
Ele vinha incomodado há alguns dias. Estava com aquele pensamento que, por mais que tentasse evitar, se concentrar no trabalho, amigos ou estudos, não conseguia tirar da cabeça. Até então ele sempre pensara em muito ao mesmo tempo. Não que deixasse transparecer. Seria deselegância demais perturbar os outros com sua inquietude. Era mais do tipo de compartilhar seus sentimentos apenas com a chuva. Entretanto, o grande problema daquela manhã era que, em seu primeiro lampejo de consciência, lhe veio a imagem dela.
E se havia algo de que ele não gostava era perder o controle. Não sobre os outros, claro. Disso estava certo de não ter. O que o deixava irritado era não ter controle sobre si. Como assim um outro alguém invadiria seus pensamentos mais íntimos, os primeiros do dia, naquele limiar entre o sonho e o despertador? Queria pensar sobre a pauta do trabalho, as compras do mercado, até sobre os boletos que enchiam a caixa de correio. Qualquer coisa, menos aquela sua maldita marquinha no queixo que o fazia fraquejar.
Não queria lembrar de como ela falava empolgada sobre qualquer coisa. Na risada alta e fácil que tinha, no nariz fino e elegante, em seu cabelo puro e reluzente. Simplesmente odiava não conseguir pensar em outra coisa senão naquele corpo nu, sensual e aristocrático. Talvez essa fosse a melhor definição para aquela estrutura óssea e carnal que idiotizava as leis da física. Assim como um marinheiro grosseiro e estúpido, encantado pelos cantos idílicos de sereias perversas, era atraído quase que como por hipnose por aquele caminhar algoz, delicado e cheio de malícias. No mar em direção aos rochedos. Sabia que aquilo seria seu fim, mas não conseguia evitar de ir de encontro aquela pele. Se fosse para morrer, que ao menos fosse no paraíso.
Não era como se transassem há tempos. Mas também não queria dizer que as poucas horas que passaram juntos fossem como se não se conhecessem. Para ele, aquilo era confuso. Por mais que o caos o atraísse, não saber o que se passava dentro de si era aterrorizante. Era como um cão que, deitado ao sol, visse um carro qualquer se aproximando. Seu impulso seria instantaneamente perseguir aquelas rodas. Se conseguisse um dia alcançá-las, porém, não saberia o que fazer. Assim era ele com ela. Deveria ser engraçado, simpático, gentil até demais? Ou deveria bancar o fechado, enigmático e insensível aspirante a niilista? Buscar a conversa ou esperar aquele oi despretensioso? Mordê-la no pescoço ou beijá-la na testa?
Não saber como agir o matava pouco a pouco, mas não era o pior. Sua Via Crúcis era a dúvida sobre o que ela sentia. Será que por algum breve momento do dia ele também invadia seus pensamentos? Odiava com todas as forças não saber por qual deserto caminhava. Tinha a certeza de que a areia era movediça, que o engoliria com o tempo e que não sobraria nada dele para contar a história. Mesmo assim ele seguia, quase que como por instinto, observando de longe um oásis que sabia ser uma ilusão, mas do qual a água seria doce demais para ser desperdiçada. E como ele queria beber daquela água. Se afogar naquele sorriso seria um preço pequeno demais a pagar por aqueles momentos de felicidade.
Sentia que a qualquer momento se dissolveria em moléculas quando ficavam abraçados trocando carícias após o sexo. Via a sua alma como a filha dileta dos céus, mas sabia de sua vontade profana de consumir a corpo. Seu rosto angelical por vezes disfarçava o olhar de Medusa que já havia petrificado tantos antes. E ela era linda, por mais que ele se detestasse não ter palavra melhor para expressar toda sua complexidade. Se fosse um anjo ou um demônio, tudo seria mais fácil. Haveria explicação, por mais que ilógica, para ele ficar aos seus pés. Mas não, ela era humana. Tinha falhas, por vezes era geniosa, irritadiça, descompromissada e até cruel. Por mais que soubesse que ela era apenas uma mulher, ele não conseguia deixar de pensar nela, e isso ele abominava.
Acima de tudo, não suportava seu intelecto. Era como se ela pudesse ver através dele, coisa que ele não permitia a ninguém. Estar aberto assim para ela era uma afronta ao seu orgulho. Ele achava que queria voltar a ser livre, que queria sua solidão de volta. Desejava que aquela manhã houvesse começado como todas as outras, sem grandes obrigações e sem importância. Muito menos sem alguém que importasse. Sempre achou que quando o coração controla a cabeça, o desastre era algo anunciado.
Mas já era tarde demais.
***
Levantou, tomou seu banho, fez o café e sentou-se, olhando a rua. O céu estava especialmente sem nuvens, num azul límpido que lembrava o oceano. Foi olhar a hora e:
Plim.
Respirou fundo, leu a mensagem, soltou um risinho de canto de boca e saiu pela porta, pronto para mais um dia. Se ia mesmo morrer, estava contente que fosse no paraíso.
