Nas asas da borboleta

Minha mente toca as asas de uma borboleta — e voa em um céu que pertence só a ela. As asas do bicho elegante se movem como pétalas jogadas ao ar e atingem um ponto mais alto do universo. Elas possuem um contorno bastante negro que, em ramificações, invade pequenos espaços de um azul intenso e cegante. Frágil, eu quis dizer. A borboleta se move frágil e atinge um ponto mais alto do universo. Minhas mãos fraquejam quando o desejo intenso de tocá-la sai do inconsciente e se manifesta em meu corpo. Eu sei que, no momento em que a parte inferior do meu dedo indicador tocar o azul daquelas asas, elas serão machucadas. E a beleza, que antes acalentava, agora é agredida. E agride de volta.


I

Carolina me conta que o coração dela é como um balão: é só você encher com gás de amor que ele vai crescendo, crescendo, fica bem grande e tem espaço pra brincar um monte. “Assim ó” — abre os bracinhos finos pra me explicar a magnitude. Mas que, quando a negamos um chocolate, aquele boneco do Super Mário que vem com o lanche do McDonald’s ou uma caixa nova de Lego, o balão explode [boom!, tio, ele faz boom!], e aí dói, dói, dói. “E é por isso que a gente, criança, chora assim, tio, porque vocês furam o nosso balão só pra não gastar um pouquinho de dinheiro.”

Meu irmão ri, junto com o resto da família, se afasta, acende um cigarro, limpa a garganta e aponta pra Carolina.

– Cheia dos argumentos infames desde criança. Esperta e sagaz igualzinha à mãe.

Aproveito a brecha, me despeço de longe e entro no carro. Carolina corre, sem ar, e me pede que abra a porta, pro abraço de urso. Finjo não ouvir, sorrio e abano gentil. Pelo retrovisor, vejo lágrimas. Um balão estourou.


II

Era 1994 e eu tinha 12 anos — nove mais velho do que Carolina hoje. Fazia um calor desgraçado e eu tomava uma taça de sorvete de pistache com amendoins quando ouvi meu nome e corri para a janela do sótão. Lá embaixo, Gui e Dudu me chamavam com ares transgressores. Desci cambaleante as escadas de madeira. Era sempre naquele horário, por 14h, 15h, que, liberados do descanso pós-almoço, nos encontrávamos para sugar tudo que um novo dia de férias de verão tinha a oferecer.

Pela empolgação dos dois, eu sabia que aquele era um dia dos “novos” — invadir a piscina de alguma casa vazia, andar de bicicleta pela única avenida movimentada da cidade na qual nossos pais nos proibiam de pedalar, aprontar alguma com a dona Dorinha, senhora solitária da vizinhança que tinha verdadeiro terror à gente.

E, de fato, o dia era dos novos. Quando abri a porta, Gui, portando uma pastinha com um adesivo enorme do colégio, me indicou que falasse baixo.

– Vem logo, otário! Corre! Pro esconderijo, agora.

O esconderijo era uma antiga casa da árvore que fora abandonada pela família que morava naquele quarteirão e nunca mais apareceu, há uns sete verões.

Ao chegarmos e depois de os dois certificarem-se de que não havia ninguém por perto, Bruno abriu a pastinha. Não havia nada da escola lá. Com cuidado, tirou do envelope uma Superinteressante.

– É sério? Uma Super? Meu pai tem dezenas dessas, inclusive essa edição. É verão! A gente tá de férias! Na praia! E vocês me chamam pra mostrar uma Superinteressante?

– Deixa de ser tapado, Bruno. Calma. Não é nada disso.

E, de dentro da revista, tirou outra. Na capa, uma mulher loira e nua chupava a ponta do dedo.

– O que é isso? Perguntei.

– E você não sabe, por acaso? Vamos, vamos, me tornem vosso mestre! Exclamou Dudu, gesticulando como se nas mãos levantasse uma espada medieval, orgulhoso pelo roubo da revista pornô.

Eu nunca havia visto uma revista pornô. E segui com os olhos atentos cada detalhe daquelas páginas surradas.

– Olha esses peitos, cara!

– A bunda dela é enorme! E lisa! Esses dias ouvi minha mãe falando pra sua que homem adora bunda grande em mulher, mas que não se liga que, quanto maior, mais cheia de crateras ela vai ser. Sua mãe riu. Não sei do que elas falavam, mas pelo jeito bunda tem que ser lisa.

– Não sei, só sei que essa aqui é muito gostosa.

Eu ouvia sério e atento. Com os olhos deslizando esbugalhados pela revista, prensava meus lábios com os dedos. Eu esperava que surgisse em mim alguma vontade dilacerante. Eu esperava que partisse de mim os comentários que agora eles faziam. Mas nada acontecia. Eu estava assustado e só queria esconder aquela revista e sair pra brincar.

– Vocês nem sabem do que estão falando. Vamos logo pra rua.

– Iiixi, o Bruno é veado.

– Eu não sou veado coisa nenhuma. E elas são gostosas. Mas a gente já viu tudo, é melhor irmos antes que alguém apareça.

Em casa, à noite, enquanto meus pais assistiam televisão, entrei no quarto deles e roubei uma fita cassete pornô. D madrugada, com eles já dormindo, dei play no vídeo e sentei no sofá, esperando meu corpo mostrar alguma reação. Não aconteceu nada.