A crise dos blogs de ciência no Brasil — and le qüiproquó goes on

Meghie Rodrigues
Sep 4, 2014 · 35 min read

No exercício de me encontrar e me perder no meu objeto de pesquisa – os espaços de divulgação científica na Internet brasileira – me deparei com um debate super interessante que borbulhou no Twitter pela thread #blogciencia. Blogueiros trocam um dedo de prosa sobre a crise dos blogs de ciência no Brasil. Menos postagens, menos leitores, pouco tempo para escrever (ou menos assunto, até)?

Está sendo muito interessante acompanhar a fluidez e a rapidez com que um debate se multiplica na web. É fácil, por outro lado, perder a ponta do fio de Ariadne e se desorientar em meio ao mar de conversas que se espalham por todos os cantos: um papo tem origem no Twitter (e sim, é difícil conversar quando se tem apenas 140 caracteres por disparo). Não muito depois, logo já está no Facebook, há pessoas combinando hangouts para discutir a coisa com mais profundidade, e, como no caso a arena em questão é principalmente a dos blogs de ciência, muitos blogueiros se engajaram no debate e expuseram (e continuam expondo, até o momento) sua opinião sobre o assunto em seus blogs. Comentários geram mais comentários, posts, tuítes, e assim a coisa vai se expandindo. Uma forma de tentar mapear a avalanche, pelo menos como tentamos, neste caso, pelo Twitter, é através de hashtags. Para isolar a conversa em torno dos blogs, criou-se a #blogciencia, proposto por Rubens Pazza. Mas é claro que muita coisa escapa dela (já que não são todos os posts sobre o assunto que são tagueados com a hash), mas, mesmo assim, dá para se ter uma ideia de para onde a conversa vai.

O interessante da coisa é que a crise não está apenas na blogosfera brasileira: a estiagem é tendência mundial (o artigo é escrito por brasileiros do SciBlogs BR e publicado no fim do ano passado).

Pelo que pude perceber, quem levantou o assunto foi Roberto Takata, em seu blog Gene Repórter (em 1/10), em resposta a uma pergunta da Mariana Fioravanti, do Polimerase de Mesa, que queria saber como os colegas encontravam assunto para manter o blog fresco. A pergunta que ele faz é “há uma crise nos blogues brazucas de ciência?”, e chama a atenção para umareportagem da Pesquisa FAPESP (bem interessante) que aponta que, de 210 blogs analisados, apenas 97 publicaram alguma coisa este ano. Pode ser que muitos deles, pesquisadores, acabaram por terminar seus mestrados e doutorados e se encontraram sem tempo para atividades de divulgação científica, afogados pelas milhões de exigências mais urgentes da vida acadêmica. Ele admite que mesmo no Twitter a conversa esfriou um bocado, pelo que observou. E reconhece que, ao passo que os cortes nas redações sejam um ponto a favor de mais postagens, se sente desmotivado por condutas reprováveis de cientistas ultimamente. Ou pode ser que, como bem lembrado por uma deixa de Átila Iamarino (do Rainha Vermelha, que inclusive voltou a blogar depois de alguns meses de inatividade), os blogueiros estão envelhecendo e os mais jovens estão usando outras (novas) mídias.

Ele lança então uma pergunta aos colegas divulgadores: “E, então, meu par de leitores do GR, onde vocês têm publicado seu conteúdo de divulgação e/ou de onde vocês têm consumido tais conteúdos? Também têm notado uma diminuição no ritmo de novas publicações? Se você produz e tem enfrentado dificuldades, elas são de que natureza?”, a fim de abrir o debate – que foi e está sendo mais vívido pelo Twitter e por outros blogs do que nos comentários deste post (mas com uma notícia de crescimento positivo de pelo menos um site de DC, ao contrário da tendência no cerne da discussão).

Luciano Queiroz, do Dragões de Garagem, também acha que a questão é inquietante. Por que não se está blogando e nem criando mais blogs? A falta de tempo é apontada como a principal causa da primeira parte da pergunta. Já para a segunda, a “culpa” é do Facebook e do Youtube, segundo ele (onde a informação é “muito mais descartável e superficial”). Ataca as pseudociências (que são levadas em conta pelas pessoas porque os cientistas “são uns chatos” que não sabem falar na linguagem popular e precisam limar suas habilidades de comunicação). E linka para a discussão nos blogs de Takata, Carlos Hotta e Rubens Pazza (discutidos logo abaixo). Houve quem, nos comentários, comparasse a recepção pelo Youtube e o Facebook à passividade da mídia de massa (aliás, curioso o leitor ter postado o comentário via Facebook). Há também quem tenha uma visão menos apocalíptica e considere que os blogs não estão morrendo, e sim, se reciclando por meio de vlogs (como o Ciência no Cotidiano, citado como bom exemplo), que nem sempre são superficiais. “O Twitter e o Facebook não mataram os blogs”, alerta Alison Chaves, dono da observação. Ele diz que também tem um blog e tem uma quantidade razoável de visitantes – para quem não faz publicidade do próprio conteúdo. Para ele, devemos usar melhor essas novas ferramentas e chama a atenção para o preconceito que os cientistas têm em relação à DC. “Nós não respeitamos o trabalho de divulgação”, diz (a partir do que pode-se presumir que ele é cientista). DC não é prioridade, ainda (e não apenas ele diz isso, mas Rubenz Pazza, comentado mais abaixo, também). Num comentário logo abaixo, um leitor identificado apenas como Thomas levanta uma questão interessante: como exigir que as pessoas se concentrem nos textos de blogs (ou livros ou Facebook, que seja), se nem mais em mesa de bar elas conseguem se concentrar nos seus interlocutores (que por vezes perdem de 10x0 para os celulares)? Ele diz que a linguagem dos blogs é chata (imita portais educacionais, mas resumem a conversa). E acrescenta: “Outra coisa que percebo de errado é que nas pesquisas do Google e cia, sites de portais educacionais prevalecem como fonte científica, salvo o Wikipedia e HowStuffWorks. Estes portais educacionais não trazem novidades científicas, linguagem interessante (escrita ou imagens), nem buscam dialogar com os leitores. Mas infelizmente são a ponta da divulgação da ciência, já que possuem equipes, são antigos e possuem links patrocinados, etc”. Defende os vlogs, que, se bem usados, podem ser grandes aliados da DC, já que se comunicam mais diretamente com as pessoas através da linguagem audiovisual (parecendo afirmar que nossa cultura, que não é eminentemente literária, agradece). Mas admite que “cada linguagem tem sua vantagem. O Vlog é bom parar passar conteúdos pontuais, como “aula”, mais animada ou uma reflexão mais pontual (se o vlogger tiver carisma), experiências e aumenta o contato do leitor com o vloggeiro. O blog imagino que é bom para reflexões sobre assuntos mais delicados, divulgação de coisas novas (como tradução de artigos) e “aula” de curiosidades (como HowStuffWorks). Mas a escrita sempre será uma linguagem mais fria. É igual dirigir, usando uma comparação louca e exagerada… você dá a seta, ninguém respeita, quando coloca a mão, todo mundo respeita. Ver o rosto da pessoa, ouvir sua voz e ver que é humano, atrai atenção”. Lucas Camargos, do Dragões de Garagem, também comenta a postagem e concorda que vlogs e Facebook não são vilões na história. “Eles (principalmente o FB) estão em uma camada mais superficial da divulgação científica, sem tanto “tempo” para explicações mais detalhadas, e sem indexação. Entretanto, profundidade não é sinônimo de acuidade” (grifo meu — e é exatamente este um dos pontos que eu havia levantado anteriormente na conversa do Twitter, que vou detalhar mais para frente). E complementa: “O I Fucking Love Science da Elise Andrews é um exemplo de pouca profundidade e alta precisão científica. Ela ainda cita os links para quem quiser se informar melhor para o assunto. Acho que se os blogueiros atuais usassem essas ferramentas modernas complementando os blogs, seria uma maneira de manter o fluxo de leitores a todo vapor”. O administrador doCiências e Tecnologia concorda com as afirmações anteriores e diz que o Facebook não é uma ferramenta tão boa para DC assim, já que o alcance diminui a cada dia (?).

