Morreste-me

Daniel Leite
Sep 4, 2018 · 4 min read

Esse texto me acompanha já tem um tempo. Já mostrei ele para muitas pessoas. Ele foi inspirado na obra de José luís Peixoto, que tem um livro com o mesmo nome e a mesma temática, embora, eu só tenha lido o livro depois de ter escrito essa catarse.

Katarzyna Grabowska photo

Talvez, o momento em que mais me senti afetado foi quando, sentado no banco do cartório de registros, a escrivã gorda com dedos amarelados pelo tabagismo perguntou-me o nome completo de meu pai. Segundos antes de responder, me passou pela cabeça que 26 anos ou 9742 dias atrás, quem entrava naquele mesmo local para registrar-me era meu pai. Mas naquele dia, quem registrava era eu. O seu óbito.

As 9h45 do dia 14 de dezembro de 2010, sentado naquele banco de couro falso avermelhado e com marcas de outros sentantes, eu: esmorecido, aturdido pela noite passada ao lado do caixão. Será que ele havia sentado no mesmo sofá? Decerto não. Devia estar vibrante, alegre, com um largo sorriso querendo gritar aos quatro cantos que nascia o seu primogênito e MENINO… Ah… um homem. Ele era o caçula de 5 irmãos, acabava de descobrir a paternidade com 27 anos. Não… ele não sentou, ficou em pé, e podiam demorar a atendê-lo pois, lá fora aguardava seu filho recém-nascido. A escrivã, com os dedos na época ainda em tom saudável do vicio não adquirido, perguntou-lhe também o nome, o meu nome.

Eu, com 26 anos completos e me encaminhado para os 27, fiquei imaginando o sorriso, aquele que eu conhecia bem. Não o teria mais. Como se tornou sublime essa linha no tempo que dividia o meu nascimento e a morte dele. Um homem de olhar tácito, de estatura mediana, mas alma altiva e vivaz. Trabalhador incansável, de palavra simples e coração aberto. Eu sentado, perdido nesse lapso de tempo, nesse instante revelado divinamente, como que se por um instante eu estivesse a participar do momento mais marcante da vida dele. Volto-me à escrivã e digo calmamente seu nome, que ainda existe na carteira de identidade com a foto, na carta de motorista, no CPF, no endereço do talão de água e luz e, enquanto durar, na lápide triste e gélida que acima da terra mostra o depósito daquele corpo que dias atrás chamava eu: — PAI.

Sai do cartório com a dita certidão em mãos, e o sol forte cegou-me por um instante e me trouxe a realidade, mais real que qualquer coisa que já tinha passado na vida. Pra onde ir agora, a quem recorrer? Um vazio de-fi-ni-ti-va-men-te se instalou dentro de mim, mas o vazio não cabia em mim, nem em minha cabeça, nem em meus olhos nem no mais espaçoso dos espaços que podia ter dentro de mim. Era como se o universo, que nada é, de repente quisesse adentrar o planeta Terra. Não cabia, vazava pelas orelhas, pelos olhos, e isso me fez perder tudo.

Recostei-me numa parede, e vaguei o olhar pelas ruas, esperando achar em alguém o seu caminhar e lembrar do meu. Queria ter a memória dele me ensinando a dar os primeiros passos, sentir ele me levantando quando eu, desajeitado, cai. Do olhar compreensivo, alegre e brilhante que, ternamente, fez-me tentar de novo. Olhei de novo para dentro do cartório e lembrei que a primeira palavra concreta que saiu de minha boca foi: Pai, e que ele cheio de alegria saiu do banho ainda nu e me enlaçou em seus braços. O vazio encheu-me e nada de meus olhos saiu. Queria agora naquele momento, por um breve instante, que esse enlace paterno me envolvesse e me tirasse daquela situação, daquele lugar, daquele dia. Queria que toda essa nostalgia procurada me livrasse do fardo de ter que “não ter mais nada”. Mas essa dor era só minha e só a mim cabia, a mais ninguém. O que eu tinha dele era só meu e dele, e me foi tirado de uma vez. Eu sempre superior, achava que “para este dia estou preparado”. Até aquele momento eu estava, até aquele segundo em que nos encontramos no tempo, na mesma idade em fatos tão análogos, olhamos nos olhos, vida e morte; vida nascendo e passando diante dos olhos secos; morte indizível, incomensurável, incompreensível passagem.

Naquele desacordo temporal olhamo-nos aos olhos e ele me disse em alto e bom tom: — Há vida, nasceste!

Eu em real desacordo lancei ao nada: — Sem nada me deixas, morreste-me.

    Daniel Leite

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