Essa não é uma crônica de amor

Mas o que importa é que ela é honesta.

Eles recém haviam gozado. Seus corpos nus, abraçados, não sentiam frio naquela tarde de inverno. Muito pelo contrário, a sensação era de um calor excitante, como se deixassem a mão sobre a chama de uma vela por tempo demais. Era perigoso, mas era bom.

Tudo estava uma bagunça. Cobertas e roupas no chão, vizinhos ouvindo música alta, os cães do bairro latindo, mas mesmo assim, ali naquela cama, naquele momento, os dois não ligavam. O que estava em jogo ali era mais importante. Naquela fração de segundos entre os últimos gemidos de prazer e a ternura do carinho no rosto, dos dedos deslizando na pele, o silêncio.

Não era a primeira vez que os dois faziam aquilo. Naquela tarde, porém, havia algo diferente. E os dois sabiam. Um estranho que estivesse ali observando poderia dizer que eles se conheciam há anos, que o seu caso era forte o bastante para largarem seus casamentos. Diria também que os dois eram feitos um para o outro. Mas não era o caso. Eles eram apenas duas pessoas desimpedidas que acabaram se conhecendo e transando algumas vezes. Simples assim.

Talvez por isso mesmo o eu te amo os pegou de surpresa. Tanto quem falou como quem ouviu. Três palavras curtas que quando sussurradas juntas têm o poder de criar uma rachadura no tempo. Um hiato de segundos trazendo uma surpresa que, na cabeça e nos corações dos envolvidos, parece durar uma eternidade. Ainda mais quando o sentimento é recíproco. E o deles era.

As lágrimas que sucederam continham nelas toda a felicidade que viveriam juntos. Os planos feitos e realizados. A noite em que dançariam na cozinha, iluminados por nada mais que o luar entrando pela janela. Os inúmeros pedidos — e aceites — de casamento usando o que houvesse a mão como aliança. Ali naquelas lágrimas, sensíveis, incontroláveis, havia todo o amor que eles poderiam dar. E eles amaram, como amaram. E transaram logo depois. Não com amor, mas com toda a fúria e lascívia que somente dois corpos ávidos pela carne poderiam ter. Foderam com a luxúria irrefreável de consumir um ao outro, de morrer no outro. Unhas na pele, puxões no cabelo, lábios por todo o corpo. O suor encharcava os lençóis, o chão, os bancos do carro e onde mais pudessem matar a vontade. Eles transaram como se não houvesse amanhã. Por dias. Por anos. E eles amaram.

Até que um dia, numa outra tarde qualquer de inverno, seus olhos se encontram.

E ambos sabiam, já era hora.

Hoje, o que resta é a amizade, talvez nem isso. As memórias são turvas. Será que amaram? Mesmo? De que importa? As lágrimas já são por outras pessoas, momentos, motivos. Aquelas, que caíram naquela tarde fria, há muito secaram. Vieram com data de validade, como todas as lágrimas. Até que um dia eles decidiram não chorar mais, nem por tristeza, nem por felicidade. Muito menos por amor. Acharam que haviam aprendido a lição. Até que numa manhã quente de um verão qualquer, com um frio que só poderia estar em suas barrigas, acordaram.

E o que viram os fez encher os olhos d’água. Mais uma vez.