Dedicado aos pequenos encontros diários

Por Melvin Quaresma

Algumas lembranças, aquelas guardadas com mais carinho, resistem quase intactas em meio às muitas imprecisas memórias dos meus primeiros anos de faculdade. Repetido diariamente naqueles tempos, um pequeno enredo sobrevive no lembrar. Às sete da manhã aproximadamente, de segunda a sexta-feira, a história se desenrolava. Era um “oi, bom dia!” de lá, outro “oi, bom dia!” de cá, sem mais palavras. Além do sucinto diálogo, os gestos também foram guardados com apreço: ela me presenteava com um sorriso — largo, sempre — , e eu a retribuía com esforço para alcançar seu grau de simpatia.

Me lembro também dos momentos posteriores aos sorrisos largos. De manhã cedo, nos dias ensolarados, as sombras das muitas árvores eram imensas e avançavam por sobre o asfalto; no caminho até a sala de aula, as gigantes sombras humanas me acompanhavam. Em dias chuvosos, as sombras davam lugar aos brilhos e às superfícies cintilantes. A lataria dos carros, o asfalto, as folhas, os pisos cerâmicos, a pele de toda a gente, os pingos sobre a lente dos meus óculos… Como cintilam bonito as lembranças chuvosas bem guardadas!

Às sete e vinte da manhã, as aulas iniciavam; às onze e dez, terminavam. Pouco antes do início, nosso primeiro encontro acontecia; pouco após o término, era o segundo e último. Este último carrega trama também simplória, com poucos segundos de duração; era “tchau!”, outro “tchau!” e sorrisos — largos, sempre largos. Após as onze e meia, só às sete da manhã do dia seguinte nos veríamos novamente.

Assim, carregados de efemeridade, eram todos os nossos encontros. Ou quase todos. Num deles, minha introversão subitamente sumiu e deu espaço à coragem de perguntar e finalmente saciar a persistente vontade: 
“Posso fotografar você?”
Ela aceitou.
E, dessarte, todas as sombras, brilhos, superfícies e memórias cintilantes agora residem na imagem da alegria dela, a Cristiane, a funcionária do estacionamento, a quem agradeço pelos tantos dias regados a sorrisos honestos.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.