Rubens Pazza, do DNA Cético, também deu sua contribuição (que inclui adicionar à página um feed que agrega, em tempo real, todos os tweets que se remetem à hashtag #blogciencia, para que os interessados sigam a discussão pelo blog) e lançou uma observação interessante: “Será que a visibilidade dada a um blog do Scienceblogs ofusca blogs “fora do eixo”? Aparentemente estamos com dois problemas: não estão surgindo novos blogs e os que existem diminuíram a produção”. Ele também admite ter pouco tempo para se dedicar à DC e seu blog por causa das milhares de obrigações da vida acadêmica pós-vida-de-pós-graduando. Pelo menos para os cientistas, a vida acadêmica deixa pouco tempo livre para atividades extras. Minha dúvida é: e os jornalistas que se dedicam à DC também em forma de blogs? Será que eles enfrentam os mesmos problemas ou que restrições de tempo encontram, já que a diminuição da produção é geral? (lancei a pergunta no Twitter também, espero ver manifestações em breve). Por falar em cientistas, jornalistas e outras pessoas dando suas contribuições para DC, vi um outro post de Pazza, mais antigo, “quem é que faz divulgação científica?”. Ele defende que a DC seja mais estimulada pelos órgãos públicos e que ainda estamos engatinhando neste sentido. Os cientistas, para ele, também deveriam falar sobre suas pesquisas diretamente para o público e não apenas esperar que jornalistas falem sobre seu trabalho. Divulgação científica, argumenta Pazza, “é tão importante quanto o desenvolvimento de uma nova tecnologia”, uma peça fundamental para a ciência e para diminuir o tão-falado analfabetismo científico. Mais tarde, ele se pergunta sobre como alavancar a DC no Brasil e da pergunta surgiu um “bolsão de blogs”, que serve como agregador de postagens em tempo real – e faz com que a informação fique mais à mão. Esta parece ser a sugestão do ciberativista Filipe Saraiva (que não é blogueiro de ciência mas acompanha o debate de perto), quando sugeriu um “planet de blogs” de ciência no Brasil – o que poderia ajudar a informação circular mais rapidamente e criar laços mais fortes entre os membros da comunidade da DC no país. E, quem sabe, ajudar a tirar da inércia a blogagem “jornalística” da ciência por aqui. Posteriormente, ele criou um “planet” em que é possível seguir postagens de blogs agregados. Numa outra postagem, Saraiva retoma o conceito e o funcionamento de um planet e algumas diferenças que existem entre o planet que criou e o Bolsão de Blogs criado por Pazza (textos completos no planet x fragmentos de textos no Bolsão e saída para redes sociais, por exemplo).

André, do Ceticismo.Net (em 05/10), em “Mãe, quando crescer quero ser divulgador de ciência”, também fala da discussão, num tom de desabafo. Que tem munição para a grande mídia (“lixo”, “merda”), para os leitores (gente “passiva” e “desinteressada”) e jornalistas (“jornaleiros” descerebrados e preguiçosos, que só matraqueiam o que lêem por alto). E levanta alguns pontos interessantes: sim, a maioria dos blogueiros de ciência fazem o que fazem por gostar de divulgação, não por serem pagos para tal (“tempo e dinheiro. Ou se tem um, ou se tem outro”), e não há condições de competir com a grande mídia nacional, que, para ele (com muito poucas exceções e, ao contrário da internacional, que é melhor), não faz mais que espalhar desinformação por onde quer que passe. Falta de tempo, não-profissionalização dos blogueiros, falta de incentivo monetário (sustentabilidade) e desinteresse dos leitores são os principais causadores da crise, segundo André. E sim, o Ceticismo.net se descreve como um espaço de discussão de ciência e um veículo de divulgação científica na web. No entanto (e nisso não há nada de contraditório), boa parte das postagens se dedica ao que o próprio nome propõe – defender o ceticismo – e se empenham numa cruzada para desmistificar e desmontar as pseudociências e todas as religiões, que… obscurecem o entendimento da humanidade e a impedem de encontrar a luz da ciência. Este é um nicho que também tem seus leitores.

Carlos Hotta, do Brontossauros em meu Jardim, também entra na discussão e retoma o que Takata levanta: considera que não apenas os blogs estão esfriando, mas também há um número menor de outros surgindo e lembra que, para muita gente, blogs já são uma mídia ultrapassada (e pra onde estão indo, então?), para ele, são uma excelente ferramenta para DC (já que dá para tratar temas mais em profundidade, como foi falado no vai-e-vem da conversa no Twitter). Mas ele levanta uma questão muito interessante: “Eu tenho uma teoria, uma que vem me assombrando há anos e que acho que pode ser verdade: será que a existência de um condomínio de blogs de Ciência como o ScienceBlogs Brasil pode ter inibido a proliferação de blogs de Ciência ao invés de fomentá-la, como eu cri que ia acontecer?”.

