Inexistência

Aquele verão mudou tudo. Você subiu a escada às pressas, murmurando algo sobre como as ondas estavam leves e o sol, ardente. Eu te vi sorrindo depois de tanto tempo. As suas bochechas rosadas devido à exposição solar, seus joelhos cobertos de areia ainda molhada, e o barulho engraçado do atrito dos seus seios, dentro do bíquini lilás, e a minha camisa pólo.

Não parecia você. Tão desvinculada das amarguras do passado, tão esquecida dos problemas do cotidiano e da sua chefe materialista, suas colegas de trabalho que soletram seu nome errado e da lavadeira que manchou a sua blusa social de cetim com água sanitária. Éramos só nós dois e uma cidade inteira para desbravar.

Eu quis dizer Veneza, você preferiu Ipanema, eu questionei e sugeri Santos, você decidiu Búzios. A gente nunca fez sentido, fez? E na semana seguinte, já tínhamos as passagens compradas.

E você levantou cedo, mudou o canal de TV para algum seriado americano bobo, desfrutou dos meus beijos e bebeu do meu café. As suas impressões digitais na minha caneca. E seu cabelo despenteado no meu rosto. Tudo fazia sentido, até então.

O mês seguinte chegou e os segundos, um por um, destemperavam o nosso amor, fragilizavam-no. As cordas vocais do afeto já não emitiam som algum. Não havia nada, onde já houve tudo. E o amor caminhava a passos desesperadamente longos, à caminho da inexistência.