Trabalhadora

Sou contadora de histórias

E conto moedas

Junto memórias, reviro a carteira

Juntando tudo dá pra pagar a condução

Qual a condição?

Pro lanche eu passo no cartão

Eu tenho dois

Três corações não dá pra comprar

Eu vou no DIA que tem promoção

O dia-a-dia não é mole não

Sem querer a vida te engole

E eu vou comer o quê?

Qualquer migalha é pão

Eu não tenho patrão

E não tenho salário

Há alguns meses o cartão vira

E é roleta-russa.

Como eu me viro?

Reviro as noites, reviro o estômago

É medo de não saber mais acordar

Das notas sol do acorde

Eu tô no início do mês

Mas pra mim não tem vez

Quem dá emprego pra poeta?

Carteira assinada, décimo terceiro salário, férias, vale-transporte, vale-refeição

Auxílio-doença, convênio médico, oito horas de trabalho diárias, direitos trabalhistas

Você tem medo de perder os seus direitos?

Quais são os direitos dos artistas?

Eu assino contrato, faço um retrato, dou auxílio, pulo a refeição

Sou o 13º da lista, e tem quem me assista?

Que pague a entrada?

Que haja saída

Que haja arte e que haja comida.