Um comentário muito interessante ao post é de um leitor identificado como Cardoso, e diz o seguinte: “Não creio que iniba. O problema é que, principalmente agora que o Dolby morreu, o ruído é muito alto. Escrever sobre ciência é fácil, complicado é passar a maior parte do tempo defendendo o texto, evitando que seja “destruído” por comentaristas predadores. É MUITO complicado para um blogueiro iniciante, em geral também iniciante e no rodapé da cadela alimentar, ouvir todo dia que o blog dele é uma merda, que TODO post está errado e ele não deveria… tentar. Acho que uma boa solução seria fomentar esses novos autores em blogs de maior visibilidade, onde possam ter seu trabalho reconhecido, criar um nome e então partirem para uma carreira solo, já com um público cativo. O SBB NÃO é essa solução, pois embora funcione como portal, os blogs ainda são individuais e em sua maioria estanques. É preciso uma revista, não uma estante”. Houve também quem dissesse que os blogs no Brasil são poucos e as discussões, por vezes, irrelevantes (“meras notas de rodapé”) e quem defendesse a “terceirização” de posts para orientandos ou uma blogagem coletiva, mesmo que às vezes seja difícil que blogueiro e editor entrem em consenso.

Hotta também compilou alguns blogs fora do circuito SciBlogsBR e chama atenção para o fato de que, afinal, a produção ‘bloguística’ pode estar em baixa, mas não está tão em baixa assim.

Retomando um parágrafo anterior: por falar em “para onde está indo a DC?”, lancei a pergunta no Twitter para o #blogciencia (“que outros espaços vocês vêem como DC na web além dos blogs?”) e o @luizbento disse o seguinte: “@meghier algumas iniciativas estão começando no yt. Exemplo:http://bit.ly/1fbznBt #blogciencia”. O biólogo do Discutindo Ecologiasinaliza que vídeos (e podcasts, por falar nisso) podem ser o futuro da DC na web. Lembrei de outras iniciativas como o Manual do Mundo e claro, as animações do Universidade das Crianças (por que não?). Mas é um ponto a ser pesquisado mais a fundo.

No Química de Produtos Naturais (link que, junto com a discussão noCeticismo.net, só fui ver numa das postagens de Roberto Takata sobre o assunto), o professor de Química do IQ-São Carlos (USP) Roberto Berlinck também se pergunta se existe uma crise nos blogs de ciência do Brasil – e acha que não. Para ele, mais que tempo, falta motivação dos pesquisadores para blogar. Não falta assunto, mas reconhece que há pesquisadores que não valorizam a divulgação científica, como se fosse uma atividade menor e dispensável. Disse já ter escutado de colegas que “ler blogs é perda de tempo, os alunos deviam ler artigos e estudar” (mas diz não poder discordar dos colegas). Berlinck faz uma digressão pelo tempo em que manteve o Química Viva no SciBlogsBR e diz ter gostado da experiência. Ele chama atenção para o fato de que as pessoas comentam pouco (pelo menos no seu blog) – os alunos por vergonha, os colegas, não se sabe o porquê – e diz não gostar de usar o Facebook para divulgação científica porque “ali a informação é por demais superficial e efêmera. É ótima para troca rápida de mensagens, e informações, mas não para se debruçar especificamente sobre determinados assuntos”. Num comentário à postagem (publicada no mesmo dia que o texto dele, dia 05/10), uma leitora identificada apenas como Sibele diz que acha que pela postagem, Berlinck discorda, sim, dos colegas que acham que ler blogs é perda de tempo. Ela completa: “Acho até mesmo que postagens como as do Research Blogging, comentando determinado artigo, pode até mesmo despertar mais interesse para a leitura integral do artigo fonte. O caso é que nosso modelo de educação não aceita formas alternativas de aprendizado. E vc está certíssimo quando vê os blogs como “plataforma de informação muito rica, que pode ser utilizada de diferentes maneiras, com diferentes pontos de vista, níveis de informação e com diferentes objetivos”. Mas parece que todo esse imenso potencial está sendo menosprezado e negligenciado – e continuará, enquanto professores como o que emitiu essa opinião de que “são pura perda de tempo” não mudarem sua postura”. E lembra-o que acha que ele deveria voltar a blogar. Berlinck ainda não replicou a mensagem (08/10). Achei interessante o diálogo porque Berlinck não vê a crise apocalíptica prenunciada por alguns colegas (mas admite que falta tempo para ler os blogs, e não se pode negar que isso afeta a percepção que ele tem da situação) e vê nos blogs uma ferramenta para comunicação de nicho, para pessoas que já estão interessadas – mas percebo pouco a relação que a atividade teria com o gerar interesse em leitores novos ou atrair pessoas no grande “lá fora” – e isso vem de encontro com a opinião corrente de outros blogueiros na conversa que pude acompanhar.

Carlos Orsi, em seu blog, também entra na discussão. Para ele, os blogs estão em crise, sim, porque muito do conteúdo está migrando para espaços pagos. Para ele, além da falta de tempo e das exigências da academia, a falta de remuneração é um fator que não pode (não deve) ser desconsiderado. Grandes editoras sabem que não basta que o blogueiro seja apenas bom, é preciso saber como se paga as contas no fim do mês. Blogueiros como Phil Plait e Carl Zimmer, diz ele, hospedam seus blogs em domínios de grandes conglomerados de mídia que, certamente, pagam pelos caracteres que produzem. Com a profissionalização e com as pressões da vida cotidiana, é possível que a produção dos blogs diminua mesmo. Não se pode cair na dicotomia de gente que bloga só por dinheiro (“mesquinha”) ou por amor, com senso de dever (“narcisitas bobinhos”). É preciso enxergar a realidade como ela é e não como gostaríamos que fosse. Ele aponta que sim, muito do debate está nas redes sociais – mas elas não têm entre sua maior especialidade oferecer espaço para a reflexão, mas sim serem “caixas de comentário infinitas” e lugares que linkam sempre para uma fonte exterior a elas (e talvez, aí sim, o campo do verdadeiro debate). Num dos comentários, o leitor Ricardo França diz que os jovens visitam “veículos essencialmente voltados para a aparência e o consumo rápido de informação como é o caso dos vlogs” (grifo meu). E continua: “Na sua maioria estes são bancados pelo Youtube (c/ o velho perigo de se colocar todos os ovos num cesto só) e a competência de cada vlogueiro em chamar a atenção é muito mais diretamente relacionada ao faturamento do criador do vlog. Alguns deles passaram a viver disso, Mesmo considerando que a maior parte destes são não especializados (ou até por causa disto) conseguiram visibilidade e penetração geral de suas idéias de forma muito mais efetiva e rápida que qualquer revista ou jornal genérico, cujos gerentes mal se deram conta ainda da perda progressiva de sua importância”. A dica dele é que os blogueiros invistam em vídeos e sigam o exemplo do Pirulla (outro canal do Youtube), que conta agora com 100 mil seguidores agora, depois do 100º vídeo publicado.

