Maniqueísmo Verde e Amarelo

Colonos e portugueses. Índios e jesuítas. Escravos e senhores. Pobres e ricos. O Brasil é, historicamente, maniqueísta, marcado pela segregação entre dominantes e dominados. Essa bivalência se reflete na constituição da sociedade, nos seus espectros e na mentalidade daqueles que a compõem. Consequentemente, a vastidão brasileira ultrapassa o aspecto territorial e avança sobre a desigualdade, culminando na divisão quase inconsciente de duas parcelas da população.
 Platão, ainda na Antiguidade Clássica, já classifica as pessoas em três esferas estratificadas - os que nasceram para o trabalho manual, para a defesa e o trabalho intelectual e para governar, o rei-filósofo - e, apesar de se distarem em séculos, a construção da sociedade brasileira teimou em pautar-se nessa filosofia. Os senhores de engenho eram “superiores” aos seus escravos pela não realização de trabalho manual, por não irem às plantações cortar a cana e, ainda assim, tirarem dela a sua riqueza. Essa mentalidade perpetua-se até os dias de hoje: considera-se inferior e submisso aquele que realiza o “trabalho pesado” de outra pessoa, aquele que supostamente possui um intelecto menos evoluído e não serve para o trabalho culto.
 Por que o Brasil é o país com maior número de empregados domésticos no mundo? É o resquício incontornável de uma fundamentação descriminante e dificilmente reversível. Ainda é visto como essencial a presença de outra pessoa em nossas casas para limpar, cozinhar e cuidar do lar. Soma-se a isso a designação de status que o empregado doméstico fornece. E dentro dessa classe ainda há a segregação de gênero, mais de 83% dos empregados domésticos são mulheres de baixa renda; mulheres porque a misoginia permeia o pensamento do brasileiro, é extremamente raro ver homens que consideram as tarefas de casa atividades conjuntas.
 Assim foi definida essa segregação, tanto espacial como social. Há shoppings de ricos e outros de pobre, bairros altamente elitizados e favelas quase inóspitas, precárias em segurança, saúde e educação. Com tantas divisões, as possibilidades de ascensão e de igualdade são ínfimas, uma vez que as oportunidades também são seletivas e, portanto, excludentes. Apesar de terem sofrido metamorfoses, os dominantes sempre guardaram uma vantagem primordial: é nas mãos deles que reside a maior chance de mudança, embora tal afirmação quase beire a ambiguidade. É a revolta e o descontentamento de uma elite emergente que retira o poder de uma elite ultrapassada e muda os rumos do país. 
 É, portanto, notável como padrões arcaicos e derivados da história - logo, pouco contemporâneos e progressistas - formaram o pensamento e a divisão social brasileiros. Embora essa desigualdade seja inegável, não é justificativa para argumentos radicais e estagnantes, que impedem o desenvolvimento do país. Porém esse desenvolvimento deve atrelar-se à busca de condições de vida humanizadas para toda a população, pois é irracional pensar que a igualdade social pode ser alcançada, em nenhum momento da história do mundo houve plena igualdade, mas condições decentes de estudo, saúde, segurança e lazer são direitos inalienáveis de qualquer ser humano.