Muito macho!

Num desses domingos, em que o cara não tem nada para fazer, o jeito é passar o tempo nos botecos da vida batendo um papo e tomando umas e outras. Aí surgem conversas que até Deus duvida.

Entre “salta uma cerva bem gelada” e “descola um tira-gosto”, a coisa rola solta.

Com o advento da AIDS, sempre é possível captar papos imbecis no dia-a-dia desses botecos.

- É bicho, hoje em dia esse negócio de macho é muito relativo. Tem muito macho com AIDS por aí.

- Só se for pra você, pois minha macheza não tem relatividade nenhuma.

- Não é disso que eu ‘tô falando. Eu quero dizer que para ser homem não precisa sair dizendo que bate, esfola ou essas coisas do gênero. O diabo da minha mulher tem uma afeição por um maldito cachorro, então caí na besteira de dizer “ou eu ou o cachorro!”.

- Sim, e daí?

- Daí que já estou morando sozinho há dois meses.

- Ah, vixe, é mesmo?

- É, mas mulher a gente deve tratar da maneira que trata a gente; ali, marcando colado, sem deixar criar muita asa.

- ‘Cê tem razão, Epaminondas!

- Viu como tenho razão? Até você já concorda.

- Claro, além do mais você tem mais sorte do que eu. A minha mulher continua lá em casa, e nem de cachorro a desgraçada gosta. Outro dia me acertou um “bofete” no pé da orelha, mas eu deixei pra lá porque em minha mulher ninguém bate. Não é, gente fina? (Falou isso se dirigindo a um crioulo que desde o início prestava atenção ao papo dos dois imbecis).

- Discordo — disse o crioulo, batendo no balcão e já ficando de pé. O negão era tão alto, que ao se levantar fez sombra do outro lado da rua. E continuou: …lugar de mulher minha é na cozinha. Vê se ela se mete a besta comigo, que eu encho ela de porrada.

Os olhos do crioulo pareciam lança-chamas, e quando ele falou podíamos vislumbrar no céu da sua boca dois satélites e um meteorito. Tatuados, é claro.

- É, o senhor acha? — falou um dos imbecis se esgueirando entre as caixas de cerveja.

- Acho não, tenho certeza. Comigo num tem disso não. Ela que tente pra ver o que acontece — disse o crioulo, babando no prato de tripa assada.

- Você diz isso porque nunca levou um tapa da sua mulher — emendou Epaminondas.

Quando ele acabou de dizer tal asneira, sentiu que o arrependimento era tarde. O negão pegou-o pelo pescoço com uma só mão, levantando tanto que o miserável chegou a ver três quadras à frente.

Nesse exato momento, adentra ao recinto do distinto boteco a mulher do crioulo.

- Muito bonito né, Doroteu! Larga o moço.

O pior é que ele largou. Antes não tivesse feito aquilo. O pobre do Epaminondas quase fratura a mandíbula na ponta do balcão. Humm… o boteco se contorceu de dor. De toda a cena, o mais impressionante foi a cara do negão olhando para a mulher; não sabíamos se era medo ou respeito. Parecia a cara de quem está assistindo ao filme de Frankstein sozinho na sala depois de meia-noite.

Ela continuou:

- Muito bonito para a sua cara, safado. Além do mais sai de casa sem me avisar, não me dá satisfação, a pia cheia de louça para lavar, o Júnior ainda não tomou banho, tem um monte de roupa lavada pra passar e…

- Mas, me… meu bem, você sabe, né? Hoje é do… domingo e eu tava só tomando umazinha aqui com os distintos cavalheiros e…

- Cala a boca. Por causa disso você tem trinta segundos pra chegar em casa. Arreda…

Trinta segundos? Nem de brincadeira o negão conseguiria chegar. O desgraçado morava a três quadras de distância, o que seria quase impossível.

Doroteu nem se despediu. Saiu feito um cometa, batendo nesse percurso três recordes olímpicos. Cem metros rasos, salto triplo para atravessar uma das ruas — que seria moleza se não fossem os dois caminhões parados no sinal — e salto em altura, já que o muro da sua casa tem por volta de três metros. Este último sem botar as mãos.


Quando sua mulher chegou em casa, a louça estava lavada, o Júnior banhado e a roupa passada.

Ontem foi a missa de sétimo dia dele.

Embora “muito macho”, não resistiu a tanto esforço.

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