A contribuição do jornalista Bruno de Pierro, “a grande conquista dos blogs de ciência no Brasil”, faz referência aos posts de Takata e Hotta e retoma as questões mais pungentes da discussão. Por que não se está blogando? Por que não estão surgindo novos blogs? Para além da alegada falta de tempo devido às exigências da academia, Pierro diz que, no debate que acompanhou pelo Facebook, houve quem dissesse que cresce o uso do Twitter, do Youtube e do Facebook para divulgar a ciência diretamente – ao invés de apontar para um blog ou para um site de conteúdo. Ele não concorda que a falta de tempo seja uma desculpa para a freqüência parca de postagens. Um pesquisador ou jornalista pode repercutir assuntos com os quais está envolvido. “O que quero dizer, portanto, é que o blog pode sobreviver não de restos, mas da criatividade do escritor de dar novas significações a elementos de seu próprio cotidiano. Não se trata de transformar o blog em um “repositório de sobras” do mestrado ou da pauta jornalística, mas, às vezes, um espaço que, ao invés de conflitar com o cotidiano do blogueiro, torna-se um complemento”.

Pierro lembra que, caso um blogueiro se utilize de fontes jornalísticas tradicionais para repercutir em seu blog, o ideal seria fazer comentários e críticas, não apenas repetir o que todos estão dizendo. “O desafio, no entanto, é fazer com que cada vez mais os blogs dependam menos da produção jornalística tradicional. Quanto mais um blog depende disso para prosseguir, mais refém se torna dos altos e baixos da grande mídia”. Muitos blogs diminuem sua produção por conta da baixa da produção em sites noticiosos, lembra Pierro. Uma resposta interessante a isto seria ter mais contato com as fontes primárias: repercutir artigos diretamente, pesquisas de campo ou arquivos originais. Assim, lembra ele, é possível encontrar boas histórias e ainda acrescentar algo novo. Ele repercute a teoria de Carlos Hotta (de que o SciBlogs BR pode estar inibindo ao invés de estimular a criação de novos blogs de ciência no país) e admite que sim, pode ser que o condomínio tenha estimulado um movimento de fechamento ou insularização (como o próprio debate, que ficou restrito aos blogueiros de ciência, que se conhecem e se reconhecem). Para ele, pode ser que sim, a criação de um condomínio como o SciBlogsBR tenha por tendência formar um nicho. E tem algo que diz que me chamou muito a atenção. “Assim, a produção dos ScienceBlogs fica restrita aos grupos interessados especificamente em blogs de ciência — não falo nem em público interessado em divulgação científica, que é maior”. Os blogs seriam, claro, um subconjunto dentro do conjunto maior que chamamos de divulgação científica na web. Mas o que o leva a diferenciar o “público interessado em DC” e o “público/nicho interessado em blogs” é que me chama a atenção e acho que vale a pena investigar.

Um ponto que, particularmente, considero bastante relevante na discussão de Pierro foi ele ter levantado que a dicotomia redes sociais x blogs é, afinal, infrutífera e não faz sentido (comentários como “blogs são melhores que o Facebook porque conseguem entrar nos assuntos com mais profundidade”, como vi no Twitter e como respostas a postagens em blogs) porque trata-se de duas linguagens diferentes – e, eu acrescentaria, com propósitos diferentes. Eles se complementam na complexidade da DC na web, ao invés de se excluírem. Um post num blog ou em uma revista repercute em um link veiculado pelo Facebook ou no Twitter, que geram comentários nas redes e dão origem a outras postagens… enfim. Há muita coisa nesse processo, que faz com que seja intricado e complexo. Por fim, Pierro chama a atenção para o fato de que muitos blogs vêem como objetivo competir com os veículos tradicionais de mídia, fazer a mesma coisa que eles fazem. E critica a posição “ufanista” (acrítica) que estes blogs têm em relação à produção científica: mostram apenas as novidades e suas aplicações, não mostram buracos, contradições, dissensos inerentes ao funcionamento da ciência. “Not in front of the children”, como diria Lewenstein em outra ocasião. Muitos blogs, então, não seriam desafiadores do status quo da ciência, mas sim seus reforçadores. “Talvez a busca por uma explicação do porquê autores de blogs de ciência vem publicando menos no Brasil deva levar em conta uma discussão sobre o próprio papel dos blogueiros”, lembra ele. E acrescenta que “a perda de entusiasmo em publicar mais pode ter raízes numa surpreendente tomada de consciência: a de que podemos estar utilizando novas tecnologias para dar voz aos que já são amplamente ouvidos. Novas possibilidades de narrativas, mais próximas da arte e menos tecnocratas, surgem num horizonte próximo”. Como “grande conquista dos blogs de ciência do país”, Pierro considera que seja sinalizada pela autocrítica e pelo debate sobre os blogs por parte dos blogueiros no Brasil – o que pode trazer um impacto muito positivo para este nicho de divulgação.

Outras manifestações que também surgiram na thread #blogciencia foram uma postagem da bióloga Mariana Fioravanti (que era, originalmente, um comentário a outra postagem de Bruno de Pierro, que elevou o comentário a postagem), em que falam sobre o alcance dos blogs de ciência. Compara a quantidade de seguidores no Twitter e curtidas no Facebook do SciBlogsBR (numa quantidade bastante menor que as outras, o que parece confirmar a ideia de Mariana: dá-se muito mais legitimidade e confiança aos grandes veículos, como se produzissem informação mais confiável que os blogs – o que, definitivamente, não é verdade) e das revistas SuperInteressante, Galileu e Ciência Hoje – numa tentativa de entender qual é o perfil das pessoas que lêem blogs e as revistas na web (ou, mesmo que não leiam, ao menos se interessam). Em algum momento da discussão, também foi compartilhado um link do blog dos biólogos Breno Alves e Luiz Bento, “como a web 2.0 está mudando a ciência. Para melhor”. No texto, Luiz Bento faz um resumo de uma palestra que deu no Centro Universitário de Volta Redonda (RJ), em que abordou as mudanças que a web 2.0 está trazendo para a ciência. Para ele, o impacto da web é ainda maior que o dos periódicos científicos do século XVII. Para ele, a web é uma ferramenta importante no engajamento do público e para uma maior transparência de processos – mas ainda vê a divulgação científica como um meio de trazer apreciação pública da ciência (apreciação que pode ser tida como compreensão pública da ciência – no mesmo sentido que se acreditava na era da Big Science, depois da 2ª Guerra Mundial). “Talvez pela primeira vez iremos fazer uma divulgação científica verdadeira, onde não precisamosconvencer o público que ciência é importante. O público atualmente pode participar ativamente tanto do financiamento de trabalhos científicos como da análise e produção de dados que servem como base para muitos artigos publicados recentemente” (grifo meu).

