O verão tinha um nome de garota

E o calor veio no inverno.

Bruno Meira
Jul 20, 2017 · 4 min read
Glance | Dirigido por Conkerco

Russos são engraçados. Cheios de histórias, mitos e lendas, conversar com um deles, quando estão de bom humor, rende momentos agradáveis, pra dizer o mínimo. Não sei se é o sotaque, a cadência ou a seriedade na hora de falar, mas cinco minutos de conversa irão lhe dar lembranças difíceis de esquecer. Comigo foi assim.

Era minha primeira vez em Nova York. O frio era algo como eu nunca havia experimentado. Parecia que o próprio inverno havia entrado nos meus ossos, para nunca mais sair. Assim que pousei, a única coisa que queria era ir ao hotel e tomar um banho quente. No táxi, um russo quieto de queixo quadrado. Não sei bem o motivo, mas naquele momento pensei que todos os russos: gordos, magros, altos, baixos, todos, sem exceção, deveriam ter servido a KGB. Tentando ser simpático, puxo papo sobre o frio cortante daquele dia. Ele me olha pelo retrovisor e, após alguns segundos de silêncio, me diz as palavras que eu nunca mais esqueceria:

- “My friend, if you want to feel warm in a harsh winter, then let me tell you a story”.

A memória, assim como os russos, também é algo engraçado. Poucas são as vezes em que temos certeza de que uma lembrança não nos escapará. Por outro lado, existem acontecimentos aparentemente insignificantes que nos acompanham pelo resto da vida.

Lembro, como se fosse ontem, do hálito de hortelã de uma namoradinha que tive na época do colégio. Me recordo em específico de um beijo qualquer, meio selinho, meio mais que isso, daqueles que a gente dá só pra dizer oi. Até hoje, quando sinto um aroma parecido, aquela memória me invade com toda a força. Não nos falamos há anos e não sei porque terminamos — nem porque começamos — mas não esqueço do sabor daquele beijo.

Um outro fato curioso — e um pouco triste — é que não temos controle sobre o que vamos recordar. Aqueles momentos incríveis que vivemos ao lado dos amigos, a primeira vez que fazemos algo, o último eu te amo que dizemos a alguém. Por mais empenho que coloquemos em guardar o momento, nada nos garante que a lembrança será eterna. Ficar pensando nisso pode ser meio cruel. Com aquele garoto da história do taxista russo, por exemplo, isso aconteceu num verão repentino no meio do inverno.

O frio fora severo durante todo o mês, mas naquele final de semana, como que por mágica — ou por uma simples coincidência meteorológica — as pessoas puderam sair com roupas curtas. O calor havia invadido a cidade e todos estavam felizes. E, naquela noite, ele se embriagou.

Começou degustando sua beleza, mas era inevitável que se afundasse em seu intelecto. Até porque apenas dizer que ela era bela seria uma forma bem preguiçosa de descrevê-la. Ele sentia que poderiam conversar a noite toda, sobre qualquer coisa, que ambos não se cansariam. E, de certa forma, foi isso o que aconteceu. Falaram sobre seus filmes favoritos, sobre aquele restaurante famoso que já não era a mesma coisa, sobre a música que tocava nos bares da cidade. Havia ali um certo desafio de argumentação, um jogo de retórica que que os fazia dançar, às vezes juntos, às vezes não tanto.

E naquela noite, ele soube: era ela.

Eram os detalhes que o estavam deixando mais apreensivo. Coisas bobas como quando ela pegou sua mão e acariciou seus dedos. Um ato insignificante. Mas eu o entendo, afinal, não são as bobagens insignificantes que nos colocam no rosto os sorrisos mais sinceros?

Ele estava se torturando com medo de esquecer a forma como seu cabelo caía no rosto enquanto ela dançava. A fragrância que emanava do seu pescoço. Aquela risada que idiotizava as pinturas mais delicadas e a voz que calaria o mais expressivo dos poetas. Ali, ela era o poema. O único que ele gostaria de ler.

Mas de todas as conversas, dos toques na pele e dos detalhes do corpo, o que ele mais teve medo de esquecer foi o silêncio. Aquele segundo quase eterno entre os olhos e o beijo. Um curto espaço de tempo para uma viagem tão grande. O que eu não daria pra pegar aquela estrada, de carona, só pra assistir aquela cena. Gosto de pensar que naquele segundo, no mundo todo, cessaram-se as mortes, pausaram-se as lástimas e esqueceram-se as horas. Ali não havia nada, só um beijo. E ali havia tudo.

Até hoje acho que aquela foi a corrida de táxi mais cara que já paguei. Não pelo dinheiro, claro, mas porque chegamos ao hotel e não havia mais tempo para o final da história. Enjoy your stay and keep warm, my friend, me deseja o russo num inglês carregado. Mal sabia ele que o frio já não me importava. Pelo resto da viagem, a única coisa em que eu consegui pensar foi naquele verão repentino na vida daquele garoto. Eu não sei o nome dela, nem muito menos se a história era verdadeira. Mas prefiro crer que sim, e que ele a tenha eternizado na memória. Mais que isso, no coração. Espero que ele não a tenha esquecido.

Eu tenho certeza de que não o farei.

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