gosto do que vejo: sobre infância, beleza e tatuagem

yours roxanne

eu sempre me achei feia, desde criança. existe um limbo na infância em que a gente ainda não sabe sobre ser feio e ser bonito, ser menino e ser menina, a gente é só criança. vejo isso nos meus alunos de 2 anos — meninos e meninas brincam sem problemas com carros e bonecas, de casinha, de cozinhar e de família, pedem papel rosa pra desenhar, ou verde, ou azul ou branco. não existe brincadeira de menino ou cor de menina ou coisa certa pra se falar ou jeito certo de se sentar que depende do seu gênero.

isso dura muito pouco. aos 4 eles já dizem coisas como “isso não é de menina” — e obviamente eles aprendem isso observando o nosso mundo, o mundo dos adultos. e isso é uma tristeza, porque por mais que alguns de nós declamem o discurso de que meninos e meninas podem todos fazer as mesmas coisas, tem as mesmas capacidades, os mesmos potenciais, as crianças aprendem pelo exemplo e não pelo discurso. e o que eles realmente vêem? na escola, mulheres são professoras, babás e faxineiras; homens consertam problemas técnicos de eletricidade, móveis quebrados, cortinas que caíram. no clube, mulheres cozinham e servem a comida, dão aulas de balé e ginástica rítmica; homens usam uniforme de segurança e dão aula de futebol e natação. em casa, o pai vai pro escritório trabalhar, a mãe leva pra escola, busca na escola, leva pra tomar água de coco, sabe onde está a chupeta e o paninho que a criança precisa pra dormir.

quando a gente é criança, a gente também vê tv, propaganda, e observa a mãe se olhando no espelho, experimentando roupa, passando cremes e maquiagem e secando o cabelo. o pai: acorda de manhã, toma café da manhã, se veste e vai embora. a gente vê nossa mãe preocupada com peso, com dieta, com cabelo. e nosso pai? não.

e a gente aprende que mulher tem que se arrumar. homem, não. mulher que não se arruma é feia.

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quando eu era criança tinha uma novelinha no programa da angélica, em que uma fada (a própria angélica) era colocada no mundo dos humanos e eventualmente virava uma popstar. lembro que estava assistindo ao programa da fada bela (sim, o nome dela era BELA, vocês vejam só) e disse pra uma amiga que queria ser popstar quando crescesse. pra mim era óbvio: eu gostava de música, de cantar, e de usar roupas legais que minha mãe fazia. o que mais uma popstar precisa? taí beyonce pra provar que that’s what it takes.

minha amiga respondeu (vejam bem, devíamos ter 8 anos, se tanto): minha mãe falou que pra ser cantora tem que ser bonita.

pequeno nó na cabeça de pequena mel. primeira coisa que pensei foi “hãn?”. quer dizer que eu genuinamente gostar de cantar não é o que precisa pra ser cantora? a segunda coisa que pensei foi “acho que não sou bonita”. e comecei a reparar. comecei a olhar pra angélica como uma mulher bonita e não como uma apresentadora de programa, atriz de novela infantil e cantora. e quanto mais mulheres bonitas eu identificava — na tv, nas minhas colegas de sala — mais certa eu ficava da minha feiura.

eu era uma criança inteligente. nos anos anteriores eu havia ganhado o prêmio escolar de melhores resultados alcançados, e isso me deu orgulho na primeira série, mas na quarta eu tinha entendido que ser inteligente não tava com nada. as pessoas inteligentes eram ridicularizadas, chamadas de “cdf”, consideradas menos legais. as meninas que eram mais populares, as meninas que eram consideradas interessantes, as meninas de quem todo mundo queria ser amigo: elas eram bonitas. elas eram extrovertidas. elas eram seguras. e eu precisava encontrar, senão a beleza que eu queria, a segurança pra me considerar legal e chegar no patamar delas. claro que isso nunca aconteceu enquanto eu frequentei a escola.

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o conto liking what you see: a documentary, do ted chiang (que escreveu também o conto que foi a inspiração do filme a chegada) se passa numa época em que determinadas escolas exigem o uso de um implante que nos impossibilita de enxergar beleza ou feiura no rosto humano. vemos apenas rostos, sem distinção de julgamento estético. ainda dá pra enxergar beleza na arte, na natureza, etc etc, a gente só para de discriminar rostos humanos por sua beleza — ainda distinguimos feições, particularidades, expressões faciais. ao fazer 18 anos e deixar a escola, o estudante pode optar por retirar o implante — e compreender um mundo no qual você está sujeito a se posicionar mal ou bem por causa de sua aparência.

o conto se constrói em narrativas paralelas: lemos o depoimento de uma adolescente que acaba de retirar seu implante, e seu namorado, que decide mantê-lo, intermediadas por relatos de sociólogos, médicos e historiadores sobre o papel da beleza e as vantagens ou desvantagens de ter o implante. a discussão latente, acredito eu, é essa: precisamos desligar nossa habilidade de enxergar beleza no rosto humano ou precisamos estudar e repensar o conceito de beleza na nossa sociedade e o impacto do “ser bonito” ou “ser feio” nas nossas relações, na nossa carreira, nas escolhas que fazemos, nas possibilidades que nos são oferecidas, em como somos tratados….