Ele faz uma digressão pelas mudanças que os periódicos científicos trouxeram para a forma como a ciência era comunicada na Europa do século XVII: eram mais baratos que os livros, confiáveis (revisados por pares) e tinham um alcance maior que as reuniões científicas e não eram tão secretos quanto as cartas. No entanto, prossegue ele, a dinâmica dos periódicos pouco mudou com o passar dos anos e o que antes era uma vantagem acabou por se tornar em desvantagem. Os periódicos científicos não acompanharam as mudanças sociais na mesma velocidade em que elas aconteceram. A lentidão na revisão, a falta de isenção nos pareceres e o controle dos periódicos por grandes editoras são pontos que contam contra eles. E isso não mudou com a web, mas há sinais de que nem tudo continua a mesma coisa: PLoS e ArXiv são exemplos disso, e ta,bem a forma como se ensina e aprende – e se faz DC – mudaram em vários pontos com o advento da web. Crowdfunding e MOOCs estão mudando o cenário. Do lado da divulgação científica, Bento cita o papel do Science Blogs para “reinserir a ciência na cultura” ou do Manual do Mundo para “despertar a curiosidade” das pessoas e do Dragões de Garagem e do Fronteiras da Ciência para que se possa “participar de uma conversa de bar e realmente entender o que está sendo falado”. E fecha o texto reafirmando o que tinha dito no início: “A Web 2.0 pode trazer a ciência não só para perto do grande público, mas fazer com que ele participe em tempo real e ativamente do processo científico. Acho que não existe uma melhor maneira de fazer divulgação científica do que colocar o público dentro dos nossos muros e não apenas dizer para eles como a ciência é importante através de cartas e vídeos enviadas da nossa torre de marfim”. Coloca alguns links interessantes sobre o assunto e traz à baila a postagem de Bruno de Pierro, “o pluralismo científico na web 2.0”, em que acrescenta às observações de Bento a ideia de que a comunicação pode fomentar uma ciência mais pluralista e menos autoritária (no que parece remeter um bocado às ideias de Michael Gibbons sobre a “ciência modo 2”) e que a web teria um papel importante nessa transformação. “Diante de uma mídia tradicional especializada, setorializada e repartida por editorias, as comunidades de blogs de ciência emergem como possibilidade de subverter a produção simbólica do jornalismo ao dar a chance para que não só os atores do sistema de ciência e tecnologia, mas também o leitor comum noticiem a si mesmos e levantem questionamentos”. E acrescenta: “Quando Bento afirma que “é preciso convencer o público de que ciência é importante”, de que ciência está falando? E quando diz que a participação do público em assuntos científicos ajudará a aumentar a participação deste público no financiamento de trabalhos científicos, novamente pergunto: financiar qual ciência?” – a ciência moderna ocidental, que se impõe e parece fagocitar todas as formas de conhecimento que escapam de sua lógica e padrões, ele logo conclui. “Portanto, quando defendemos o acesso aberto à ciência moderna praticada hoje, afirmando que ela é importante, temos que levar em consideração seu potencial monolítico de destruir idéias outras — idéias que estão fora dos padrões”, adverte. “O movimento open access na ciência deve levar em conta essas questões, caso contrário estará limitado a ser um movimento que luta por uma falsa democracia: a democracia que permite o acesso de todos somente a uma única forma de conhecimento, a um único padrão metodológico de pensamento”. Ele defende, então, que a ciência também precisa ser plural (precisamos, na verdade, rever nosso conceito de “ciência”) e não apenas um instrumento de dominação e uniformização de ideias e conceitos – e culturas. Roberto Takata, que leu o post, levanta uma questão (na verdade, algumas) nos comentários: “O problema é também o que entra no pluralismo científico. O negacionismo climático? O criacionismo? A tese do Todd Akin de que estupro não engravida? A memória d’água de Montagnier? A homeopatia ambiental? O lisenkoísmo? As “diatomáceas” alienígenas na estratosfera? Tudo isso?”. Ele parece assim defender a ciência ocidental, moderna e uniformizante que, caso não prevaleça, pode dar lugar a um punhado de teorias pseudo-científicas. Talvez o debate não seja polarizável entre ciência empírica x pseudociência. É verdade que muitas das teorias pseudocientíficas nasceram no seio da sociedade ocidental, sendo facilmente falsificáveis e desmontadas através da empiria cuidadosa e não resistem à passagem pelo crivo do método científico. O problema está, talvez, creio eu, em se julgar uma teoria concebida em outra cultura pela ótica ocidental e prestar-lhe demérito por não passar pela prova do método que conhecemos. Há que se levar variáveis históricas e sociais em conta e perceber que o modo como a ciência é feita e concebida não é e não pode ser absoluto, um valor imutável. Mas este é um terreno movediço — também não se pode cair no relativismo extremo e considerar que tudo, então, é ciência. Não é. Ocidental, oriental ou o que seja, sempre existem parâmetros pelos quais é possível dizer se algo é ciência ou não. É preciso saber sob que premissas se parte quando se usa o termo.

Por último, mas não menos importante (último, nas minhas anotações ao menos até o momento), cabe citar a postagem de Átila Iamarino no Rainha Vermelha, “Bem-vindo de volta ao Rainha Vermelha” (que vale a pena ler), que marca a volta do biólogo para a blogosfera, depois de alguns meses de inatividade (o que confirma a teoria de Takata). Ele cita (linka) toda a discussão anterior, feita nos blogs discutidos neste texto. Ele diz que costuma usar o Twitter para compartilhar links ao invés do Facebook (um buraco negro no mundo virtual). Iamarino diz que discorda da ideia de Hotta de que o SciBlogsBR inibiria a formação de novos blogs (o que era de se esperar, como um dos gerenciadores do cluster de blogs no país). Ele conta que, numa pesquisa da qual participa sobre o Research Blogging, percebeu que o número de postagens de fato caiu entre 2010 e 2011 – no entanto, o número de citações de artigos aumentou. Ou seja, a quantidade das postagens diminuiu enquanto a densidade delas aumentou. E advoga: “Ainda considero blogs exatamente isso, a melhor plataforma para conteúdo denso. Tanto que estou escrevendo aqui e não no buraco negro do Zuckerberg. Quero que este post continue aqui em uma semana. E quero que quem busque por ele no Google ainda o encontre”. No entanto, admite: “Agora, não tenho esperança de que seja lido por muitos”.

Ele defende que blogs são importantes para a formação do pesquisador, é importante para mostrar a produção e as preferências dele, funcionando como uma vitrine – e, não raro, como um agregador de pessoas para colaborações e um portfólio profissional como divulgador. No entanto, blogs não são e não serão tão cedo (ao menos os de língua portuguesa, como ele observa) fonte de renda. Quem bloga o faz por entusiasmo com o que trabalha. Ele traça um gráfico super interessante que mostra sua visão do assunto: ele enxerga os blogs como na base no quesito “apelativo ao público”, enquanto Facebook e podcasts são mais atrativos e Youtube, nerdcasts e blogs de humor são os mais atrativos ao público. A divulgação científica existe em todos estes espaços. O público, ele observa, migrou para outros espaços. Não é para o grande público que se escreve em blogs – e quem lê é a própria comunidade que produz conteúdo também, a quem ele chama de “compadres”. Uma observação particularmente interessante é a de que “Fora mídias como blogs de tecnologia ou o Nerdcast, com um público cativo, a massa que a divulgação busca não está aqui. O Pirulaconseguiu em um ano ou dois de vídeos regulares (se descontarmos os poucos vídeos mais antigos) mais de 100 mil assinantes. Adoraria conhecer um blog que não seja de humor com esse número de assinantes de feed. O mesmo vale para o vídeo do Eli Vieira, discutindo ciência pesada, com mais de um milhão e meio de visualizações” – lembrando que este último vídeo que cita se trata da resposta de um geneticista ao pastor Silas Malafaia sobre a polêmica da homossexualidade – ou seja, um tema realmente polêmico e de alto teor de interesse público, materializado nos mais de um milhão e meio de visualizações. Uma colocação interessante que também merece mais observação.

Houve comentários de leitores felizes com a volta do blog, mas um que achei particularmente interessante foi o de André Rabelo, blogueiro do Research Blogging. Ele considera que a queda no número de publicações se deve ao mau funcionamento da plataforma (que é pouco flexível em alguns aspectos) e não necessariamente a algum dos outros motivos levantados pelos outros blogueiros na discussão. Ele também não concorda que o SciBlogsBR possa inibir a criação de blogs novos (“confesso que não consigo entender a lógica dessa ideia ou o porquê isso seria plausível de se pensar”), mas não me parece que ele tenha levado em conta a ideia de que a sinergia estimulada pela criação de uma comunidade pode, quiçá, gerar um círculo vicioso tanto quanto um virtuoso: pode ser que os blogueiros do SciBlogsBR se citem uns aos outros, se comentem uns aos outros e assim formem um clubinho denso, no qual é difícil ter entrada ou abertura. Acredito ser nesse sentido a observação/crítica de Hotta.

No Facebook

Ainda no dia 01/10, Takata escreve uma segunda parte para o post, em que resgata boa parte da discussão ocorrida no Facebook focando na produção e crise dos blogs de ciência (algo interessante — lá a discussão foi engatilhada por Carlos Hotta e compila postagens de outros blogueiros sobre o assunto, pelo menos as do dia 01/10, mas a thread não pára de crescer). Ele também chama a atenção para (e reproduz em seu blog) um outro comentário, também no Facebook, de Wesley Santos, aluno finalista de Biologia da UNESP, que bloga no Do Nano ao Macro. Santos linka para a postagem de Carlos Orsi (que defende que o ritmo de postagens diminuiu porque os blogueiros, afinal, precisam se manter financeiramente – e se não são pagos para tal, fica difícil manter a regularidade). Ele concorda com Orsi e ressalta que o trabalho de blogar envolve muita pesquisa e um exercício intenso de escrita, o que toma tempo: “Embora não tenha ‘respondido’ diretamente ao Takata, que começou com esse tipo de questão em seu blog, realmente o maior problema é a falta de tempo em sentar na frente do PC, pensar num tema bacana e escrever, pesquisar, descobrir que não sabia nada no assunto, pesquisar, pesquisar, escrever, achar imagens (de preferência em CC), ver se está certo, publicar. Não é nada fácil” – não teve comentários que dialogassem com a postagem ainda (08/10).

Carlos Hotta, em seu perfil do FB, levantou assim o assunto, em sua página pessoal: “queria começar uma discussão importante, levantada pelo Roberto Takata”. E linka para o post que escreveu no Brontossauros em meu Jardim, “cadê os blogs brasileiros de ciência?”, ao que Takata estranha “Como o SBBr poderia inibir a criação de novos? Pela visibilidade?” e Hotta rebate, “Acho q o SBBr diminuiu a linkagem p/ blogs fora da rede. Visibilidade dá falsa impressão de saturação da comunidade. A comunidade deu uma fechada. Há a sensação de que tudo já é discutido pelo site”, mas reconhece que pode não ter a visão da figura completa, uma vez que estava no olho do furacão. Takata convida outros blogueiros/divulgadores para participar da conversa.

Thiago Henrique Santos não acredita que o SbBR tenha influência no processo. A sensação de comunidade fechada não é o suficiente para inibir outros blogs de pipocarem pela web. Ele admite que não bloga com tanta freqüência (no Polegar Opositor, que inclusive saiu do ar e só existe no Facebook, pelo que parece) porque entrou em um esgotamento e que a falta de tempo resvala na falta de interesse. Culpa do mestrado. “Quanto a isso, gosto de culpar o mestrado, digo que foi um esforço intelectual tão grande que meu cérebro entrou em modo “férias por tempo indeterminado”, mas eu sei que é mais que isso”.

Rafael Bento Soares não acredita que o SbBR tenha influência na criação ou na morte de novos blogs por conta das linkagens internas. Para ele, isso é assumir um poder e um alcance que a rede não tem. “Linkagem interna eu aposto que não fica acima da média entre posts de dentro e de fora do SbBr”. E continua: “Algumas contribuições: 1- O blog enquanto mídia atingiu seu plato, simples assim. É importante,estará sempre lá, mas nao cresce mais. Talvez ate caia um pouco até estabilizar. 2- leitores estão se satisfazendo com info, ou se distraindo, com o facebook. 3- É uma crise mundial na divulgação cientifica! Em congresso recente os top bloguers são os mesmos de 5 anos atrás(tempo que é uma eternidade no meio digital). A coisa mais surpreendente que apareceu foi no facebook, o I F* Love Science. Tudo está muito parado. Pessimistas podem pensar que ninguem quer saber disso mesmo, otimistas pensam que é a calmaria antes de alguma coisa nova e revolucionária”. E diz mais: “Aliás, perceba onde está acontecendo essa discussão: não na seção de comentários do seu blog, e sim no facebook. Isso é importante pq desestimula escrever se ninguém comenta abaixo, então o impeto de quem quer escrever é saciado no face mesmo”. Ao que Hotta observa: “O Facebook é uma ferramenta melhor para se ter conversas. Mas muitos blogs prosperaram via Facebook e Twitter”. Takata lembra que os índices do Technorati baixaram talvez por a conversa estar migrando para o Twitter e Kentaro Mori diz que “está todo mundo no Facebook, até os cientistas”. E por isso não surpreende o fato de que a produção e a audiência de blogs tenha caído enquanto comunidades de ciência no Facebook aumentam vertiginosamente (o “I Fucking Love Science” tem mais de 7,5mi de curtidas e mais de 2mi de talking abouts. Tem um canal recém-criado no Youtube e sua criadora, Elise Andrew, foi até entrevistada pelo Guardianrecentemente. Resta saber que tipo de interação essa quantidade de curtidas representa).

