exemplo em privacidade, controle sobre dados, controle e transparência de algoritmos;
  • Segurança (dos sistemas): quais os impactos de falhas de segurança em uma cidade totalmente conectada?

Design especulativo e cartografia para problematizar e visualizar cidades (inteligentes ou não)

No nosso workshop de duas manhãs, queríamos não só discutir as implicações da definição das cidades inteligentes, mas também projetar visões especulativas para o futuro de modo a problematizar o presente.

Construímos um exercício de futurismo baseado em técnicas de design especulativo. Como apontam os designers Dunne & Raby, futuros especulativos servem como “(…) ferramentas para entender melhor o presente, e para discutir qual futuro as pessoas querem e os que elas não querem.”

No exercício, desafiamos os participantes a criarem uma São Paulo distópica (como contrário de utópica) cinquenta anos no futuro.

Os participantes então criaram um mapa oficial das sua São Paulo distópica. O objetivo era construir um cenário futuro ao manipular convenções de representação cartográfica e distorcer dados da cidade atual.

Algumas vistas dos mapas produzidos pelos alunos no workshop

Muitos dos mapas utilizaram ícones para representar situações de vigilância e controle. Alguns substituíram ruas por infraestruturas de comunicação; outros destruiram o térreo das cidades já que todos viveriam em um andar superior conectado por passarelas (exceto aqueles que ficaram para trás). Um mapa desfez as ruas, que se tornaram inúteis a medida que todos habitantes passaram a se deslocar em carros autônomos.

No dia seguinte, esses mapas serviram de base para o próximo exercício. Inspirados em iniciativas atuais—que utilizam dados e tecnologias para combater vigilância, ganhar acesso à terra, atuar em emergências e promover ciência feita por cidadãos — os alunos desenvolveram uma série de narrativas de resistência online aos cenários distópicos criados.

Uma narrativa produzida no workshop, lidando com a questão da memória

Suas narrativas lidavam com coletivos de hackers, ativistas, e estudiosos, que buscavam resgatar memórias, espaços, autonomia e identidade na cidade inteligente e distópica do futuro.

Nesta narrativa, os parques e seu estado ambiental assumiram o foco

Cidades inteligentes de "cima para baixo" X "baixo para cima"

O modelo da cidade inteligente como um computador é muito difundido pelos mesmos atores que querem estar envolvidos na "otimização" desse computador habitável. Essa é uma visão sistêmica e de baixo para cima, como aponta o programador Paul McFedries:

A cidade é um computador, a paisagem das ruas é a interface, você é o cursor, e o smartphone é o dispositivo de entrada. Essa é a versão da ideia “cidade como computador” baseada no usuário, de baixo pra cima.
Mas há também uma versão de cima para baixo, que é sistêmica. Ela olha para sistemas urbanos como transporte, lixo e água e indaga se a cidade seria mais eficiente e melhor organizada caso esses sistemas fossem “smart”.

Iniciativas de baixo para cima são necessárias como contraponto ao discurso dominante sobre cidades inteligentes. Essas iniciativas nos ajudam a pensar futuros que, embora não sejam prováveis, são certamente possíveis—se formos capazes de pensar os futuros que queremos e os que não queremos.


Bernardo Loureiro é urbanista e programador, especializado em mapeamento, análise e visualização de dados. É criador do Medida SP, um laboratório de visualização urbana.

Leila Santiago é arquiteta e designer e trabalha em um amplo campo disciplinar, incluindo projetos de exposições, arquitetura, design gráfico e serviços. Atualmente é consultora no Grupo Tellus, ajudando a criar e implementar serviços públicos inovadores.

Agradecimentos especiais à equipe do FILE FESTIVAL pelo apoio na organização do workshop.