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aos 16 anos, fui levada na dermatologista pela minha mãe. a dermato olhou minhas pintas, olhou meu couro cabeludo, me deu um desodorante anti-alérgico pra testar, e finalizou a consulta dizendo: “quando você sorri aparece muita gengiva né? a gente resolve isso rapidinho com botox! essa ponta do seu nariz que desce quando você sorri também dá pra arrumar com botox”.

eu, aos 16 anos, que já sonhava com uma plástica no nariz desde os 13, nunca tinha nem notado essa pontinha que desce quando eu sorrio. hoje me pergunto o que leva uma médica a dizer para uma garota de 16 anos que ela precisa de botox pra consertar coisas no rosto dela que acontecem porque ela é uma pessoa viva. mas por muito tempo só afirmei a mim mesma “então meu nariz é pior do que eu pensava”.

até hoje tenho problemas com meu sorriso. odeio minhas gengivas, odeio sorrir em fotos (há pouquíssimas fotos em que eu sorrio com os dentes à mostra nesse blog), e estou agora tentando arrumar isso: sem botox, sem plástica; com aparelho ortodôntico e muita paciência pra saber que a decaída na minha auto-estima por conta do aparelho vai ser recompensada num futuro breve com dentes que foram cuidados, pra garantir não só uma melhora estética (que foi o que a dermatologista me ofereceu) mas também uma melhora na saúde da minha arcada dentária. porque turns out, gente, que essa gengiva excessiva é por causa de mau posicionamento dos dentes, que pode causar desgaste prematuro da gengiva, o que faz as raízes dos dentes ficarem expostas, que no fim causa queda dos dentes. e isso tem que ser tratado — coisa que a dermato nem pensou em pesquisar antes de oferecer um tratamento estético caro e temporário pra uma adolescente insegura.

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somos bombardeados diariamente com mensagens que nos ensinam a disfarçar, camuflar, esconder nossas diferenças (que a gente chama de “imperfeições”, mas pfv, né).

quando passei da infância para a adolescência entendi que eu podia novamente compensar minha feiura com inteligência. não o tipo de inteligência escolar da minha infância, mas uma inteligência que eu podia usar pra mostrar que eu era interessante mesmo sem ser bonita. pensando hoje nisso, percebo como analisei meus diferenciais, as particularidades que fazia de mim interessante, e escolhi uma imagem que refletisse rapidamente esses diferenciais.

se eu não era bonita, eu podia usar roupas diferentes pra causar estranhamento — e se tão te olhando com estranhamento, significa que tão te notando. eu podia mostrar que não era conformista, que tinha repertório musical e cultural, que pensava diferente, que tinha uma personalidade mais agressiva, ou mais divertida, ou mais “who cares”. aprendi que se eu conseguia mostrar que eu não me importava com o que os outros pensam, então parecia que eu realmente não me importava.

e uma menina feia pode ser feia, desde que ela demonstre claramente que é feia porque não se importa com a opinião os outros. porque ela é diferente. alternativa.

eu sou apaixonada por tatuagens porque elas são uma maneira de controlar meu corpo. eu posso ser meio feia, posso não ter o corpo mais sarado, mas na minha pele eu marco o que eu quiser. eu ponho arte em mim, porque quem escolhe o que me faz bonita sou eu, e não a maneira como meu corpo é.

eu gosto de fazer tatuagem, gosto de escolher um desenho, gosto de guardar o dinheiro, gosto de ter algo único no meu corpo que eu escolhi ter, já que todo o resto veio do jeito que o destino decidiu. me sinto poderosa, me sinto corajosa, me sinto artística e aventureira. e não deixa de ser, ainda, até hoje, minha estratégia da adolescência de criar interesse, criar um ponto em mim que vai fazer as pessoas me olharem e falarem comigo, nem seja pra perguntar “NOSSA DOEU?”

já escrevi antes sobre odiar meu nariz. eu realmente pensei, em uma época da minha vida, que uma cirurgia plástica no nariz resolveria minha vida. eu ainda não ia ser BONITA, mas estaria mais perto. eu não teria tanta vergonha, não seria tão tímida. assim como a gengiva que a dermatologista quis esconder, eu queria esconder meu nariz grande. porque ele era diferente. e o que é diferente a gente tem que fazer parecer igual. as tatuagens são lembretes pra mim de que o diferente pode ser exibido, sim. eu posso exibir minhas tatuagens, assim como posso exibir meu nariz grande e meu óculos que uso pra corrigir 8 graus de miopia. não quero esconder mais nada, quero exibir tudo e ainda por cima me achar bonita.

já ouvi dizer que tatuagem é coisa de meninas feias que querem se exibir.

entendo a perspectiva.

porque isso é o que sou, na verdade.


Originally published at repeteroupa.blogspot.com on June 30, 2017.