Takata pergunta: “Mas os que reduziram seu ritmo de blogagem estão publicando mais no FB? Os novos que publicam no FB têm um ritmo igual ou superior de publicação em relação aos blogueiros em 2009?” e Mori responde: “São dois (ou mais) “fenômenos”: o principal é que são raríssimos os autores que conseguem manter uma produção estável por longos períodos sem uma motivação financeira, em qualquer meio. O fenômeno secundário que é o que discutimos são os blogs, e eles são uma das ferramentas que facilitaram a divulgação — e, apenas como um leve empurrão, incentivaram a própria produção — de autores em uma fase de alguns meses a alguns anos em suas vidas. Mas como fenômeno secundário, como ferramenta para incentivar e divulgar conteúdo, o Fb como um todo com certeza se mostrou uma ferramenta que atrai um leque maior de autores, todo mundo é autor, criador. Uma das satisfações não financeiras de ter um blog era o retorno dos leitores, e o Fb permite essa gratificação de forma muito, muito mais fácil”.

Takata se pergunta se a mobilização cética também “começou a se esvanecer na mesma época” ou se todos os que migraram para o Facebook acham que está bom assim. Ao que Kentaro Mori responde: “Há comunidades de entusiastas de ciência no Facebook com mais colaboradores, audiência e produção de conteúdo que o SbBr jamais teve. Acho que ordens de grandeza maiores, chuto que superando em termos absolutos de engajamento até grandes sites mainstream de antigamente como a SUPER. Hoje, até os blogs de veículos grandes como a Super têm pouco engajamento — ou, continuam como sempre estiveram”. Ao que Takata rebate com outra pergunta (que também é dúvida minha e eu faria se estivesse acompanhando o debate pelo FB): “A produção no facebook tem a mesma natureza? Ou realmente se reduz a um link ou uma foto com uma linha ou duas de comentários? Quantos estão produzindo conteúdo mais substancioso no facebook?”, Mori rebate que “A produção no Fb com certeza não tem a mesma natureza, mas o que importa é o engajamento medido em visitantes únicos e tempo consumindo o conteúdo, e por essas métricas várias páginas de ciência no Facebook superam os maiores sites de ciência, de grandes veículos, de alguns anos atrás. Da mesma forma que a tecnologia produziu essa coisa fantástica que eram os blogs, de você poder publicar conteúdo e ter ele acessado por qualquer pessoa, e poder ser encontrado pelo Google; agora a tecnologia produz essa coisa bizarra que é todo mundo em redes sociais fechadas, com conteúdo cheio de restrições, em plataformas que fazem o máximo para evitar que você deixe a própria plataforma. E vamos ter uma outra fase, com outras características, só não sei se vai ser melhor, pior, ou quando vai chegar…”. Takata: “Acho um tto complicado comparar os indicadores — eles medem coisas distintas. Além disso o FB manipula a exposição por práticas comerciais. E produz os próprios indicadores — normalmente não auditáveis pelos usuários. (Não que a exposição não seja maior, só a comparação direta não é possível.)”

Hotta joga luz sobre a efemeridade dos conteúdos no FB, algo que muitos blogueiros/divulgadores consideram como um ponto negativo da plataforma em comparação com os blogs: a efemeridade da forma incidiria, inevitavelmente, em efemeridade do conteúdo e faria com que fosse mais raso, menos substancial. “Acho que o Facebook induz a engajamentos diferentes e a postagens diferentes. Principalmente, as coisas somem depois de algumas horas/dias e nunca mais aparecem. É um conteúdo efêmero que nem sempre é interessante”. Mori responde ao comentário anterior de Takata: “A métrica que importa como relevância são usuários únicos e tempo no site. E nessas, estimadas pela ComScore, que é uma parte relativamente imparcial, mostra que está todo mundo no Facebook, especialmente no Brasil. (…)É impressionante, e o Fb é mesmo um buraco negro de conteúdo. (…)E na maior parte, tempo e “engajamento””.

E, pelo que percebi, Hotta quer observar quase a mesma coisa que eu: “Bom, estou interessado para ver o que irá acontecer no próximo “evento científico” tipo o H1N1. Quero ver se os blogs de Ciência têm algum valor de viralização”.

E continua: “Tem outra coisa, o Facebook facilitou o pessoal beber conteúdo “direto da fonte”, tipo o F*cking I fucking love science”. E Takata levanta outra pergunta interessante. “Mas é difícil avaliar o tempo de visitação no FB — bem, pode ter pro FB em geral ou até pra uma página em específico em cujo link para o usuário clicou. Mas como saber quanto tempo o usuário ficou vendo um dado conteúdo que está em sua TL?”.

Rubens Pazza sugere que, ao invés de dicotomizar blogs x FB, talvez a saída esteja no “misto”, “uma publicação no blog repercutida por uma publicação no FB. A propagação acontece via mídias sociais, onde também acontecem mais discussões e comentários. Algumas ferramentas inclusive permitem que os comentários do Fb sejam publicados diretamente no blog…”

Isis Diniz sugere que os blogueiros de “antes” eram estudantes ou recém-formados, tinham mais tempo, e hoje esse público está nas redes sociais. Ela acha que mesmo os blogs com poucas visitas, como o dela, que se sente “falando para ‘ninguém’” servem como forma de registro de informação para uso futuro e também uma forma de concatenar ideias e expressá-las.

Thiago Santos tem dúvidas (bem oportunas) sobre para onde vai o conteúdo publicado no FB depois que a rede acabar, como o Orkut. Ao que Rubens Pazza faz um comentário sintomático: “Perfeitamente. O Facebook é uma boa ferramenta para difusão atualmente, sem sombra de dúvidas, mas é um lugar para colocar links, nada mais que isso”, aludindo à falta de profundidade da plataforma, que, por ser assim, não deveria ser um repositório de conteúdo e sim apontar para lugares onde esse conteúdo seja mais perene. Mas tenho minhas dúvidas quanto a isso. Lucia Malla endossa a afirmação: “Acho uma tristeza acumular conteúdo no FB, pq ele é um buraco negro mesmo, onde o conteúdo é mega-efêmero e biased por mecanismos que só tio Mark entende. E está atrás de login/pswrd, o q me dâ desconforto. Mas vejo tb um esgotamento dos blogs, cansaço mesmo, parece que foram drenados pela falta de audiência. Curiosa pelo que pode vir pela frente, nesse cenário”.

Luis Brudna levanta outra questão: O CNPq e outros órgãos de fomento à pesquisa tentam valorizar os blogs e produções semelhantes, mas é difícil medir o valor de um bom blog. De novo, a produção de DC é mais valorizada pela quantidade (fica mais visível e mensurável assim) e, ao invés de fazer um blog que tenha conteúdo substancial, um divulgador pode preferir se pulverizar em várias páginas e nas redes sociais, sendo assim difícil dar atenção a tudo. E a propensão a esses blogs morrerem mais depressa é muito maior. “Suspeito que dá pra fazer uma longa lista de blogs (e assemelhados) que foram usados apenas para gerar algum trabalho em congresso ou publicação “uso de blog na disciplina XYZ para ZZY”, criam o blog, publicam sobre ele e depois abandonam para repetir o processo”. Mas é um comentário curioso para o perfil que o Google mostra dele depois de uma busca simples pela web.

