Millennial

Essas mãos suadas não são prelúdio de uma coisa boa. E diferentemente do que vivenciou Dante Alighieri, o melhor nem sempre vem no final. Nem sempre a conclusão é o paraíso. Boa parte das vezes, o desfecho é radicalmente menos poético e mais lacrimoso, eu que o diga. A vã tentiva de agir como quem não se importa é só um sintoma do quadro clínico sentimental de quem já sabe o que vem por aí. E o vôo foi tão grande dessa vez que ultrapassamos o céu, quiçá esta atmosfera individualista de amor instantâneo e superficial.

Os números contam, todos sabem. Contam mais do que os traços, o último livro lido, a gargalhada mais espontânea, o andar irreverente na calçada molhada. Eu quero saber de números, de quantidade. Quantos você beijou? Quantos seguidores? Quanto você gastou na noitada passada? Preciso saber se você se enquadra no meu padrão de qualidade millennial.

Se não existem máquinas do tempo, talvez seja porque o futuro não é assim tão brilhante, ou não somos tão brilhantes. Nesse mundo, agora, tudo é fosco. E o fosco é distorcido, indizível. E qualquer vestígio de sanidade se deslocou para as águas abissais de um mundo conflituoso e arbitrário. Seja quem você quer ser, dentro dos termos aceitáveis. Liberdade ilusória. Tudo é oco. Abra, não há nada dentro. É vazio. Não há nada dentro.

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