
DEUS NOS SALVE DOS JUSTINOS
Quando o bordão "deite que vou lhe usar" (falado pelo Coronel Justino, personagem vivida por José Wilker no remake de 2012 de Gabriela), caiu nas graças do público, o autor Walcyr Carrasco informou ter apenas utilizado um termo comum dos anos 20, que fazia referência ao trabalho masculino nas preliminares. Virou meme, fez graça, e até hoje remete ao coronel baiano que pessoalmente considero inábil em lidar com mulheres, pra dizer o mínimo.
Lembrei dele quando refleti sobre como ver no outro um objeto para se obter prazer é algo há muito presente e normalizado, sobretudo numa sociedade de consumo. Se a comida, o vestuário, a maquiagem, o transporte - tudo é adquirido, comprado, selecionado de uma lista, se custa dinheiro... porque não haveria isso com o sexo? A relação sexual é apenas mais um serviço a ser prestado, e o prestador ou a prestadora, um local para se satisfazer, um vibrador ou "Egg TENGA" (dá um Google) só que de pele e por vezes mais barato.
Podemos discutir longamente (e deixo com os filósofos e teólogos) se é possível relacionar a sociedade fetichista e a Ortodoxia, ou se a desumanização dos fetiches não fere a verdade bíblica. Vai ter quem diga que o povo sempre foi criativo nos paranauês pra ter orgasmos desde que o mundo é mundo, que gastar e ganhar dindin com isso não é errado e etc... . Meu foco não é esse, e deixo esse debate para os experts.
O que quero focar é no absurdo que há hoje de homens (se propondo a ter um pensamento sobre masculinidade formulado e norteado à luz do Cristianismo, numa visão ortodoxa e conservadora) afirmando que toda mulher gosta de ser tratada como um fetiche. Mais: que caso ela não goste, é por que não achou o homem certo. Opa camarada, então se eu gosto de ser tratada não como um abajur, uma almofada ou um tubo, é porque talvez esteja com o marido errado? Já pensou na insanidade que essa afirmação traz?
Isso vai além do conceito de curtir fetiche, é curtir ser o fetiche do outro, e na insatisfação de não ser tratada como um objeto para o prazer.
A relação sexual é doação, é interação, que pode muito bem ser aprimorada com tecnologia. Ora, se a gente melhorou a maneira como se escreve, se registra, se transporta com tecnologia... claro que a maneira como se transa pode melhorar. Mas veja como essa tecnologia melhora a interação entre dois seres humanos, e não entre um ser humano e um pedaço de carne que virou objeto. A interação buscada é aquela em pé de igualdade, capacidade e participação.
Daí eu fico pensando em como isso explica muito do que vemos por aí:
- celibatários involuntários amargurados dentro das igrejas porque trataram mulheres feito lixo. Tomaram tocos bem merecidos e agora imputam às mulheres da Terra a culpa por sua bestialidade;
- mulheres aos borbotões que nunca tiveram um orgasmo porque os caras simplesmente não conseguem olhar além do próprio prazer;
- canalhas que ofendem, batem, humilham esposas e são tratados com indulgência, como se o domínio próprio não fosse um fruto do Espírito Santo, mas sim uma raridade;
- mulheres e homens viciados em pornografia, escravizados;
- mulheres inseguras, sem referencial, obrigadas a aceitar bafo de cerveja e barba suja roçando no pescoço como sinal de submissão bíblica;
- divórcios sem qualquer esforço por mais doação, mais perdão, mais delicadeza;
- pessoas com histórias terríveis de violência sexual no casamento, sendo submetidas a relações sexuais que as fazem sentir mal, tudo porque a anta (tadinho do animal. Anta não, o monstro) acha que está na cama pra ser servido. Para usar. E que o outro ou outra tem que gostar.
Pior disso tudo: gente que acha que frequentar academia ou fazer crossfit, usar barba de lenhador, tirar selfie com cara de fome, jogar sinuca tomando cerveja artesanal e saber fazer churrasco é saber ser homem.
Precisamos contar a verdade para essas criaturas que não são homens. Abaixo a falsa macheza cristã. Que esses movimentos de falsos machos sejam esvaziados. Eles estão criando estereótipos artificiais e afastando pessoas que não se enquadram da Ortodoxia Cristã.
Igualmente grave: pessoas estão sendo privadas de um sexo maneiro, tranquilo com gozo mútuo, aquele sexo de várzea, aquele sexo bem jogado, aquele sexo de um bom casamento. E enquanto não encontram seu parceiro para toda a vida, também são privadas de uma solteirice casta e saudável. Primeira Coríntios 7 nessas criaturas!
Fonte para alguma informação que mencionei. https://extra.globo.com/tv-e-lazer/gabriela-jose-wilker-fala-do-sucesso-do-bordao-deite-que-vou-lhe-usar-6007123.html