Depois falam de medidores, indicadores de engajamento do público, métodos com os quais essa mensuração poderia ser feita. Medir o interesse e a informação das pessoas não é uma operação matemática (e claro, procurar saber o que as pessoas sabem não é o ponto e nem tem uma relação direta do interesse delas por ciência, e várias pesquisas mostram isso).

Mais blogueiros falam porque deixaram de escrever (por ser uma tarefa isolada, por temas que apelam para o blogueiro não serem os mesmos que engajem o público ou os blogs não serem o espaço de discussão que seus autores pretendiam). Carlos Hotta resume: “O blog já foi uma ferramenta mais social. Foi até inventarem ferramentas melhores para isso: Twitter e Facebook. Só que ambos são mais efêmeros e rasos”. E acrescenta que os blogs falham (ou não cumprem seu papel) quando tentam substituir ou competir com a mídia tradicional (seções de ciência de jornais da grande mídia e similares). “Eles agem em seu melhor quando tentam complementar o que foi publicado ou comentar o noticiado”. Ao que Bruno de Pierro complementa: “E mais do que complementar, ele (o blog) deve desestabilizar”. Takata: “Eu aposto mais em um ecossistema de blogues/mídias sociais. Cada qual com suas peculiaridades e objetivos”. Carla da Silva Almeida diz que a falta de retorno financeiro é um problema (afinal de contas, existe investimento de tempo na blogagem) e isso faz do trabalho menos profissional, menos valorizado. Ao que Hotta linka para opost de Carlos Orsi sobre o assunto: retorno financeiro é mesmo importante, as pessoas não vivem apenas de samba e amor à ciência.

Continuam trocando impressões sobre a crise e Rafael Soares se mostra esperançoso: “o interesse por algo tão grandioso como a ciência não vai morrer. Eu realmente acho que algo muito grande ainda vai aparecer cedo ou tarde”. E, face à pergunta de Hotta e Maria Guimarães “o que você está armando?”, revela: “Eu realmente to armando algo, mas é mais um terreno fértil do que a ideia pronta. Vamos expandir o SbBr pra outras mídias e iniciativas. Por isso vamos deixar de ser só SbBr para ser algo mais. E quero ser algo que agregue tudo e todos, para dar base real pro questionamento inicial do Carlos Hotta de algo que esteja sufocando outros de produzir. Mas na verdade acho que uma marca forte pode fazer germinar outras pelo exemplo. Veremos”.

Para Claudia Chow, a crise (causada pelo FB) não é só dos blogs de ciência, mas dos blogs em geral. “Nao acho q exista crise de blogs de ciencia, há uma “crise” de blogs por conta do facebook (to usando a palavra crise na falta de uma melhor). Qdo vcs falam de crise de blogs de ciencia parece pra mim q algum dia fomos algo grandioso, de muito sucesso e super conhecido, discordo totalmente, de verdade fora as pessoas q escrevem no SBBr, seus conhecidos e os q trabalham com divulgacao cientifica nao conheci ninguem q soubesse o q é o Science Blogs, seja o brasileiro ou o estrangeiro. Quem trabalha na Universidade por favor pergunte para os alunos de graduacao qtos conhecem o Science Blogs, se aparecer alguns gatos pingados vou achar sensacional! Tenho q impressao q blog no Brasil nunca foi levado muito a serio…”. Felipe Benites defende que a crise é porque o público de ciência, afinal, é pequeno mesmo. “(…) Sempre foi algo para poucos (…)”.

Catarina Chagas conta que trabalha com jornalismo científico e já teve um blog (não de ciência), que também deixou de atualizar por falta de tempo. Mas acrescenta: “Meu blog tinha alguns leitores cativos e alguns visitantes, mas nunca decolou e acredito que o motivo seja simples: nunca foi feito para os leitores. Meu blog era feito para mim — para guardar lembranças, compartilhar fotos e textos com amigos, dar notícias à família (…).Em tempo: eu não acho que as pessoas têm que fazer tudo para um público. Acho que elas podem (e devem, e eu mesma fiz) fazer blogs para elas mesmas, mas nesses casos não dá para esperar grandes retornos…”

Por fim, Rubenz Pazza acrescenta à discussão, na última postagem até o momento (17/10): “A discussão parece ter esfriado um pouco, mas nas discussões pelo Twitter surgiu a ideia de um agregador de blogs, para facilitar o acompanhamento das atualizações. Pois bem, nestes dias trabalhei para implementar um. Está em fase de testes, mas além de possibilitar o acompanhamento através do site, possui um feed RSS e publicações via Twitter e Facebook. Quem tiver curiosidade e puder contribuir para a difusão, dê uma olhada emhttp://www.blogs.biologianaweb.com.br”.

Mais impressões

A conversa no Facebook se dá de uma forma mais linear, com comentários uns abaixo dos outros, todos numa mesma thread, numa mesma página, usando a mesma lógica dos comentários de postagens de blogs. Na verdade, não há diferença nenhuma – não há limite de palavras e não se fica restrito a resumir as ideias em 140 caracteres, chamando pessoas daqui e dali. O espaço de discussão não é tão espalhado e rizomático como o do Twitter. E, pelo que pude observar desta discussão, pelo menos, é possível tecer uma conversa reflexiva e que mergulhe mais profundamente nos temas, sim. Não sei se posso concordar com quem diz que Facebook e Twitter são ferramentas rasas. O funcionamento do Facebook é bastante diferente do funcionamento do Twitter, as duas redes operam em lógicas e fluxos de conversação bastante diferentes e isso estimula um foco maior ou menor no que está sendo falado. Mas não sei, talvez exista um certo estigma de que “rede social não é algo sério”, a exceção do LinkedIn, cuja arquitetura já mostra que ele é um lugar com propósitos de networking profissional. Mas pode ser de divulgação científica também: há grupos que discutem divulgação científica (eu mesma faço parte de alguns), pessoas que sigo postam, vez ou outra, textos relacionados a algum tema ligado à ciência. É claro que é bem mais idiossincrático porque foi desenhado com um determinado modelo e propósito, ao passo que tanto o modelo e o propósito de cada página no FB e no Twitter vão depender de quem administra que página ou perfil – que podem também, é claro, ter fins estritamente profissionais. Mas a arquitetura da plataforma deixa isso ser muito mais fluído e flexível.

    Meghie Rodrigues

    Written by

    Science writer, researcher at @museudoamanha. Journalism, media, science & technology, #scicomm and politics. Mostly an optimist.

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade