Morada


Tenta me reconhecer no temporal
— Tiago Iorc

A madrugada é boa companhia de todo solitário pensador. A luz fraca do computador ilumina o quarto quente e as lembranças vêm como uma torrente que faz meu coração pulsar como a batida de uma música agitada. Memórias boas de coisas simples batem à porta do meu pensamento e eu — como qualquer amante de histórias — as deixo entrar. Memórias são aqueles amigos que nunca te deixam esquecer o quanto é importante cada minuto vivido e que às vezes a saudade é um sentimento bom. São elas que colocam um sorriso na nossa cara enquanto estamos no ônibus e a playlist — como se soubesse o que tinha que fazer- muda para aquela música tão fortemente marcada na nossa história.

Mas também existem aquelas lembranças que nem sequer batem à porta, talvez porque sabem que não as deixaríamos entrar. Essas já chegam derrubando paredes e quebrando janelas, parecem um tornado querendo levar tudo embora ou ao menos destruir uma boa parte do que nos torna feliz. Toda a preocupação e medo ocupam o ambiente e parece que a luz do computador já não é suficiente, que eu sou aquela criança de 5 anos com medo de olhar embaixo da cama. A luz apaga. O desespero assombra. Parece que a vida se perdeu em algum lugar em mim, mas não enxergo nada e não tenho coragem para procurar.

Mas por que não bastam as boas lembranças? Por que frequentemente minhas bases são abaladas pelo medo? Admito que não sei responder. Só sei que minha casa já não é mais tão bonita depois de tantas quedas. Sei que a reforma é mais demorada que a destruição, mas ainda luto por ela. Luto porque o verdadeiro valor não se encontra na aparência e que tempestade nenhuma pode tirar sua essência. Só me resta construir e esperar para que um dia ela possa voltar a ser bonita outra vez.

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