ROMA e a pretensão do Oscar

Mellissa Pereira

No último dia 14 de dezembro a Netflix lançou ROMA, novo longa escrito e dirigido por Alfonso Cuarón (Gravidade, Filhos da Esperança), que em sua sinopse alega contar “um retrato comovente da vida familiar no México durante os anos 70”. Bom, não é bem assim.

Existem inúmeros filmes que não necessariamente se encerram na sala de cinema, e continuam vivos por muito tempo depois em fóruns de discussão e videos do tipo “Entenda o Final Explicado” no youtube. Geralmente, esse tipo de aprofundamento não estraga em nada nossa opinião sobre o filme. Não é o caso de ROMA.


À primeira vista ROMA parece ser uma obra de arte. E é, se considerarmos apenas o lado técnico. A escolha de rodar o filme inteiro em preto e branco é corajosa e o próprio Cuarón na direção de fotografia escolhe planos e movimentos de câmera sutis e muito bem pensados.

Mas todo esse cuidado com a aparência do filme é um recurso para esconder uma história rasa e sem reais conexões emocionais. E eu explico:

O espectador que assiste ROMA e o percebe como uma ficção dramática, sobre a história triste da pobre menina Cleo, abandonada pelo parceiro e acolhida pela família de classe média para qual trabalha, pode cair no erro de achar que a sensibilidade de Cuarón o permitiu criar uma trama cheia de emoções e empatia. O que não é verdade.

Cleo foi inspirada em Libo Rodríguez, que serviu como uma espécie de empregada e babá para a família de Cuarón, no México, mais precisamente no bairro que dá nome ao filme, tornando assim ROMA uma obra semi-autobiográfica.

E quando ROMA se torna uma homenagem à Libo (o filme é dedicado à ela segundo Cuarón) é aí que entra o problema.


Cuarón era uma criança quando conviveu com Libo e foi de certa forma, criado por ela. Dessa maneira, é de se esperar que ele não saiba quase nada da vida pessoal dela: Cleo é uma personagem praticamente sem falas, sem vontades próprias que vive apenas para servir.

Mas em sua homenagem, ele retrata um personagem raso e completamente desprovido de personalidade. Cleo está satisfeita em apenas servir à família e cuidar das crianças como se fossem sua, mesmo após uma dolorosa perda.

No final, o filme se trata do olhar de um garoto com amor à sua babá fiel, quieta e comportada, que abdicou de uma vida própria pra viver a dele. Basta lembrar que existe a menção de uma família da qual Cleo sente saudades e gostaria de visitar, apenas para trazer um pouco de humanidade à personagem, pois o assunto é logo esquecido.

O olhar do garoto, agora um homem adulto, não traz brilho à ela, não traz vida, não imprime empatia por suas dores. Pelo contrário, reduz sua existência a uma simples servidão, uma casca apagada. O que me entristece demais, pois tenho pra mim que Libo Rodríguez tenha sido uma mulher forte e extraordinária, com sonhos e sentimentos próprios.


Contudo, o filme agradou uma grande parte da crítica especializada e se tornou um dos favoritos na corrida do Oscar. Para isso, a Netflix realizou a exibição gratuita do longa em diversas salas de cinema (um requisito para que o filme concorra à estatueta).

É sensato afirmar que veremos ROMA concorrendo em algumas categorias (e eu estou 100% convencida de que deveria levar os principais prêmios de fotografia). Enquanto isso, o filme está disponível na Netflix e você pode conferir por você mesmo.

Mellissa Pereira

Written by

Criadora de conteúdo, influenciadora e podcaster

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade