Silvana Silva Moreira
Nov 4 · 4 min read

DEUS NOS SALVE DOS JUSTINOS

Quando o bordão "deite que vou lhe usar" (falado pelo Coronel Justino, personagem vivida por José Wilker no remake de 2012 de Gabriela), caiu nas graças do público, o autor Walcyr Carrasco informou ter apenas utilizado um termo comum dos anos 20, que fazia referência ao trabalho masculino nas preliminares. Virou meme, fez graça, e até hoje remete ao coronel baiano que pessoalmente considero inábil em lidar com mulheres, pra dizer o mínimo.

Lembrei dele quando refleti sobre como ver no outro um objeto para se obter prazer é algo há muito presente e normalizado, sobretudo numa sociedade de consumo. Se a comida, o vestuário, a maquiagem, o transporte - tudo é adquirido, comprado, selecionado de uma lista, se custa dinheiro... porque não haveria isso com o sexo? A relação sexual é apenas mais um serviço a ser prestado, e o prestador ou a prestadora, um local para se satisfazer, um vibrador ou "Egg TENGA" (dá um Google) só que de pele e por vezes mais barato.

Podemos discutir longamente (e deixo com os filósofos e teólogos) se é possível relacionar a sociedade fetichista e a Ortodoxia, ou se a desumanização dos fetiches não fere a verdade bíblica. Vai ter quem diga que o povo sempre foi criativo nos paranauês pra ter orgasmos desde que o mundo é mundo, que gastar e ganhar dindin com isso não é errado e etc... . Meu foco não é esse, e deixo esse debate para os experts.

O que quero focar é no absurdo que há hoje de homens (se propondo a ter um pensamento sobre masculinidade formulado e norteado à luz do Cristianismo, numa visão ortodoxa e conservadora) afirmando que toda mulher gosta de ser tratada como um fetiche. Mais: que caso ela não goste, é por que não achou o homem certo. Opa camarada, então se eu gosto de ser tratada não como um abajur, uma almofada ou um tubo, é porque talvez esteja com o marido errado? Já pensou na insanidade que essa afirmação traz?

Isso vai além do conceito de curtir fetiche, é curtir ser o fetiche do outro, e na insatisfação de não ser tratada como um objeto para o prazer.

A relação sexual é doação, é interação, que pode muito bem ser aprimorada com tecnologia. Ora, se a gente melhorou a maneira como se escreve, se registra, se transporta com tecnologia... claro que a maneira como se transa pode melhorar. Mas veja como essa tecnologia melhora a interação entre dois seres humanos, e não entre um ser humano e um pedaço de carne que virou objeto. A interação buscada é aquela em pé de igualdade, capacidade e participação.

Daí eu fico pensando em como isso explica muito do que vemos por aí: 
- celibatários involuntários amargurados dentro das igrejas porque trataram mulheres feito lixo. Tomaram tocos bem merecidos e agora imputam às mulheres da Terra a culpa por sua bestialidade;
- mulheres aos borbotões que nunca tiveram um orgasmo porque os caras simplesmente não conseguem olhar além do próprio prazer;
- canalhas que ofendem, batem, humilham esposas e são tratados com indulgência, como se o domínio próprio não fosse um fruto do Espírito Santo, mas sim uma raridade; 
- mulheres e homens viciados em pornografia, escravizados; 
- mulheres inseguras, sem referencial, obrigadas a aceitar bafo de cerveja e barba suja roçando no pescoço como sinal de submissão bíblica;
- divórcios sem qualquer esforço por mais doação, mais perdão, mais delicadeza; 
- pessoas com histórias terríveis de violência sexual no casamento, sendo submetidas a relações sexuais que as fazem sentir mal, tudo porque a anta (tadinho do animal. Anta não, o monstro) acha que está na cama pra ser servido. Para usar. E que o outro ou outra tem que gostar.

Pior disso tudo: gente que acha que frequentar academia ou fazer crossfit, usar barba de lenhador, tirar selfie com cara de fome, jogar sinuca tomando cerveja artesanal e saber fazer churrasco é saber ser homem.

Precisamos contar a verdade para essas criaturas que não são homens. Abaixo a falsa macheza cristã. Que esses movimentos de falsos machos sejam esvaziados. Eles estão criando estereótipos artificiais e afastando pessoas que não se enquadram da Ortodoxia Cristã.

Igualmente grave: pessoas estão sendo privadas de um sexo maneiro, tranquilo com gozo mútuo, aquele sexo de várzea, aquele sexo bem jogado, aquele sexo de um bom casamento. E enquanto não encontram seu parceiro para toda a vida, também são privadas de uma solteirice casta e saudável. Primeira Coríntios 7 nessas criaturas!

Fonte para alguma informação que mencionei. https://extra.globo.com/tv-e-lazer/gabriela-jose-wilker-fala-do-sucesso-do-bordao-deite-que-vou-lhe-usar-6007123.html

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade