Mortos S.A.

Uma estória sobre as ironias dessa nossa morte e vida severina

Por Mim Mesmo

Escritório da dona Morte, Washington DC, Estados Unidos da América.

01 de janeiro de 2017, 10h


— Sua Mortandade, precisamos aumentar o efetivo esse ano. As estimativas apontam para um aumento de 35% de ceifados em relação ao ano passado.

— Pois bem, então abra processo seletivo para 500 vagas no setor de ceifamento pra cobrir o déficit. Lance o edital na Folha de Necrópolis e no site do submundo.

— Mas dona Morte, creio que apenas 500 novos ceifadores não serão suficientes para cobrir o déficit, o mercado brasileiro tem crescido exponencialmente e não estamos dando conta.


Capitão Borges, secretário da Subdivisão Sul Americana da Mortos S.A. e responsável pelas operações da empresa no Brasil, é ex-capitão da PM do Rio de Janeiro e o segundo maior matador do país, perdendo apenas para o vírus Zika.

Quando Borges morreu vítima de fogo amigo em uma operação no Complexo do Alemão, para a felicidade da sua família e das famílias as quais ele havia destruído durante sua estadia maldita na Terra, a dona Morte o convidou pessoalmente e com honras a assumir o cargo de Secretário e responsável pelas operações no Brasil.

Depois de apenas dois meses no cargo, Capitão Borges conseguiu reduzir custos operacionais e aumentou o número de ceifamentos em cerca de 10%, o que fez com que o valor das ações da Mortos S.A. na bolsa de valores do submundo decolasse de um dia pro outro.

Se por um lado as ações da Mortos S.A. decolavam, as da Guarda Angelical Ltda. declinavam vertiginosamente rumo à bancarrota. Era uma conta de soma zero: o sucesso de uma significava o fracasso da outra.

A Guarda Angelical Ltda. é a concorrente, digamos assim, direta da Mortos S.A. e onde quer que elas disputem mercado, isto é, no mundo todo, haverá caos. Isso porque naturalmente deve haver um equilíbrio entre a quantidade de ceifados e salvos, porém, a Mortos S.A. não vem respeitando as regras mercadológicas ultimamente, até porque elas foram feitas para serem quebradas.

O fato é que o Capitão Borges tem obtido muito sucesso com sua política interna baseada na filosofia de vida contemporânea “humano bom é humano morto”, e o Brasil tá na vanguarda de uma antiga, mas recentemente renovada, área de investimento que tomou fôlego lá em 2008.

A crise econômica mundial foi praticamente a salvação da Mortos S.A. no Brasil, que anteriormente estava afundada em dívidas e quase falida. Desde então, investiram muito na infraestrutura da empresa, contrataram pessoal, aumentaram salários e o PLR de 2016 para os ceifadores bateu recorde. As ceifadeiras, que antes eram da versão antiga, cabo comprido com uma lâmina grande e bem afiada na extremidade, passaram a ser apenas um borrifador com o que no Brasil costumam chamar de agroquímicos.

A iniciativa veio através de uma parceria com outra empresa do ramo, a Mão Santo do Brasil Biotecnologia, sugestão do próprio Capitão Borges, cujos familiares são ligados ao agronegócio.

Como foi transcrito no início, na conversa do Capitão Borges com a dona Morte, Borges demonstra preocupação com relação ao quadro de funcionários do setor principal da empresa, o ceifamento.

Estima-se que 2017 seja o ano que levará a Mortos S.A. para o top 3 de empresas mais valiosas do submundo, ao lado da Mão Santo Biotecnologia e da Coca-Cola. Existe uma correlação muito produtiva entre essas três empresas. Uma depende do sucesso da outra, são praticamente as potências do eixo.

Assim segue o secretariado mais bem-sucedido da Subdivisão Sul Americana da Mortos S.A., a todo vapor expandindo seus negócios por toda a América do Sul e explorando o potencial mortífero brasileiro da maneira mais eficiente possível, destilando ódio, produzindo desinformação e estimulando a ignorância em todo o território nacional.

Capitão Borges, de tão carismático e prestigioso com seus subalternos ceifadores, já colhe resultados: na semana passada foi recebido aos gritos de “Borgesmito 2018”. De acordo com uma pesquisa de boca de urna realizada pelo instituto de pesquisa da Folha de Necrópolis,o DataNecro, Capitão Borges lidera as intenções de voto para o cargo de Dona Morte em 2018.

Procurado pela nossa equipe para confirmação a respeito de sua pré-candidatura ao cargo mais alto da empresa, Capitão Borges disse que vai “continuar a fazer o que faz de melhor”, e confirmou: “serei candidato em 2018, gostem ou não gostem”.


Texto publicado originalmente no blog Outrossim.