Na geladeira da padaria haviam dois tipos de garrafinhas de água. Um rótulo de princesa para as meninas. Um rótulo de super heroi para os meninos.

Rótulos. Coisas do passado, que atormentam o presente e atrasam o futuro.

Ele pegou a garrafa da princesa, uma menina de cabelos longos e olhos azuis. Linda. Escolheu pra mim. “Tó papai”. Ele nem estava com sede, mas o papai aqui poderia estar. E a garrafinha da menina pareceu ser mais confortante, ou mesmo esteticamente mais bonita pra ele.

Um duelo de rótulos entre Hulk, o super-heroi emocionalmente desequilibrado, e Frozen. E a princesa saiu vencedora nas mãos de um menino. O “ULQUI”, como ele diz, é só um cara verde. Não é, para ele, uma figura que representa o masculino.

Quando vi o meu filho escolher para mim — uma figura masculina na vida dele — uma garrafa de água com o desenho de uma figura feminina, abri um sorriso e acreditei estar plantando boas sementes nele.

Como um bom pai canceriano, posso até ser emocionalmente desequilibrado, como o Hulk, mas não quero o rótulo de heroi da casa. Ser um pai presente é apenas a obrigação de um homem que é pai. E a presença não precisa ser sempre física, já que a vida e o trabalho nem sempre nos permitem isso. Mas sempre que estou em casa, quero estar o mais próximo possível, ter contato físico, absorver o máximo que ele pode oferecer como meu filho e dar em troca tudo o que posso oferecer como pai. Se estou livre, quero estar junto de verdade.

Meu filho me vê lavando a louça, limpando a casa, cozinhando, me vê dançar esdruxulamente quando escutamos música juntos — numa tentativa frustrada de dança contemporânea — me vê tratar a mãe dele da maneira que ela merece — e deve ser tratada — com respeito, igualdade, com amor e muito carinho.

Isso não é motivo de orgulho, ou de algo que torne o homem um marido/pai diferenciado. Isso é básico, é o mínimo (ok, a dança é um plus). Estamos em 2017 e ainda escutamos por aí “que sorte você ter um marido que ajuda” ou “ainda bem que ele é um pai presente, né?”.

Já é 2017 e a maioria dos lugares não possui trocadores em banheiros masculinos. Trocar a fralda cheia de cocô e xixi ainda é um papel que cabe somente às mães?

"Eu amo muito o meu filho, mas, trocar a fralda… nunca tive muito jeito…"

Como assim? Que tipo de pai ou marido você é?

Estamos assumindo hoje um papel que deveríamos ter assumido há muito tempo. As gerações antigas são responsáveis por tudo o que as mulheres passam e vem lutando todos os dias para mudar. E a nossa geração ainda insiste em cometer erros que continuam machucando as mulheres.

E os nossos filhos?

Pense no seu machismo, mesmo que seja leve (???), praticamente inexistente para você, sendo absorvido todos os dias, aos pouquinhos, pelos teus filhos. Se você tem uma filha, pense muito mais nisso. É ela que vai sofrer num futuro não muito distante, se já não sofre. Um mal que sai de dentro de sua própria casa, nos pequenos comentários machistas que rondam a sua mesa de jantar.

Precisamos mudar.

Constantemente, devemos nos reciclar para a vida moderna, para o novo, para um presente e futuro com menos rótulos.

Quando vejo o Caetano se interessar por lavar a louça comigo, arrumar as coisas dele, por fazer o jantar junto com o pai, enquanto a mamãe relaxa depois de chegar do trabalho, quando vejo o “novo homem” nele, vejo uma esperança maior e sinto que estamos num caminho bacana. E é isso que quero que ele leve pra dentro da casa dos nossos amigos e da casa dos amiguinhos dele.

Bé e eu não perdemos a esperança, pois vamos colocar mais uma vida nesse mundo. Mais um homem que vem com a missão de tentar mudar as coisas.

Antonio é meu filho mais novo, crescendo lindamente dentro da barriga da Bé. E deu a sorte de escolher ter essa mãe maravilhosa nessa vida. E mais sorte ainda de escolher ter o Caetano como irmão mais velho.

Filho, venha ao mundo pra muda-lo para melhor, pra lutar junto com o seu irmão pelas coisas que vocês acreditam. Não deixe nunca de acreditar.

Venha amar as pessoas, Antonio.

Quem planta o amor, colhe o que há de melhor na vida!