As veias abertas de Galeano em “Martírio”

Ao decorrer do longa “Martírio”, de Vincent Carelli, pude reviver muitas questões anteriormente vistas nas minhas aulas de cinema latino, sobretudo a questão indígena. Ressalto detalhes que passei a conhecer também ao longo da leitura do livro “Crítica a imagem eurocêntrica”, que expandiu-me horizontes em torno a discussão sobre o colonialismo, algo inerente e que persiste até aos dias de hoje.
 O que o diretor Vincent Carelli faz nos mais de 120 minutos do longa foi esmiuçar a realidade vivida pelos índios guarani kaiowá, uma minoria que luta contra a apropriação das suas terras por aqueles que dominam o agronegócio. 
 Enquanto assistia ao filme, fui trilhando vários pontos de ligação com o livro do Galeano: “As veias abertas da américa latina”, obra que escolhi estudar sobre desde a primeira aula, visto a minha admiração por Galeano e a extrema ligação do mesmo com os assuntos discutidos. Desde o primeiro capítulo do livro de Galeano, já começamos a ver (num contexto histórico) a presença da relação do povo colonizador/povo nativo atrelada ao continente desde a sua descoberta. A apropriação da terra e da cultura dos povos que já habitavam a determinada terra é retratada pelo autor diante da situação do comércio de ouro, cana-de-açúcar, minérios até aos tempos da industrialização. O que percebi depois de reler o livro de Galeano era que sempre, em algum momento, haveria alguma relação de submissão ou apropriação cultural entre os povos que aqui habitam a América Latina e os chamados “colonizadores” europeus, norte-americanos. Mas qual a relação do livro de Galeano com o longa de Vincent Carelli? Bom, a imersão feita pelo diretor na realidade dos índios nos traz um retrato imenso do que Galeano havia escrito. Os guarani kaiowá, que antes da Guerra do Paraguai já habitavam parte da região que hoje se insere no território de MT sofrem com a tomada das terras pelo governo. Essa apropriação das terras dos Kaiowá é feita com uma base rasa, visando basicamente o lucro em torno do agronegócio. Mas isso tudo se conduz a uma realidade ainda pior. A terra dos indígenas não é simplesmente apropriada, o ato é feito da forma mais errônea possível. Não é à toa o fato do nome do longa ser “Martírio”. Um número enorme de índios, incluindo crianças, foram massacrados ao longo dessas invasões. Em entrevistas com Carelli, alguns índios proferiam “Os brancos são muito violentos.”. A conexão foi instantânea quando me recordei dos capítulos nos quais Galeano retratava a desconsideração gritante do império diante dos direitos indígenas. Desde o escambo feito de formas banais até a escravidão, os colonizadores sempre acabavam por agir usando a intimidação. 
 E eis um detalhe que persistiu ao longo do documentário: a intimidação. Nos anos 80, quando Vincent realizava as primeiras gravações nas aldeias dos guarani kaiowá, já existiam esse tipo de ato. Confrontos diários, desmatamento, envenenamento, morte de animais, eram pontos que marcavam a negação da presença e posse indígena. Aquelas pessoas que ali permaneceram por tanto tempo passam a se sentir invisíveis, perdendo o direito de manter sua própria cultura e habitação. Outra frase que marca é a de uma índia, em lagrimas, que diz: “Queremos apenas um pedacinho de terra.”.Carelli, ao decorrer do filme, não fecha os olhos para a vivência dos índios kaiowá, nos trazendo imagens de arquivo acerca de seus costumes e rituais, onde fica-se mais explicita ainda a ligação dos povos com a fé. Por meio desses trabalhos documentais e a aplicação do projeto dos vídeos nas aldeias fica-se guardada recordações dessa cultura tão rica. É algo bonito de se ver., entretanto, a realidade nua e crua não é puramente assim. Os guarani kaiowá repetem inúmeras vezes, nesses 15 anos de filmagem feitas por Carelli, a mesma frase: “Resistencia até a morte.”. 
 
Por mais triste que soe, a resistência é consequência do colonialismo constante sofrido por aquele povo. Parte do governo brasileiro “sugou” muito dos atos colonizadores desde a descoberta do país, torna-se claro o motivo pelo qual o livro de Galeano se transcorre até aos dias de hoje. 
 Galeano encerra seu livro com uma citação: “Por isso se dá mal com a história dos homens, pela frequência com que muda. E porque na história dos homens, cada ato de destruição encontra sua resposta, cedo ou tarde, num ato de criação”. No caso dos Guarani Kaiowá, o ato de destruição que seria a apropriação de suas terras acaba convertendo-se, mesmo que de maneira tardia, num ato de criação. Criação de uma resistência que alçasse a voz daquele povo que até então parecia mudo, inaudível. Já no período dos anos 2000 os índios levantaram a sua voz, contra a pec-215 que passaria ao congresso a posse de suas terras. Eles chegaram, num ato, a ocupar o congresso. Pela primeira vez aquele povo foi visto. E isso tudo ficou ali, documentado, no longade Carelli, diante de nossos olhos. 
 “Nós nunca dependíamos de ninguém para viver, tínhamos a natureza.”, justifica-se um dos índios entrevistados. E eles realmente não precisavam de ninguém. O que os índios almejam e fica perceptível no documentário é nada mais do que seguir a vida como ela já estava sendo antes, em suas terras. Não se vê da parte dos índios a vontade de rebelar-se em atos agressivos. Não. A equipe que filmou o longa os acompanhou e mostrou a cada segundo o quão pacificadores eles eram. Chegasse o momento no qual Carelli documenta um canto dos céus que os índios entoaram para abençoar sua viagem de volta. O diretor fala da emoção diante da beleza dos mantras, do carinho, da alegria que aquele povo tem de viver em torno ao desprezo que os cerca. Desprezo esse que provém desse sistema que esmaga as minorias. A violência, os tiroteios que cercam as aldeias agora são inerentes. Os ataques vão deixando mortos e feridos. São queimados parte de uma cultura a troco de… riqueza, lucro. A mensagem que Carelli nos deixa ao fim dessa obra (extremamente necessária) é de que a história não pode ser apagada. E realmente não pode. 
 Nos últimos segundos do longa, Carelli nos deixa a questão: o povo brasileiro deve enfrentar outra vez tempos sombrios ou assumir a tragédia? Refaço a pergunta a partir dos parâmetros de Galeano: as veias da América Latina permanecerão abertas ou podemos sutura-las?

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