Projeto Memória Lésbica

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Design de Sophia Andreazza

O projeto Memória Lésbica surgiu em agosto de 2019 como resposta política e cultural ao contexto de descaracterização do movimento de lésbicas pelo neoliberalismo sexual e de gênero representados pelo movimento LGBT/Queer. O chamamos assim, Memória Lésbica, por ser precisamente o diagnóstico que damos à situação do movimento lésbico de falta de conhecimento acerca da sua própria história, genealogia de luta, pensamento,existência e ancestralidade. O que nos deixa à mercê do vazio simbólico, no qual eternamente a história feminina é lançada no patriarcado, e nos transforma em pálidas versões das produções dos homens: o segundo sexo de seus movimentos; o L do lgbt, que nos dilui e nos desaparece em suas siglas e significados. Assim, sem conhecimento dos passos que nos antecedem, começamos sempre do 0, sem consciência e sem orgulho ou reverência pela tradição de resistência daquelas que vieram antes de nós e que nos permite estar aqui hoje.

Estamos num momento de esvaziamento do significado de palavras como “Lésbica” e “Mulher”, que designam experiências específicas e indissociáveis do seu caráter sexuado. Sem essas palavras e categorias é impossível uma luta política organizada e a manutenção daquilo conquistado pelas nossas antepassadas. A diferença sexual é ontológica à lesbiandade e estamos aqui para devolver às palavras seu conteúdo concreto. Entendemos o corpo das lésbicas como o território primeiro vital, que foi invadido e colonizado e que, através da lesbiandade, é defendido, retomado, recuperado, cuidado e sanado. O corpo das mulheres está em disputa em uma guerra, os femicídios e lesbocídios são diários. A heterossexualidade é a forma de ocupação masculina desses territórios explorados na reprodução compulsória, trabalhos de cuidado, maternidade, trabalho doméstico, prostituição, pornografia, gestação sub-rogada, abuso sexual infantil, etc.

A Lesbiandade não é uma mera orientação ou prática sexual como nos fizeram crer os patriarcas por meio de suas ideologias. A Lesbiandade é uma ação direta das mulheres de rebeldia contra a classe masculina, é a base ética de um modo de vida crítico ao sistema masculino. A lesbiandade é a recuperação dos laços entre mulheres: é priorizar e amar mulheres num mundo que nos odeia.

Queremos recuperar as nossas comunidades lésbicas e seu caráter político, cultural e ancestral. Recuperar nossas memórias de resistência e rebeldia, resgatando nossas raízes lésbicas e os legados deixados a nós pelas sapatonas ancestras, pautando novamente a potência radical da existência lésbica.

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Temos por objetivo:

