Ressaca de você

Por Melissa Duarte
Eu estava tão bem sem você. O dia amanhecia, a tarde ensolarava, o crepúsculo escurecia e a noite enluarava. E eu permanecia muito bem sem você. Eu estava dirigindo o trem da minha vida e ele, finalmente, seguia nos trilhos, até que uma freada brusca para você entrar acordou as borboletas em meu estômago. Você me assaltou a calmaria e, agora, quem paga a pena sou eu.
E isso tudo porque eu estava na reabilitação: quatro meses em abstinência. Agora, o coração voltava a disparar, as mãos, a tremer e as pupilas, a dilatar. Eu estava viciada em você, antes fosse cocaína.
Então, meu aniversário chegou. Presenteou-me com 365 novas possibilidades; sempre tive a data como um Réveillon pessoal. Eu estava melhor do que nunca e me esqueci de me manter sóbria. Bebi saudade, risos, beijos e abraços. Entornei várias doses de memórias. Embriaguei-me de momentos. Desafinei e tropecei nossas músicas. Vomitei a dor. Eu estava bêbada de você.
Acordei no dia seguinte com uma ressaca desconhecida; era você. A mistura de sentimentos destilados e fermentados não me caiu bem. Eu estava com a cabeça doendo, era o vazio que você deixou no meu coração. Lembranças de nós dois e da noite passada me nocauteavam. Saudade me prensava nos lençois, era a vontade de não ter outro dia sem você.
Porém, a vida continua. O dia vai amanhecer para a tarde ensolarar, que se recolherá para o crepúsculo repleto de estrelas e a noite de luar. Eu estava bem demais antes de você chegar e bagunçar o que levei meses para por em ordem.
Felizmente ou não, é verdade o que eu disse sobre a vida. No entanto, eu só queria mais dias contigo.