Nirvana
Apoiado em sua velha bengala, caminhava pela calçada de uma rua movimentada. Apesar da grande quantidade de carros, não escutava buzinas. O trânsito fluía de maneira calma e organizada. Mantinha o passo lento, ao contrário do restante dos pedestres.
Se dirigia ao consultório médico. Visitava o terapeuta, em uma tentativa de resolver seus distúrbios mentais. Sofria de depressão crônica, mas recusava a utilizar medicamentos. Contava seus últimos pensamentos, o doutor anotava em seu pequeno caderno de bolso e mandava-o voltar na semana seguinte. Esta seria uma consulta diferente, contudo.
Faziam vinte anos que perdera sua esposa e filho. Fotos penduradas na parede de sua casa lhe inundavam diariamente com lembranças. Sentava em sua poltrona na sala de estar e perdia-se em pensamentos. Vivia sozinho, não tinha amigos e o médico era a única pessoa com quem conversava.
Virou à esquina em um cruzamento e logo avistou o que buscava: Uma larga fachada de tijolos vermelhos permeados por janelas brancas, à moda inglesa. Um pequeno lance de escadas com corrimões de aço levavam à entrada do edifício. Tocou no interfone o terceiro andar e logo a porta se abriu. Subiu com dificuldade os degraus barulhentos, até que chegou no andar desejado. Ele já o esperava na porta.
“Que bom vê-lo novamente! ” Disse o doutor com um largo sorriso.
Apertaram as mãos. O homem entrou e sentou em uma cadeira. Á sua direita, um armário de mogno com várias gavetas ocupava uma das paredes do consultório. Uma escrivaninha o separava de uma grande janela branca. O médico fechou a porta e sentou no outro lado da mesa.
“Fico muito feliz em saber que você irá desfrutar dos benefícios da medicina moderna!” Disse o médico. “Não é saudável viver assim, já lhe disse inúmeras vezes”.
O homem observou em silêncio o médico levantar e se dirigir até o armário. Abriu algumas gavetas até que achou o que procurava.
“Encontrei!” Disse ele sentando novamente. Em suas mãos havia uma caixa de remédios. “Você não têm ideia de como sua vida irá mudar depois de tomar um desses…”.
O homem olhou pela janela, ignorando o discurso exaltado.
“Não fique assim. Logo esta tristeza irá passar, e você irá ser outra pessoa. Eu já lhe expliquei seu funcionamento?”
“Muitas vezes.” Respondeu.
“A medicina é algo fantástico.” O médico continuou, “Este não é um remédio comum. Age de uma maneira totalmente inovadora em seu cérebro, influenciando os neurotransmissores de modo que uma onda constante de dopamina seja liberada. Desde que comecei a tomar estas maravilhas minha vida mudou. Estou sempre de bom humor. Encontrar uma maneira de suprimir as emoções negativas, veja só!”
Já ouvira aquela história antes. As pílulas haviam virado febre no mundo todo. Todos andavam por aí alegres e com sorrisos no rosto. Os laboratórios nunca haviam sido tão lucrativos. A vida urbana se desenrolava sem complicações.
“Os efeitos colaterais são nulos, você não precisa se preocupar. Leve esta caixa como amostra e tome um comprimido a cada 12 horas.”
Pegou o objeto e colocou no bolso do paletó. Agradeceu o médico e saiu.
Refletia à medida que caminhava em direção à sua casa. Já era um homem velho. Não tinha mais objetivos nem propósitos. Só lhe restavam fotografias de uma família que já não existia mais. A vida havia lhe derrubado e ele precisava se levantar. “Dane-se”, pensou, “Que mal pode me fazer, afinal?”.
Logo que chegou se dirigiu à cozinha. Encheu um copo de água da torneira e abriu a caixa, destacando uma pílula verde e branca da cartela. Observou por alguns instantes o comprimido e o engoliu, tomando a água na sequência. Caminhou até a sala.
A bula dizia que os primeiros efeitos se manifestavam em questão de minutos. Serviu um copo de uísque e sentou na poltrona.
Logo seu coração começou a bater rapidamente. Sentiu um arrepio, que iniciou em seu peito e se estendeu pelo corpo. “Isto que é ser feliz?”, pensou.
Olhou para a parede à sua esquerda. Sua mulher e seu filho sorriam abraçados, em uma fotografia emoldurada. Sentavam em um banco de madeira em frente a uma fonte, permeada por árvores. Observou com detalhes a imagem. Sua expressão foi inundada de compaixão.
Lembrava-se claramente deste dia. Haviam passado a tarde juntos passeando. A foto havia sido tirada no parque da cidade, e ele não visitava o local desde que eles haviam partido.
O homem se levantou e saiu apressadamente. Caminhou até o parque, apoiado em sua bengala. Ficava a penas alguns quarteirões de sua casa.
Era primavera, o dia estava ensolarado e as árvores carregadas. Flores coloridas decoravam seu caminho. O homem observava a pintura com uma lágrima nos olhos. Cumprimentando as pessoas que passavam, atravessou o parque.
Logo encontrou o que procurava — Caminhou até o banco e sentou.
Sua cabeça era um turbilhão de emoções. Não havia rancor em seu coração, pela primeira vez. Olhava os passantes com ternura e prazer. A felicidade finalmente havia lhe alcançado. Despontou a gargalhar. Havia esquecido como a vida pode ser bela. Desfrutava este momento com um prazer imenso.
“Finalmente estou livre.” Disse para si com entusiasmo, enquanto gracejava. “Nunca mais terei memórias ruins, chega de más lembranças!”.
Um sentimento de euforia tomou conta de seu corpo. As cores estavam mais vívidas que nunca. Ficou tonto, faltava-lhe ar. Começou a suar frio até que desmaiou. Tombou duro para o lado, imóvel. A excitação foi tamanha que seu coração não aguentou. Sofreu um infarto fulminante.
Abandonara a tristeza com sucesso, só não percebera que era ela que o mantinha vivo.