  • Produzir e transmitir política lésbica-feminista, pois entendemos que a falta de formação política é um elemento central da atual colonização do nosso movimento por homens e suas ideologias disfarçadas de progressistas. Logo, buscamos politizar as lésbicas e fomentar consciência e orgulho sapatão;
  • Impulsionar e fortalecer a cultura lesbica. Pensamos a arte como ferramenta de produção de ordem simbólica, que oferece novos sentidos à experiência feminina e cria um local onde podemos habitar;
  • Zelar por espaços seguros
  • Criar espaços separatistas somente lésbicos e uma economia entre lésbicas;
  • Recuperar o caráter político e radical do movimento de lésbicas;
  • Recuperar e preservar genealogias de luta e pensamento lésbico;
  • Destruir a Heterossexualidade como regime político. Consideramos esse regime a fonte da subjugação das mulheres à classe dos homens. Buscamos sua destruição pela libertação das mulheres;
  • Apoiar o aborto autônomo e sua descriminalização. A lesbiandade é o melhor contraceptivo: uma resposta mais radical que o aborto à violência do hetero-sexo. Porém, reconhecemos a força estrutural da cultura de estupro e compulsoriedade do coito, uma sexualidade desigual e centrada no prazer e poder masculino;
  • Cultivar a resistência lésbica, autonomia e autogestão sapatão;
  • Lutar pelo abolicionismo da prostituição, da pornografia e do gênero.
  • Lutar contra a pedofilia, inerente ao regime heterossexual;
  • Pautar e lutar contra o racismo, fomentando a consciência étnico-racial e reparação histórica entre lésbicas;
  • Alimentarnuma postura e uma práxis de vida anti-capitalista;
  • Defender o veganismo, o anti-especismo e a ecologia radical como fundamentais no movimento de lésbicas;
  • Lutar contra o lesbo-ódio, demandar justiça nos casos de lesbocídio, acabar com a impunidade.
  • Apoiar lésbicas encarceradas;
  • Apoiar os povos indígenas, defensoras essenciais da Planeta;
  • Apoiar as lésbicas caminhoneiras e promover seu reconhecimento como linha de frente da visibilidade lésbica e as mais oprimidas por motivo de lesbo-ódio;
  • Promover a lesbiandade como direito radical das mulheres ao próprio corpo e portanto, uma possibilidade para qualquer mulher viver e escolher. Promover o verdadeiro e real pertencimento do próprio corpo;
  • Fomentar a coletividade lésbica, redes de apoio-mútuo, a solidariedade sapatão/sororidade;
  • Colocar as lésbicas em primeiro lugar nas nossas políticas, frente ao heterossexismo do movimento feminista;
  • Pautar saúde lésbica alternativa, o auto-cuidado, a autodefesa, a alimentação vegana e a prática física como essenciais no fortalecimento das lésbicas e promoção do amor-próprio, necessários para resistir no patriarcado. Buscamos não apenas sobreviver, mas o bem-viver e a criatividade para além da opressão.
  • Perseguir o internacionalismo, uma vez que o Patriarcado é global. Por isso, nos conectamos com lutas lésbicas de outros territórios, de preferência a Abya Yala. Somos anti-imperialistas e anti-colonialistas (por isso, críticas ao queer que vemos como empreendimento yankee colonial e primeiro-mundista).
  • Somos anti-assimilacionistas, não buscamos inserção no sistema capitalista e patriarcal, como faz o movimento lgbt.
  • Praticar a autonomia, não acreditamos que a agenda de direitos do Estado Racista patriarcal resolvera todos nossos problemas, e sim nossa auto-organização. Somos radicais, por isso vamos à raiz do problema e temos a coragem necessária para isso,pois nenhum reformismo acabará com o lesbo-ódio estrutural e cultural, nem trarádignidade real.
  • Adotar uma perspectiva crítica (não contrária) ao casamento, por considerar que ele anula outras formas de relações significativas e comunitárias. A validação legal apenas do casamento marginaliza outros vínculos entre pessoas que não passem pelo contrato sexual entre um casal.
  • Criticar a adoção quando descolada de um debate. profundo de raça, classe, colonialidade, restrição do aborto e busca de justiça para as mães dessas criança. Muitas das quais estão encarceradas, em situação de rua, dependentes química, indígenas,vivendo em países com crise humanitária e que perderam a guarda por motivos de vulnerabilidade.
  • Contrapor a lógica da mercantilização de corpos, somos anti-barriga de aluguel/gestação subrogada pois os corpos das mulheres vulneraveis não devem ser usados para gestar crianças para casais LGBT.
  • Garantir os direitos da infância, os interesses de integridade psicológica de crianças e sua individualidade, pois crianças são pessoas e não direito de casais. E por fim convidamos a refletir que esse desejo de ter crianças por meios escusos como a barriga de aluguel e adoção anti-ética não é resultado do heterossexismo e portanto construido pela pressão heteronormativa e falta de auto-estima como lésbica.
  • Orgulhar-nos da diferença que representamos e não buscar apenas sermos “normais”. Ao invés da família monogâmica, acreditamos na comunidade lésbica como forma de coletividade potente e subversiva. Valorizamos nossa dimensão anti-reprodutiva como ecológica. Não queremos que só possamos ter direitos migratórios, de saúde, herança, e validação dos nossos vínculos por meio exclusivamente do casamento. Somos contrárias a inseminação artificial por ser um mercado racista e elitista.
  • Recusar a inserção no serviço militar ou policial.
  • Recusar o movimento que busca a igualdade com heterossexuais como um objetivo medíocre em relação a tudo que podemos transformar com o que somos, e não desejamos suas misérias/privilégios, seu sistema. Não acreditamos nos falsos direitos iguais que nos oferecem como se agora tudo estivesse melhor.
  • Somos contra escracho e cancelamento de lésbicas. Acreditamos em resolução de conflitos nas nossas comunidades que não passem pelo punitivismo, o qual apenas estimula a sabotagem material de uma população vulnerável e o lesbo-ódio. A demanda de que lésbicas sejam perfeitas e não errem é desumanizante, tal exigência se origina na misoginia mais antiga contra mulheres e lésbicas. E o cancelamento é contrário ao ambiente democrático para que debates e reflexões necessárias ocorram.

Convocamos todas as lésbicas identificadas com essa proposta rebelde a fazer parte desse chamado a construção de um movimento que faça jus à potência da existência lésbica.

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O legado sapatão não será apagado: conteúdo lesbofeminista que busca retomar as raízes rebeldes do movimento de lésbicas.

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